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 48 ANOS DE VIDA EM COMUM – 1973-2021

Este ano completamos 48 anos de vida em comum, faltam apenas dois anos para as chamadas bodas de ouro, 50 anos. Mas como não está fácil chegar lá, quisemos deixar um pouquinho da nossa experiência de vida através de um texto e de um pequeno vídeo. Com este vírus e outros males à espreita, dois anos é muito tempo. Mas vamos acreditar que sim. Afinal ainda não chegámos aos setenta, no meu caso já não falta muito. Por isso, vamos seguir uma velha máxima: “Quando a noite estiver mais escura é porque está perto de amanhecer”.

Uma vida em comum tem momentos felizes, conquistas, partilhas, vitórias, derrotas (vamos perdendo familiares) e alguns percalços também. Vida a dois tem momentos bons e menos bons. Quem não souber lidar com isso está condenado ao fracasso e a durabilidade da relação não é sólida, não é irreversível. O casamento não é prisão. Devemos ter a liberdade de permanecer livres e independentes e não perdermos as nossas personalidades. Ceder às vezes, sim. Mas anularmo-nos, nunca! Mantermos os nossos gostos próprios, a família, os amigos, enfim, as nossas identidades. Com o tempo vamos descobrindo como conciliar tudo isso com a vida a dois.

Quando plantamos uma árvore escolhemos um local apropriado e, de preferência, que seja fértil. Depois, é necessário regar diariamente e podá-la de vez em quando, cuidar dela, para que cresça mais forte. Nas nossas relações (casamento, amizade, família) passa-se a mesma coisa, o mesmo objectivo.

Alguns afirmam, com alguma resignação, que existem pessoas com muita sorte por viverem tanto tempo juntas. Mas não é uma questão de sorte, quero dizer, um pouquinho de sorte também ajuda, mas não é o suficiente. Achar um parceiro para a vida toda, num mundo de sentimentos tão voláteis como o nosso, é quase um feito inalcançável. As novas gerações têm outra percepção da vida e nem sempre conseguem. Os tempos são outros, as circunstâncias também, daí fazerem escolhas diferentes. Nós conseguimos. Mas não somos só nós. Em Sarilhos Pequenos, e estou a falar só da minha geração, mais ano, menos ano, nascidos entre o fim da década de 1940 e inicio da década de 1950, assim de repente, estou a lembrar-me de mais de trinta casais que ainda hoje também permanecem juntos há tantos anos. E se olharmos para as gerações anteriores à nossa, ainda vamos encontrar muitos mais. É claro que nem todos aqueles que vivem juntos há muitos anos são bons exemplos! Há até casos de muita infelicidade, por várias razões. Mas isso é um assunto que, numa análise sociológica mais profunda, daria para escrever várias páginas. Porém, fico-me por aqui. Já nos basta as televisões a transmitirem a toda a hora notícias negativas: doenças, mortes, covid, hospitais, homicídios, violência doméstica, etc.   

Voltando ao nosso caso, diria o seguinte: não tenham pena de nós, pois tivemos uma vida muito preenchida, sempre juntos, ou quase sempre. Num contexto social, económico e político da sociedade portuguesa da época – princípio da década de 1970 – em que persistia ainda muita iliteracia, pobreza e poucas oportunidades para os jovens, tivemos a possibilidade de visitar alguns dos mais emblemáticos locais culturais do mundo, que contribuíram indubitavelmente para enriquecer a nossa experiência de vida, a nossa formação e a nossa condição de seres humanos. A páginas tantas, deparámo-nos com uma “lua-de-mel” antecipada: oito dias em Paris. Depois, visitámos 8 países e 15 cidades europeias. Mais tarde, também fomos bem-sucedidos com a filha, criando as condições para a sua formação académica e, posteriormente, ela própria, puder viajar para 11 países e visitar múltiplas (o dobro) cidades europeias, incluindo Veneza e Santorini. Visitámos o museu do Louvre e a Catedral Notre-Dame, em Paris. Visitámos o famoso museu Hermitage, em São Petersburgo, com uma história incrível. O Hermitage é um dos maiores museus do mundo, possui mais de três milhões de peças. Ainda visitámos vários outros museus e partilhámos muitas visitas históricas. Assistimos a múltiplas manifestações culturais e artísticas e a várias óperas no teatro Bolshoi, com destaque para o balé (ou ballet) “Lago dos Cisnes”, do compositor Tchaikovsky, uma das melhores obras do género, apresentado pela primeira vez em 4 de Março de 1877. Dentro do nosso país visitámos muitos locais culturais e de lazer, desde Miranda do Douro ao Algarve.

Assim, poder-se-á dizer, sem falsas modéstias, que foi algo muito profícuo a que a maioria dos jovens portugueses da nossa idade, à época, não teve oportunidade de realizar, muito menos ainda filhos de trabalhadores. Mas connosco aconteceu, mesmo sendo filhos de trabalhadores humildes de Sarilhos Pequenos. Como disse o filósofo José Ortega: “O homem é o homem e suas circunstâncias”. Hoje, visto à distância temporal, consideramos que fomos uns jovens privilegiados. Privilegiados culturalmente, no sentido do conhecimento e da experiência de vida, mas não por termos sido favorecidos na vida, que não fomos, antes pelo contrário, vivemos uma infância de tempos difíceis.

Foi uma aventura inimaginavelmente partilhada por nós há 47 anos. Digo inimaginável, por sermos ambos muito jovens (21 e 23 anos), nascidos numa pequena aldeia ribeirinha, cheia de estereótipos, como todas as aldeias, onde o estigma de se nascer no seio de famílias humildes era muito acentuado. Havia sempre quem confundisse, erradamente, alguma pobreza económica com pobreza de espirito. A maioria da população masculina trabalhava no rio Tejo, fragateiros. Mas, ainda assim, havia quem enfatizasse e promovesse diferenças sociais. Pobreza de espirito havia, e ainda há, em todos os grupos sociais da população. Há até muita gente que não tem pobreza de dinheiro, mas tem muita pobreza de espirito. Não há maior demonstração de pobreza de espirito do que a necessidade que alguns têm de ostentação. Ou rir dos outros, isso, sim, é pobreza de espirito. Ao contrário, rir com os outros é uma coisa saudável, alegre e faz bem à saúde.

Nascemos em Sarilhos Pequenos e ali vivemos até aos 22 e 24 anos. A Guida nasceu no “Bairro das Tesas” e eu nasci quase à entrada da “Margateira”: são epítetos de lugares simbólicos de Sarilhos Pequenos no tempo em que se nascia em casa com a ajuda das chamadas “parteiras do povo”: Ti Ana “Liró” e Ti Emília “Larilas”, ambas sem formação alguma, nem profissional, nem escolar, apenas a prática de assistir a muitos partos e a proles abundantes. Apesar disso, o trabalho delas, o seu voluntarismo, foi fundamental e decisivo para a existência de muitos de nós. E até davam injeções! Assim, podemos afirmar, em jeito de brincadeira, que todos os que nasceram em casa são verdadeiramente naturais de Sarilhos Pequenos, por ali terem nascido. Actualmente, nasce-se em hospitais. É claro que estou a brincar! Todos os que são criados em Sarilhos Pequenos são sarilhenses.

Injeções também dava a Ti Maria “Pataca”. A Ti Emília “Barrigana” fazia e vendia água das rosas para os olhos (eu ia lá comprar para a minha avó). A Ti Estefânia tratava entorses, era endireita de pés torcidos e outros males afins. Até a minha mãe dava injeções à família, imagine-se!... É uma confidência verdadeira. Deu ao meu irmão primogénito, quando este foi acometido da febre da carraça, e também ao meu pai. Penso que também terá dado a outras pessoas da família, mas não tenho a certeza. Uma coisa impensável de acontecer nos dias de hoje, mas era o que havia!

 Era uma terra pequena virada para o rio (hoje, quase todas as aldeias ribeirinhas estão de costas voltadas para o rio, os tempos mudaram e a vida também) e onde a maioria da população adquiria o sustento: E as tais “diferenças sociais” que mencionei atrás, até nos namores se revelavam: os filhos dos mais bem-sucedidos, dos remediados e dos emproados (os tais pobres de espirito com ar de superioridade), normalmente ignoravam os filhos dos menos favorecidos, quase sempre por imposição dos pais, mas também por vontade dos próprios, que herdavam e seguiam os pensamentos erróneos dos progenitores, criando muros e barreiras desnecessárias e obtusas. Nós não tivemos essas barreiras porque somos ambos originários de famílias humildes, nem tivemos intermediários (aquilo que designava na época por “namores feitos”). Não se trata de palavras despeitadas, apenas factos, eram outros tempos, em circunstâncias diferentes. Os filhos eram sempre vistos em função das condições económicas dos pais. Foram as circunstâncias da vida que ditaram as regras. E as regras favoreciam sempre aqueles que provinham de famílias com razoáveis ou mesmo boas condições financeiras, comparado com a maioria da população de Sarilhos Pequenos. Aquilo a que o Status Quo da sociedade, à época, designava como “pessoas ricas”. Ricas, no contexto da aldeia, que eram, mais ou menos, meia dúzia de famílias. E as pessoas ricas no contexto das aldeias tornam-se pessoas “importantes” e reverenciadas. Era uma época em que a importância das pessoas andava muito ligada aos bens materiais e à riqueza pessoal. Hoje, a vida mudou muito, mas ainda existem muitos resquícios desses tempos e desses pensamentos.

O tempo é implacável com todos, nunca pára nem espera por ninguém, segue o seu caminho sem olhar para trás, não tem nenhuma compaixão por nós. E passa para todos independentemente de quem seja, não há nenhuma regalia para ninguém. A nós, as marcas do tempo deixaram anos de experiência que a vivência em comum nos proporcionou. E não importa o número de anos vividos, o importante mesmo é o que ainda sentimos. A idade está nas nossas cabeças. Não fora as maleitas do corpo, algumas com mais gravidade, motivadas pela declínio normal dos nossos órgãos, estaríamos aí para as curvas, como soi dizer-se. As rugas, essas, ainda não se vislumbram, estão tímidas, mas não as tememos, elas são as marcas do tempo a passar por nós, dos anos vividos, adquiridas nas lutas do dia-a-dia, como prova inexorável da nossa existência. A verdadeira idade não é avaliada só pelos anos vividos, também é pelos carinhos tocados, pelos sorrisos roubados, pelos sonhos tentados e pelos beijos dados.

Agora, que entrámos na chamada 3ª idade, já passámos o número 65, considerada velhice, não vamos desistir. A vida tem as suas fases e esta já foi mais respeitada. Outrora, a velhice era uma dignidade; hoje, ela é um peso, infelizmente. A velhice é incómoda, claro! Ela nunca vem só, traz sempre muitas coisas atrás. Porém, envelhecer também é viver. E se envelhecermos juntos, melhor ainda. Nós ainda não perdemos a capacidade de nos indignarmos, quando isso acontecer, então sim, envelhecemos mesmo.

Durante a nossa curta existência, a exultação e a dolência caminham de mãos dadas. É por isso que devemos tentar ser felizes de vez em quando porque não se pode ser sempre, isso não existe. Além disso, ser feliz consome-nos muito tempo.

Para terminar, recordo uma frase muito usada pelos antigos fragateiros do Tejo: AGORA É SÓ FAZER LEME!... Era o que o meu pai e o Ti João da Rosa me diziam quando eu tinha 10 anos e os acompanhava na labuta diária, em várias ocasiões, quando a fragata carregava vinho de Lisboa para Azambuja: setenta toneladas de barris com vinho. Quando os ventos eram de feição (vento à popa) e a maré enchia, mandavam-me para o leme da fragata – escota aliviada e vela enfunada – e lá ia eu a navegar, a fazer leme. A fragata, praticamente já sabia o rumo. É precisamente isso que nós estamos a fazer agora nesta fase das nossas vidas: “fazer leme” e deixar-nos ir…  

Marcolino Fernandes não escreve de acordo com a nova ortografia “brasileira”.

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A FATÍDICA HISTÓRIA DO “CATIMANCIAS”

Na década de 1950, uma família de forasteiros, gente pobre, veio morar para Sarilhos Pequenos, para o “Bairro das Tesas”, corredor nº12. Um casal com cinco filhos, dois rapazes e três raparigas: Rute, Nice, Aida, António e Joaquim, o “Catimancias”. O pai era pastor protestante, uma actividade religiosa de onde provinha os seus parcos proventos. Não se lhe conhecia outro trabalho, razão pela qual os filhos tiveram de se “fazer à vida” muito cedo. Foi o caso do “Catimancias”, que mal chegou a Sarilhos Pequenos foi logo guardar vacas. Depois, quando tinha uns 16, 17 anos de idade, foi-lhe oferecido um trabalho precário num pequeno agricultor nos arredores do Montijo, o “Ti Manel dos queijos”, que tinha cabras e ovelhas e fazia queijos para venda. De vez em quando vinha a Sarilhos Pequenos, numa carroça, vender os seus queijos. E foi precisamente num desses dias de venda que ele reparou no Joaquim “Catimancias” e o levou, por compaixão, para seu ajudante, mediante um pequeno salário, deixando assim de guardar as vacas do Ti António Chula, um trabalho que fazia em troca de comida e alguns tostões. A partir desse dia, passou a fazer o trajecto de Sarilhos Pequenos para a zona do Montijo a pé, ida e volta, pelos muros das salinas e das fazendas, até à morada do pequeno agricultor. Para encurtar caminho atravessava muitas vezes a carreira, o rio, entre Sarilhos Pequenos e Sarilhos Grandes, sempre que a maré permitia porque ele não sabia nadar. Por isso, atravessava sempre o rio na maré baixa, ou meia maré, desde que tomasse pé e a água não ultrapassasse o pescoço. Num desses dias, vindo do trabalho, ao atravessar o rio de uma margem para a outra, afogou-se na imensidão das águas e na solidão do espaço silencioso, numa hora fatal em que não se via vivalma. Ter-se-á descuidado e avaliado mal a profundidade da maré. Esta foi uma versão falada na época. Todavia, também se falou numa outra versão mais sinistra e talvez mais verosímil, que aludia a hipótese de suicídio. Dizia-se que se lançara deliberadamente ao “Alcantil”, um local mais profundo, tipo poça de água permanente, que havia no lado de lá do rio, onde a rapaziada se atirava aos mergulhos, Um suicídio premeditado, cuja causa fora a pobreza em que vivia permanentemente, sem esperança de uma vida melhor. Esta hipótese foi reforçada pela circunstância de ele ter deixado a roupa e os velhos sapatos, corroídos pelo tempo e muito uso, em cima das morraças. Não sei se foi mesmo assim, mas foi a versão que circulou. Andou desaparecido dois ou três dias, depois veio aparecer, já meio desfigurado pela acção dos caranguejos, aquando da baixa-mar. Durante o seu desaparecimento, um grupo de rapazes onde eu me incluía nadava e brincava no rio, no meio da carreira. Um desses rapazes, bem perto de mim, sentiu uma coisa estranha a bater-lhe nas pernas e arrepiou-se todo. Disse-me que parecia um corpo de uma pessoa submersa que embatera nele. Mas como a água estava turva e dava pelo nosso peito, não vislumbramos nada. Talvez fosse o corpo do “coitado” do “Catimancias” arrastado pela corrente, imaginámos nós, incautos, como todas as crianças.

Depois desse infortúnio, a família foi-se embora de Sarilhos Pequenos. Estiveram pouco tempo na terra, talvez dois ou três anos, o suficiente para ele ser alcunhado. Não sei como terá surgido a alcunha de “Catimancias”, isso é coisa difícil de explicar tal como muitas das alcunhas daquele tempo em Sarilhos Pequenos. Talvez se referisse a cartomancia, cartomante, método de adivinhação que usa as cartas, não sei, mas a verdade é que ficou com esse epíteto.

 O Joaquim era um rapaz alto, mas muito magro, tal como o pai e o irmão António, que também eram magros e de estatura alta. Dava para notar que não se alimentava bem – não era só ele que não se alimentava bem naqueles tempos! Para quem não sabe, ou não se lembra, recordo que existiu uma vintena de famílias de Sarilhos Pequenos a viver em barracas –, daí a sua postura de rosto triste e andar lento. Era um “paz de alma” inofensivo, que partiu precocemente sem ter tempo para ver a aurora transformar-se em dia. A manhã sorria, cheia de uma atmosfera juvenil e no ar leve e calmo agitava-se uma promessa de vida. A juventude nunca passou e o crepúsculo espalhou-se no seu sorriso eclipsado. Ele viveu sempre no crepúsculo da vida, em plena desarmonia com essa manhã que nunca lhe sorriu. A vida exilada do seu sonho é uma viagem sombria. No caso dele, sombria e curta. O Sol quando nasce é para todos, mas nem todos têm um lugar ao Sol. Ele não teve esse lugar, nem teve tempo para tentar, ou talvez já não quisesse tentar, tal não era o seu sofrimento interior. Naqueles tempos não se falava em depressões, dizia-se aborrecimentos, tristezas. Foi assim que o conhecemos, sempre triste e melancólico com a vida. Fechava-se dentro dessa sua melancolia constante. Recordo-o pela sua maneira de ser, sua forma de esta na vida: bondoso, calmo, de aspecto sofrido e com semblante meio aturdido. Ao resgatar agora essas trágicas memórias, pretendo também prestar um tributo à sua memória, passados que estão quase 60 anos. Ele também consta das minhas memórias de infância, infelizmente pelo lado negativo da vida. Poder-se-á dizer, com alguma razão, que ele também foi um dos rapazes que nunca foram meninos, nem sequer teve tempo para ser jovem, apenas passou fugazmente pela vida, uma vida amargurada. Houve muitos “Catimancias” que resistiram e alguns até foram, mais ou menos, bem-sucedidos na vida. Bem-sucedidos no sentido do constituírem família e terem uma vida condigna e honrada.

 Fomos educados numa sociedade e numa época, enquanto crianças, sob a doutrina da igreja católica, em que o bem e o mal tinham nomes próprios: o bem era (de certa maneira ainda é) sempre atribuído a deus. E quando a vida de alguém é salvo in-extremis, que não foi o caso, diz-se que é “milagre de deus”, por bem. Ou se alguém falece precocemente, mesmo sendo adolescente, diz-se que “foi deus que o chamou mais cedo”, também por bem. Ou, então, diz-se que foram “horas do diabo”, por mal. Mas a realidade é bem diferente da ficção e da fé. E não tem nada a ver com o divino e outras imaginações afins. O BEM e o MAL estão dentro de nós desde que nascemos. Só depende de nós, com o decorrer do tempo, determinar qual deles vai predominar, qual deles vamos alimentar mais. Ao “Catimancias”, que não se alimentava bem, mas que alimentava o BEM, não lhe serviu de nada ser filho de pastor protestante, deus não quis levar isso em conta.

 Marcolino Fernandes não escreve de acordo com Novo Acordo Ortográfico “brasileiro”

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As setas vermelhas indicam o sítio do "Alcantil".

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Vista parcial da zona ribeirinha de Sarilhos Pequenos onde se inclui também o Estaleiro Naval.

 

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Casa onde morou o "Catimancias"

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OS SARILHENSES E A MÚSICA

A propósito do aniversário do cinquentenário da formação do Conjunto Musical “Sol Vermelho”, de Sarilhos Pequenos, 1971 – 2021.

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Ao contrário dos nossos vizinhos de Sarilhos Grandes e Rosário, que ainda hoje têm bandas de música, cada um com o seu coreto, nós privilegiámos o futebol, que já não temos. Mas isso não quer dizer que não tenhamos tido uma forte ligação à música, sobretudo ao fado. Mas não foi só ao fado, também tivemos conjuntos musicais, bandas, como agora se diz, e vários instrumentalistas e cantores. Cantores e “cantadadores” de fado, apesar de não existir o verbo “cantadar”.

Em 1971, se a memória não me trai, foi constituído o Conjunto Musical “Sol Vermelho”, faz este ano 50 anos: 1971 - 2021. Elementos que fizeram parte do conjunto musical: Manuel Rodrigues (Manuel da Leonor, vocalista), António José Batista Casaca (o “Casaquita”, também fez de vocalista algumas vezes), António José Fernandes (viola ritmo), Domingos Fernandes (meu irmão, viola baixo), José João Fernandes (guitarra elétrica. Um bom instrumentista musical que, ao longo dos anos, evoluiu muito para a música. Hoje é um cantor multifacetado, ao que julgo saber, canta vários géneros de música, incluindo o fado), Joaquim ‘da Policarpa’ (acordeão e órgão. Menciono assim o nome para não incluir mais uma alcunha brejeira), Joaquim Fernandes (percussão, bateria), “Chico da Maria” (também ia esporadicamente tocar bateria) e António ‘da Albertina’ (também tocou bateria). Outro elemento que fez parte do Conjunto “Sol Vermelho” foi o grande músico de Sarilhos Grandes, já falecido, o “Leão”. Era um exímio tocador de saxofone, mas também tocava outros instrumentos musicais. Hoje, com as novas tecnologias já se fazem bailes com uma só pessoa a tocar e a cantar através da chamada mesa-de-som, misturadora, ou simplesmente mixer, que favorece muito as despesas das colectividades e substitui os grupos musicais, mas não é a mesma coisa. É o caso de Miguel Rodrigues, que faz os bailes da colectividade “Os Leças”, no Barreiro.

Nas décadas de 1940 e 1950 existiram em Sarilhos Pequenos dois conjuntos musicais, precursores do “Sol Vermelho”: “Companheiros do Luar” e “Os Águias de Ouro” fundado em 18 de Abril de 1954, cujo presidente foi Amaro Georgino Fernandes (Salpico). Um conjunto musical com um presidente é uma curiosidade, mas as coisas funcionavam assim à época. Terá sido ele, com certeza, o impulsionador, aquele que tomou a iniciativa de formar o conjunto. Além do próprio Amaro Fernandes, que tocava banjo, outros elementos fizeram parte destas memórias musicais: Manuel Miranda (Fonseca), vocalista; António José (O China) tocava viola, Francisco Caetano, Manuel “Vidro”, Joaquim Fernandes, João "Caralhotas" e outros. Desculpem o termo “Caralhotas”, mas só por esta alcunha ele é (era) reconhecido. Ele e outros, cujas alcunhas brejeiras estavam adicionadas ao primeiro nome. Para nós, sarilhenses, é normal e instintivo chamar as pessoas pelas alcunhas, mesmo que derivadas de palavras mais impudicas, que eram (são) várias.

Os instrumentos de corda da época, guitarra clássica (viola), guitarra portuguesa e banjo, mantiveram-se carinhosamente preservados e dependurados nas paredes das casas e arrecadações dos seus utilizadores, como era o caso de Amaro Fernandes, que visitei várias vezes em sua casa. Esses instrumentos marcaram uma época e foram companheiros de muitas alegrias, marcando um tempo e uma geração. Conheci três pessoas de Sarilhos Pequenos, já falecidas, que tinha banjos em casa, constatei isso presencialmente, mas não sei se os seus descendentes, herdeiros desse legado, terão valorizado e preservado esses instrumentos musicais. Todavia, as memórias prevalecem no nosso imaginário.

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                                                                 Documento do Conjunto  "Os Águias de Ouro"

Os conjuntos musicais abrilhantaram os bailes com grande fulgor e entusiasmo. Pelo meio foram aparecendo outros grupos musicais de circunstância, com vários elementos que passaram por outros conjuntos. Naqueles tempos, os bailes eram entretenimento de agradável lazer que os jovens e adultos desfrutavam com prazer. Bailes, cinema ambulante, cantos de fado, futebol e outros jogos populares. Era o que havia em termos lúdicos, numa época de pura vivência colectiva. A juventude transpirava de alegria, depois de uma semana de trabalho, dançando ao som dos conjuntos musicais, que tinham melodia, música dos anos 60, sem o barulho actual de algumas bandas de “abanar o capacete”. As raparigas e os rapazes de então deleitavam-se com o convívio dos bailes, pelos contactos voluptuosos que os mesmos propiciavam quando a dança começava. Eram dias e noites de magia, de sonhos, de fantasias, de folia e de convívio. Muitos amores e desamores, namoros e casamentos iniciaram-se nos bailes, alguns resultaram em matrimónios bem-sucedidos e duradouros.

Quanto ao fado, fadistas e guitarristas, a história é mais intemporal, prevalecem até hoje os fadistas e seus acompanhantes à viola e à guitarra portuguesa. A esse propósito, menciono apenas alguns nomes de fadistas e guitarristas de outros tempos. Começo pelos fadistas: Abílio (pai do ‘Lhica’), “Antoniozinho” (familiar do actual fadista Toinozinho, meu estmado companheiro de infância), António “Charro”, António Francisco “Paquistão”, Joaquim Fernandes, "Canhoto" (também cantou fado) e vários outros que cantavam esporadicamente. Em algumas tabernas também se cantava o fado. Cantava-se nas tabernas e na sede do 1º de Maio Futebol Clube Sarilhense, todos fadistas amadores. Quanto aos guitarristas: Manuel “Vidro” [pai] (guitarra portuguesa), Manuel “Vidro” [filho] também tocava guitarra (viola), António “Chouriço” (guitarra portuguesa), Zacarias Fernandes (guitarra portuguesa), outro Zacarias Fernandes (‘Penetra’ de alcunha, pai de ‘Salpico’) também tocava um instrumento de cordas, Policarpo, Francisco Fernandes (irmão do “Canhoto”, que também tocava guitarra elétrica num conhecido bar no Cais do Sodré, julgo ter sido no “Filadélfia”, não tenho a certeza, e era chamado de “Zé Cacilheiro”) e outros. Nomes de Fadistas contemporâneos: António Manuel Gomes (‘Toinozinho’), António Costa (‘Toino da Lola’, também toca viola), Diogo Gomes e outros. Estes três sarilhenses são os mais conhecidos a cantar fado actualmente, mas admito que haja outros que desconheço. Estou a referir-me aos que cantam em Portugal. Também sei que existe um conjunto vasto de jovens, e menos jovens, com actividade musical a nível instrumental, mas também vocal, a tocar e a cantar. Não conheço todos, como é evidente, mas posso mencionar apenas alguns, sem desprimor para os restantes, como é o caso de José J. Fernandes (emigrante no Canadá), que referi atrás, Carlos M.M. Rodrigues, Miguel Rodrigues, António Costa, Octávio Valente, Jorge Rodrigues, António José, André e vários outros que não sei os nomes, sem falar dos cantores de Karaok, que são imensos e para todos os gostos. É justo lembrar também que, já no século XXI, depois de reformado, Libério R. Almeida, aprendeu solfejo (ler as notas que estão numa pauta seguindo as alturas e ritmos anotados na partitura) e fez parte das bandas de música de Sarilhos Grandes e Rosário, como saxofonista. Já agora refiro também meu pai, que era um exímio tocador de harmónica (gaita-de-beiços). Dois de nós, dos quatro irmãos, tocamos guitarra (viola) há muitos anos. Também existem dois poetas populares em Sarilhos Pequenos: João Martins e Jorge Valente. Quem ler o livro de poesia: "Uma Reflexão Junto ao Tejo", encotrará ali poemas interessantes para serem musicados para o fado.

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Antigos sarilhenses, todos identificados, em poses de músicos. A foto da direita é dissimulada, nenhum era músico. É tudo "faz-de-conta". Em relação à foto da esquerda, já tenho dúvidas. Não sei se não terão mesmo tocado, talvez o José "Lé", que está com a viola?

Existem (penso que ainda posso utilizar o presente indicativo do verbo existir e não o pretérito perfeito, existiram) duas figuras de Sarilhos Pequenos que merecem destaque: Francisco Fernandes (não tenho a certeza se o apelido é Fernandes) e a Justina M. G. Oliveira, a “Estina”. O Francisco foi (é) pianista, penso que ainda será vivo, não tenho essa informação, ter-se-á dedicado ao ensino, professor de piano, ao que julgo saber. Era praticamente meu vizinho, morava a vinte ou trinta passos, mais ou menos, da minha casa. Quando era criança ouvi muitas vezes o som das suas teclas, vindo da janela da sua casa, quando ali passava. Saiu de Sarilhos Pequenos há muitos anos. Não o vejo há mais de 50 anos. Nas décadas de 1950/1960, um pianista em Sarilhos Pequenos não era coisa de somenos.

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Estão todos identificados. Só o que está de chapéu não era de Sarilhos Pequenos.

Quanto à “Estina”, que na sua adolescência foi fadista amadora durante um período muito fugaz, é também uma história singular, tal como o Francisco. Lembro-me de a ver e ouvir cantar, na sede do 1º de Maio, o fado “Rosa Enjeitada”, de Raul Ferrão. Deram-lhe o nome artístico de “Tina Maria”. Os mais jovens poderão ficar surpresos, mas os mais velhos lembrar-se-ão certamente, se não todos, pelo menos alguns, e tinha boa voz.  

Por que razão destaco estas duas pessoas e não outras? Porque quebraram barreiras, derrotaram tabus, venceram obstáculos. O Francisco é invisual, nasceu numa pequena aldeia ribeirinha, numa época pouco permissora, onde as oportunidades eram poucos, muito menos ainda para uma pessoa cega. Era um rapaz diferente, oriundo de uma família humilde, tal como a como a maioria das famílias de Sarilhos Pequenos da época, prole elevada: seis irmãos. Só me lembro de seis, espero não estar enganado. A maioria das crianças estava predestinada a seguir as pisadas dos pais, fragateiros do Tejo, mas ele, por motivos óbvios, seguiu um rumo diferente, conseguiu caminhar apesar da distância; vencer apesar dos obstáculos e acreditar acima de tudo. Naqueles tempos, nas pequenas aldeias, alguns carregavam o estigma da sua condição fisicamente, por serem diferentes, outros por pobreza estrema. Em meios pequenos, o preconceito e a ignorância era uma característica da época. Por isso, muitos homens e mulheres devem a grandeza da sua vida aos obstáculos que tiveram de vencer.

A “Estina”, por ser mulher e também originária de uma família muito humilde, enfrentou o preconceito e cantou o fado (a propósito do nome “Estina” convém lembrar que, em Sarilhos Pequenos, até nos nomes éramos poupados, usávamos diminutivos e alcunhas para abreviar os nomes das pessoas: Justina, “Estina”; Gertrudes, “Estrudes”, Maria José, “Marizé”; Brigida, “Brisa”; Carolina, “Carlinda”; Cândida, "Cainda"; Filomena, “Formena”, etc.). O fado era cantado nas tabernas onde as mulheres não paravam. Por isso, era difícil uma jovem rapariga impor-se ao status-quo da sociedade da época, comunidade sarilhense, sobretudo a cantar fado, e ela fê-lo, apesar dos mexericos. As línguas, por mais afiadas que sejam, não podem esquecer que são os dentes que cortam. Até porque o fado foi criado por uma mulher, ao que se diz, a Severa, Maria Severa Onofriana de seu nome completo, que morreu em 1846, tinha apenas 26 anos. Uma mulher muito sofrida, também ela.

Nascemos em tempos difíceis, desiguais, mas aprendemos a viver. Se eu quisesse dissertar metaforicamente, diria: Se não podermos voar, corremos. Se não podermos correr, andamos. E se não podermos andar, seguimos em frente de qualquer maneira, mesmo de rojo.

Neste texto, em suma, fica uma ideia: legar memórias é legar cultura. A cultura é um conjunto de ideias, comportamentos, símbolos e práticas sociais aprendidos de geração em geração através da vida em sociedade. Ter cultura é ter o poder de transmitir conhecimento. Nós temos a capacidade de nos adaptarmos às mudanças e às modificações dos tempos e fazer com que as memórias, o património cultural de uma geração passe para as gerações seguintes, pois com o passar do tempo a cultura é influenciada por novas maneiras de pensar inerentes ao desenvolvimento do ser humano. No nosso caso, Sarilhos Pequenos, estamos a falar da chamada cultura popular, não populista. A cultura popular é criada pelo próprio povo, que tem parte activa nessa criação. Pode ser literatura, pintura, escultura, artesanato, arte, toda a arte, e música, que resulta das tradições e costumes, sendo transmitida para as gerações seguintes de forma oral, escrita, fotográfica, pictórica, etc. São manifestações culturais que se expressam através de várias formas: usos e costumes, danças e festas, fado, carnaval, artesanato, cantigas, contos, fábulas, lendas urbanas e rurais, entre outras. O fortalecimento e a valorização da cultura popular são de grande importância para o desenvolvimento local, além de preservar a Identidade cultural dos sarilhenses.

Existem dois grupos de amigos sarilhenses que, de vez em quando, se junta (juntava, antes do vírus) para recordar e manter vivas as memórias sarilhenses. É também uma manifestação cultural, embora em forma de convívio, tipo tertúlia de amigos, mas onde se canta o fado, diz-se poesia e contam-se histórias de infância. É uma boa maneira de não permitir que as nossas raízes, as nossas memórias e a nossa história sejam esquecidas, ao mesmo tempo que se fortalecem amizades. Quão importante seria a criação de espaços para a cultura popular nos eventos locais, no sentido de preservar, divulgar e perpetuar memórias, património cultural! Parabéns a esses dois grupos de amigos! 

Não estamos agarrados ao passado quando evocamos memórias. A memória é dinâmica e liga as três dimensões temporais. Ao ser evocada no presente, remete ao passado, mas sempre tendo em vista o futuro. A memória cultural preserva e herança simbólica a que nós recorremos para construir a nossa identidade e para nos afirmarmos como parte de uma comunidade, é o vínculo entre passado, presente e futuro.

Concluindo, direi que não se trata de um texto minucioso, imaculado, pretensioso, haverá com certeza lapsos de informação, nomes de pessoas não mencionadas, etc. Por isso, estou sempre disponível para receber contributos, informações, que possam ser úteis para o próximo trabalho: “Memórias e Histórias de Sarilhos Pequenos”. O que conta é a intenção, os objectivos, tudo o resto é relevável. 

Termino com a mesma máxima de sempre, quando me referiro à terra onde nasci e fui criado: "Uma terra pequena não quer dizer gente pequena, porque cada terra tem o tamanho de acordo com as obras do seu povo."

Marcolino C. Fernandes não escreve de acordo com o Novo Acordo Ortográfico “brasileiro”.

 

 

 

 

 

 

 

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TRAVESSIA MARÍTIMA SARILHOS PEQUENOS – MONTIJO

Aproveito o Estado de Emergência e o recolher obrigatório à noite para responder a um amigo que me solicitou uma informação sobre a história local de Sarilhos Pequenos e os modos de vida dos sarilhenses ligados ao rio Tejo. E como a informação já consta no meu primeiro livro, editado em 1998, mas que nem todos tiveram acesso por se ter esgotado rapidamente, faço questão de publicar aqui essa informação para todos os amigos em geral e para os sarilhenses em particular, incluindo o meu amigo que fez o pedido. Ele quer saber os nomes dos homens, barqueiros ou passadores, como se queira chamar, que fizeram da travessia Sarilhos – Montijo o seu modo de vida. Assim, vou deixar aqui os nomes contextualizados no pequeno texto que se segue:

Sarilhos Pequenos fica à distância de uma milha marítima do Montijo, em linha recta, mais ou menos dois quilómetros, pelo que a travessia não era tarefa fácil, sobretudo no Inverno em que a chuva e os ventos fortes aumentavam a ondulação. A travessia era feita a remos ou à vela através de pequenos botes: catraios com velas de espicha e lanchas a remos. Os fragateiros chamavam lanchas aos pequenos botes de apoio que todas as fragatas possuíam.

Os passageiros ocasionais, por vezes, participavam também nas manobras das embarcações de modo a abreviar o tempo do trajecto e minimizar o esforço do barqueiro. O embarque era feito na "Ponta-da-Marinha", cujo local estava empedrado desde o muro até à "carreira" para os barcos poderem receber as pessoas na maré baixa, sem terem de passar pela lama. Na preia-mar, as embarcações vinham mesmo junto ao muro receber os passageiros. No muro havia uma reentrância com dois degraus, formados no próprio terreno do muro, para se descer para as pedras que estavam na lama a formar caminho até à carreira aquando da baixa-mar. Naquele tempo, o rio não estava tão assoreado como está hoje. Havia o moinho de maré, que abria a porta d`água constantemente, e toda uma azáfama de barcos a navegar: botes de transporte do pinho; varinos de transporte do lixo e do sal; barcos de transporte de ostras, de madeira, de tijolos, de hortaliças, de frutas; canoas da apanha de limos, de morraças, etc. Os barqueiros faziam o trajecto mais directo possível: “Ponta-da-Marinha” –“Paus- da-Vila” – Montijo. “Paus-da-Vila” foi um local sinalizado, onde começara uma espécie de canal, cala, ou carreira, como nós dizíamos em Sarilhos Pequenos, que existiu até princípios do século XX, e serviu para passagem dos barcos entre Sarilhos Pequenos e Montijo, ligando directamente as duas carreiras. Depois, com o passar dos anos, o assoreamento fechou a passagem. Actualmente, só com a maré cheia os barcos podem passar e encurtar caminho, dependendo do calado (*) da embarcação. 

Ao longo dos anos, os preços cobrados pelos barqueiros foram sendo alterados. Com efeito, os últimos preços variaram entre dez a vinte cinco tostões (um escudo a dois escudos e meio) por cada passageiro transportado, mais ou menos até 1964/65. As pessoas transportadas eram trabalhadores da indústria corticeira (o Montijo era uma localidade com muitas fábricas de cortiça à época) e pessoas que iam fazer compras e outros serviços. Na década de 1960 dezenas de jovens sarilhenses, rapazes e raparigas, iniciaram-se precocemente no trabalho, nas fábricas de cortiça do Montijo, fábrica do Pablos, sobretudo. Acabada a escola primária havia que trabalhar para ajudar os pais no sustento da família. Os rapazes como ainda não tinham idade para "tirar" a cédula marítima (só era permito aos 14 anos) que lhes permitia seguir as pisadas dos pais ingressando nas fragatas do Tejo, ali trabalharam entre os 12 e os 14 anos. Foram (fomos) todos vítimas das circunstâncias, do trabalho infantil e da ditadura salazarista. Faziamos o trajecto entre Sarilhos Pequenos e Montijo a pé, ida e volta, de Verão e de Inverno, com sol ou com chuva, praticamente uma hora a caminhar. Recordo uma antiga máxima a propósito das crianças e das brincadeiras:  "Se nós não podermos agir como crianças não nos interessa brincar". Nós deixámos de brincar, prematuramente, aos 12 anos de idade.

Posto isto, aqui ficam os nomes dos barqueiros de Sarilhos Pequenos tal qual eram chamados ao tempo: pelos nomes e pelas alcunhas, referindo-me apenas ao século XX, de 1900 a 1965: “Ti Zé-Pomba”, “Ti Bernardino Rola”, “Ti Manuel Pecaco”, “Ti António Galeguinho”, “Ti Zé-Ferrum”, “Ti Zé-Batata”, “Ti Chico da Estefânea”, “Ti João Catarrinho” (com o seu catraio “Atalaia") e, por último, o “Ti Maneiras” (eu próprio fiz a travessia como seu passageiro).

Marcolino C. Fernandes escreve de acordo com antiga Ortografia e não pela nova Ortografia “Brasileira”.

 

(*) CALADO é a distância vertical entre a superfície da água e a parte mais baixa da embarcação, a quilha, quando a mesma flutua. Não confundir com PONTAL, que é a medida vertical entre o convés principal (vau do convés) e a quilha.

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A CRIANÇA QUE FOMOS

por marcolinofernandes, em 01.06.20

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Todos nós somos iluminados pelo mesmo sol e molhados pela mesma chuva. Ninguém é melhor que ninguém nesta vida, estamos todos vulneráveis neste planeta terra que, em minha opinião, deveria chamar-se Planeta Oceano, por ser constituído por 70% de mar e só 30% de terra. É um oceano com pequenas ilhas terrestres.

Os medos servem para demonstrar o quão vulneráveis somos. Por isso, se desarrebitarmos o nosso nariz e tornarmo-nos mais humildes não vem mal nenhum ao mundo, pois no lugar para onde vamos, seja em poucos ou muitos anos, não poderemos levar o nosso orgulho e muito menos os bens materiais pelos quais nos dedicamos toda a vida.

O homem sempre foi, e continuará a ser, um ser intrinsecamente vulnerável. Está dependente de outros e sujeito a acidentes, catástrofes, guerras, doenças, pestes, e factores biológicos como bactérias e vírus, que deixam evidente a vulnerabilidade social e do próprio ser humano.

Mergulhado nos meus pensamentos, e por ser dia da criança, hoje lembrei-me dos meus companheiros de infância e todos os sarilhenses que viveram a época dos botes do pinho, das marinhas do sal, da lameira, dos banhos no rio, da subida aos pinheiros, das idas à fruta proibida, das brincadeiras em colectivo, dos jogos populares, dos jogos de futebol-mudava aos cinco e acaba aos 10 golos, e por aí fora…Brincar, brincar, brincar, quais borboletas voadoras…

Parece que foi ontem. Mas o tempo é implacável para todos. Mais ainda para nós, que temos um horizonte de vida mais limitado. Uma vida que é muito fugaz. Mas, apesar disso, nós gostamos de estar cá. Não podemos comprar o tempo, nem podemos ir ao supermercado comprar vida. Então, só nos resta mesmo dar significado à vida e lutar por ela. E lutamos porque ainda cá estamos, o nosso tempo ainda é este, mas também já foi outro. E nesse outro tempo, o que mais me marcou socialmente em termos de vivência colectiva, foi a infância, a nossa infância na década de 1950.

O facto de vivermos em ditadura quando éramos crianças e, em muitos casos, com carências económicas, não nos impediu de tirarmos partido do meio em que crescemos, para usufruirmos da liberdade, a nossa liberdade, a liberdade de brincar e de sonhar em colectivo. Aqueles sonhos em que sonhamos acordados: quem sonha acordado tem consciência da realidade que escapa a quem sonha a dormir.

Soubemos resistir a todas as contrariedades da vida e conseguimos transformar as dificuldades em momentos felizes, através das brincadeiras em colectivo.

Nós nunca conseguiremos despegar da criança que fomos, ela continuará sempre presente no nosso corpo até ao fim da vida presa ao nosso imaginário infantil. E, de vez em quando, em situações difíceis como a que estamos a viver agora, ela liberta-se para nos lembrar quem somos, porque a vida é a infância da imortalidade. A lembrança da infância é o único sonho real que nos resta na fase madura da vida, os demais são meras utopias. Quem viveu a infância como nós vivemos colectivamente em Sarilhos Pequenos, sentir-se-á indubitavelmente marcado para sempre. A infância molda-nos o carácter. Daí, talvez o desejo de muitos de nós em regressar às origens. De vez em quando as nossas reminiscências despertam para essa fase da vida, que nós vivemos intensamente na nossa aldeia ribeirinha. Ribeirinha, mas também campestre.

Tínhamos um espaço imenso e um ar puríssimo: o rio para a gente se banhar; os barcos para contemplar; os campos semeados para apreciar, os pinhais para fruir, as quintas e as azinhagas para vaguear e ir à fruta proibida, e as ruas (sem carros) para brincar.

Éramos impelidos a procurar e a improvisar as brincadeiras possíveis e imaginárias, de acordo com o tempo e o espaço, ao ritmo da vida da época, onde a componente física era preponderante, ao contrário do sedentarismo por que passam as crianças de hoje. Eram outros tempos, gerações diferentes, vivências partilhadas.

Isto não quer dizer saudosismo, quer dizer que temos memória. A memória é a cultura de um povo, é o seu maior património. Preservá-la é perpetuar valores, é deixar um legado às novas gerações.

Nada tem a ver com aquela frase retrógrada, que às vezes ouvimos: No meu tempo é que era bom!…Blá, blá, blá.. O nosso tempo é sempre o tempo em que vivemos, desde o nascimento até ao fim da vida. E nesta vida só existem três verdades absolutas, que são: nascer, viver e morrer. Tudo o resto são invenções.

A nossa terra, digo isto sem chauvinismos e sem revivalismos desmedidos, por mais pequena que seja, tem sempre a grandeza do mundo. “Uma terra pequena não quer dizer gente pequena, porque cada terra tem o tamanho de acordo com os feitos do seu povo”.

 

Parafraseando Fernando Pessoa, eu direi o seguinte:                    

A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.           

Este texto não segue as normas do Novo Acordo Ortográfico. Não escrevo de acordo com a nova ortografia. Agora um facto é um fato, não é um acontecimento. Para ser um acontecimento talvez tenhamos que passar a chamar “terno” ao fato. E terno é simplesmente carinhoso.

                                                

P:S. - O texto vai acompanhado de uma tentativa de música dedicada às crianças de ontem, raparigas e rapazes de Sarilhos Pequenos, em particular aos meus companheiros de infância da década de 1950

Marcolino Fernandes

 

 

 

 

 

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BOTES DO PINHO DE SARILHOS PEQUENOS - RECRIAÇÃO

por marcolinofernandes, em 04.11.19

RECRIAÇÃO DE UM DIA DE TRABALHO DO TEMPO DOS BOTES DO PINHO DE SARILHOS PEQUENOS: PROCEDIMENTO DE CARGA E DESCARGA DO PINHO (CARUMA DE PINHEIRO) EFECTUADO POR ANTIGOS TRIPULANTES DE SARILHOS PEQUENOS. O EVENTO REALIZOU-SE NO CAIS DA MOITA, HÁ MAIS DE TRINTA ANOS.

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Sem título-1 - Cópia - Cópia.jpgAntónio Ventura, António Miranda (Ti "taxinho"), Brás (da "Esgalha"), Francisco (do "Neco"), Alfredo rodrigues, Luís Rodrigues ("Querra"), Ilídio (do "Pilha") e Francisco Gomes (Chico Ferrum). Há ainda um que está de costas voltadas, não foi possível reconhecer. Todos falecidos.

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Quando se procedia ao carregamento dos barcos, utilizava-se um balde de madeira onde eram colocados paus (cavacos), consoante os molhos de pinho trazidos para bordo: 60 molhos de pinho perfaziam uma talha. Em cada talha carregada, colocava-se um pauzinho no balde. Duas talhas carregadas, dois pauzinhos. Três talhas, três pauzinhos, e assim sucessivamente até terminar o carregamento. No fim, os pauzinhos que estavam dentro do balde eram contados, um a um, e a soma dos mesmos correspondia ao total do carregamento: trinta pauzinhos, trinta talhas, l800 molhos.

Cada barco carregava, em média, trinta talhas, excepto o varino "Palhais", que carregava 50 a 60 talhas. "Carregar em nado ", era uma expressão utilizada para qualificar um carregamento feito com a maré. Isto é, carregar e safar (sair) sempre com os barcos em nado, aproveitando a mesma maré para, depois de carregado, içar velas e rumar à Capital.

Por tradição, todos as embarcação carregavam uma talha a mais com o intuito de angariar fundos em favor das festas de Sarilhos Pequenos, para compra de material pirotécnico (foguetes e morteiros de tiro reforçado) a ser lançado pelos festeiros, marítimos, aquando da cerimónia religiosa da bênção dos barcos, junto à praia, pela procissão em honra de Nª Sª da Graça. Nesse domingo das festas, lançavam-se centenas de foguetes e morteiros a partir das embarcações, que se exibiam engalanadas para o efeito, fundeadas junto ao campo de futebol. Hoje já não é permitido lançar foguetes livremente.

Convém aqui lembrar, mais uma vez, que na primeira metade do século XX Sarilhos Pequenos chegou a possuir mais de 60 embarcações: botes, sobretudo, mas também varinos, canoas e uma fragata, a “Tate”. Possuía mais embarcações do que Rosário, Gaio, Moita e Alhos Vedros juntos. Dedicavam-se sobretudo ao transporte do pinho, mas também madeiras, tijolos, hortaliças, frutas, sal, ostras e casca das mesmas, “morrassas” e limos (pelas canoas mais pequenas).

Não se trata de localismo exacerbado, bairrismo, mas de factos, de repor a história. Os nomes dessas embarcações e dos arrais estão registados em livro, para preservação e salvaguarda do património.

Marcolino Fernandes não escreve segundo as normas do novo acordo ortográfico “brasileiro”. 

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baecos.jpg  Botes: "Vitor Hugo" e "Fernando I" (Gaião)

 

 

 

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A aventura de viver 100 anos

 

Texto de homenagem ao 1º de Maio F. C. S., escrito na primeira pessoa, no sentido metafórico, imaginário, como se o clube fosse um ser humano falando do seu percurso de vida.

 

Chegar aos 100 anos é empreender uma travessia pelo tempo e pela vida, é atingir uma insustentável leveza de nós mesmos: há perdas e ganhos.

 

No fundo, o importante é subsistir alguma lucidez, que é a capacidade de conversar, de ter uma certa autonomia e orientação no tempo e no espaço. Resta-nos o que somos, o que a vida é. Cada fase da vida tem sua importância em cada momento. Se vamos tendo algumas falhas na velhice, por outro lado, vamos adquirindo mais sabedoria. E a sabedoria é o encontro de toda a existência, é onde nós somos capazes de ver o sentido real da vida... Até há quem afirme que a velhice é onde a pessoa tem a possibilidade de ser feliz em toda a sua existência.

 

Cem anos da minha existência

 

Sentindo-me inundado de grande emoção, atrevo-me a falar um pouco de mim ao comemorar cem anos de vida. Não consigo dimensionar quão imenso é o valor desta data gloriosa, porque nestes cem anos há um acúmulo de factores predominantes que me fizeram lutar e vencer várias etapas.

 

Sou um dos mais antigos clubes de Portugal e o 4º do distrito de Setúbal, sendo ultrapassado apenas pelo Vitória de Setúbal (1910), pelo Barreirense (1911) e pelo União Futebol Comércio Indústria (1917).

 

Nasci no dia primeiro de Maio de 1918, numa época de grandes convulsões sociais, decorria a primeira guerra mundial, a Grande Guerra, que terminaria às 11 horas do dia 11 de Novembro de 1918, em que participaram muitos portugueses (morreram 1643), incluindo sarilhenses. Ainda se sentia as repercussões da Revolução Russa, que ocorrera cinco meses antes, em 7 de Novembro de 1917, calendário gregoriano. No resto do mundo predominava as influências dessa revolução. O movimento anarco-sindicalista português e as lutas sociais influenciavam as classes trabalhadoras. Por isso, não eram raras as conotações com as datas mais significativas das lutas dos trabalhadores em todo o mundo. Vivia-se um período de revoltas, golpes e contra-golpes na jovem República Portuguesa, que tinha sido implantada apenas há oito anos, em 1910. Assisti, ainda criança, tinha apenas oito anos, ao golpe de estado que pôs fim à primeira República, e que viria chamar-se Estado Novo, ditadura fascista, que durou 48 anos: de 28 de Maio de 1926 a 25 de Abril de 1974. Foi verdadeiramente um período muito atribulado em termos políticos e sociais. Daí a particularidade do meu nome, 1º de Maio, que não terá surgido por acaso, com uma forte conexão política alusiva ao Dia Internacional do Trabalhador, apesar de a população ter sido sempre levada a esquecer essa particularidade.

 

Sou filho de fragateiros, marítimos, de Sarilhos Pequenos. Fui criado para servir a população sarilhense através do futebol, mas não me cingi só ao futebol, tive também uma função social muito importante na vida das pessoas, pelo menos até à década de 1970. A vivência colectiva era uma realidade social naquela época de muitas carências, devido às circunstâncias de vida. Quando nasci, só havia tabernas (tavernas) em Sarilhos Pequenos, que chegaram a ser vinte. Por isso, com o tempo, acabei por desempenhar essa função social, que muito me apraz registar neste momento: os bailes, o cinema ambulante, os cantos de fado, a televisão (quando apareceu a televisão em Portugal, em 1957/58, o clube comprou uma TV, a primeira em Sarilhos Pequenos, a par do Café Rocha, e pôs à descrição dos sócios, mediante o pagamento de 5 ou 10 tostões, já não me lembro bem) e outros espectáculos afins que proporcionei à população. Recordo com um carinho especial o grande espectáculo das crianças das duas escolas primárias no início da década de 1960, morava eu na rua Teófilo de Braga.

 

Durante mais de 50 anos fui, por assim dizer, o centro de convívio da população, a referência cultural e desportiva (dentro das minhas limitações) onde todos vinham conviver e extravasar de alegria para esquecerem as agruras de vida. Contribui muito para o bem-estar afectivo do povo de Sarilhos Pequenos e até para o bem-estar físico: auxiliei em momentos de necessidades, ajudando algumas famílias com espectáculos de beneficência (os benefícios), em que as receitas revertiam a favor de alguns infortunados acometidos de doenças como a tuberculose, por exemplo. Contribui para muitos namoros e casamentos, através dos bailes. Ajudei alguns jogadores do clube, vindos de fora, naturais de outras terras, a casarem com raparigas de Sarilhos. Ajudei até com comida, como se fosse um “restaurante”, imagine-se!... Foi na década de 1960, quando um jogador do 1º de Maio, o “Malha”, guarda-redes, jogava a troco de comida. Para o efeito, o clube solicitou os serviços da saudosa Carolina “Maracha”, «a cozinheira», para confeccionar os alimentos. Naquele tempo jogava-se por amor à camisola, quero dizer, ao clube, os jogadores não recebiam nada em troca a não ser as mazelas provenientes dos jogos. Assim, ficou acordado fornecer uma refeição ao “Malha”, normalmente era o jantar (bife com batatas fritas e um ovo estrelado, o conhecido bitoque, era o que ele mais gostava):“Ó «Carlinda», o meu bife já está pronto?” Era assim um rapaz um pouco orgulhoso, apesar das carências económicas que evidenciava (talvez essa sua imodéstia fosse só aparência?...).

 

Das quatro moradas em que vivi – a primeira, provisória, na rua Antero de Quental, por cima da taberna do Ti–Zacarias “Penetra”; a segunda, na rua Luís de Camões, num barracão adjacente à taberna do Ti–“Zé Pataco” (Rosa da Mónica); a terceira morada, já com carácter permanente, na Rua Teófilo de Braga, onde vivi muitos anos até ao início da década de 1970, data em que mudei para sede própria (Ginásio), construída com o abnegado esforço da população, situada na rua com o mesmo nome: 1º de Maio – foi no nº 37 da rua Teófilo de Braga que me senti mais realizado, que percebi a verdadeira razão da minha existência, que dei muitas alegrias às pessoas e onde me senti verdadeiramente feliz. Bem sei que a felicidade não existe, mas às vezes acontece. E ali, naquele local, a SEDE, como todos chamavam, a felicidade aconteceu muitas vezes. E se a felicidade são momentos, então, tivemos muitos momentos felizes, eu e a população, apesar de todas as contrariedades da vida.

 

Hoje, devido às circunstâncias, a população está de costas voltadas para a sede (GINÁSIO, como todos passaram a chamar), mas não me queixo, todos temos o nosso tempo, apesar de este tempo também ser o meu, porque existo, estou vivo. Porém, sei reconhecer os novos tempos e compreender as novas gerações. Sei que já não desempenho essa função social que tanto gostava, agora os tempos são outros, tudo acabou: o futebol, os bailes, o cinema ambulante, os cantos de fado, as excursões colectivas acompanhando o clube, os convívios, etc. etc. Mas eu entendo as mudanças, elas são uma constante da vida, tal como os sonhos. Se é muito importante fazer 100 anos, não é menos importante ter consciência das nossas limitações perante este novo mundo da globalização e das novas tecnologias. 

 

Talvez o segredo de viver tanto tempo tenha sido o facto de ser criado com “ariadas” (aguardente com açúcar) e “caldinhos” (café com ginjas e canela), bebidas muito apreciadas pelos meus fundadores, fragateiros dos botes do pinho. O bom trato e a generosidade também me fizeram bem à saúde e ajudaram-me a chegar a esta idade centenária.

 

Diz-se que existe apenas uma idade para sermos felizes, apenas uma época da vida de cada pessoa em que é possível sonhar, fazer planos e ter energia suficiente para os realizar apesar de todas as dificuldades e todos os obstáculos. Uma só idade para nos encantarmos com a vida e vivê-la intensamente, sem medo de errarmos. Essa idade, tão fugaz na nossa vida, chama-se presente e tem a duração do instante que passa.

 

E apesar de me sentir inactivo, quase esquecido, ainda respiro, ainda sinto o vento a soprar nas árvores dos pinhais do Mocho e do Inglês. Também sinto as crianças da escola primária, aqui mesmo ao lado, a brincar alegremente, cheias de vida, como se fossem borboletas voadoras em plena liberdade. Não fora umas jovens que tomaram conta de mim e aqui vêm de vez em quando fazer-me companhia e abrir as janelas para arejar, já tinha definhado completamente, partido para o infinito.

 

Agora, ao contrário desses tempos em que só aos homens era permitido serem directores do clube (não me lembro de nenhuma mulher que tivesse sido dirigente), numa sociedade profundamente machista, também são as mulheres, as jovens, que me mantêm “ligado à máquina”, que cuidam de mim actualmente. Imagine-se! Quem diria! 

 

Não importa se faço vinte, quarenta, sessenta ou 100 anos! O que importa é a idade que eu sinto. E sinto que ainda tenho muito para dar e receber. Se não for através do futebol que seja de uma outra forma, culturalmente falando, ao serviço da população, do bem comum.

 

Agora que saí da 4ª idade e entro resolutamente na 5ª idade – a última, inexorável – e estou praticamente sem uso, ou com pouco uso, a última coisa que desejaria é que me lembrassem os anos... Mas neste caso, porém, não se trata de uma comemoração, mas sim de uma homenagem de amigos. E os amigos – é o tempo que nos ensina – são o que de mais precioso há na vida.

 

Termino este texto com optimismo, apesar desta fase da minha existência menos interessante. Ficam as memórias das coisas boas da minha vida de centenário, e foram muitas! Há coisas na vida que não se repetem. Não se pode comprar o tempo. O passado não volta mais. Mas também não se pode apagar esse passado, ele permanece sempre na história e na memória dos homens, na memória dos sarilhenses.

 

Continuo a sonhar com dias melhores. Os sonhos são utopias que comandam a vida. E a utopia justifica-se e necessitamos mesmo de manter vivas todas as utopias. Afinal a vida não é ela também uma eterna utopia? Não desejamos nós ser mais do que simplesmente existir? O progresso da humanidade não é senão a realização das utopias. Os sonhos desvanecem-se, mas as utopias mantêm-se...

 

A noite é sempre a parte do dia mais vaidosa. É aí que os sonhos surgem como estrelas cadentes. É aí que me lembro de todos! Temos sido bons amigos. Até sempre!

 

Citando o poeta popular António Aleixo, eu diria que:

 

O homem sonha acordado;
Sonhando a vida percorre…
E desse sonho dourado
Só acorda, quando morre!

 

Parabéns pelo aniversário! Viva o 1º de Maio clube e viva o 1º de Maio dia do trabalhador!

 

Antes do 25 de Abril de 1974, em Sarilhos Pequenos, havia duas formas distintas de dar vivas (saudar com vivas) ao 1º de Maio. Se fossem vivas ao 1º de Maio clube, ao futebol, eram pacificamente tolerados, apoiados e bem recebidos. Se fossem vivas ao 1º de Maio dia do trabalhador, dia de luta política contra a ditadura, não eram tolerados, eram proibidos, inspiravam receios e podiam até levar à prisão.

 

Marcolino Cardoso Fernandes (Escreve pela ortografia antiga e não pela nova ortografia “brasileira”)

 

 

 

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SARILHOS PEQUENOS: LEGAR MEMÓRIAS

por marcolinofernandes, em 15.08.17

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 Deixo algumas fotos (apenas algumas) de barcos e pessoas de Sarilhos Pequenos, quase todas identificadas, no final do texto.

 

Para que se possa pensar a articulação da memória na vida social, é importante enfatizar a necessidade de se observar os mecanismos sociais que favorecem a experiência comum da vida

 

Se o relato biográfico é constituído a partir da memória, tanto individual como colectiva, lembrar é também uma forma de nos posicionarmos socialmente.

 

Memória é a capacidade do ser humano de reter factos e experiências do passado e retransmiti-los às novas gerações através de diferentes suportes empíricos (voz, música, imagem, textos, etc.).

 

Nós não nos lembramos de tudo o que aconteceu ou que nos foi ensinado ao longo de nossa vida. Esquecemos a maioria das coisas que vivemos e só retemos aquelas que possuem significado, isto é, que são funcionais para nossa existência futura. Já alguém disse que cultura é memória, pois é a cultura de uma sociedade que guarda tudo o que é retido pela memória para depois poder servir como experiência válida ou informação importante para o futuro.

 

As festas populares, por exemplo, das pequenas comunidades como Sarilhos Pequenos, enquanto práticas culturais que comunicam saberes e aprendizagens colectivas, são tomadas como exemplo para se compreender como parte da tradição da cultura local depende da transmissão dos valores do grupo social, do colectivo, e das trocas de saberes entre os protagonistas dos festejos. Neste processo, as representações sociais exercem a mediação simbólica produzida no compartilhar dos sentidos, como matéria-prima essencial da cultura imaterial e da memória social. A recordação e a memorização são tidas como processos construídos culturalmente e fazem parte da dinâmica da vida social

 

A importância de se legar memórias, deixar às novas gerações toda a informação que possuímos, seja através da escrita, da fotografia ou da pintura, é um dever cívico, um acto de cidadania. Nesse sentido, procuro divulgar e perpetuar memórias, passar toda a informação que possuo, quer seja através da publicação de livros (4), sendo que dois dos seis livros escritos esperam publicação: “Falares de Sarilhos Pequenos – Alcunhas, Termos, Expressões e Aforismos” e “Histórias de uma Travessia”, quer seja utilizando as novas tecnologias, através de um blogo que criei e da rede social facebook. Nada nos pertence; nem mesmo o nosso corpo, que é transitório...

 

Não é que esteja a pensar partir brevemente, ainda tenho muita coisa para fazer, muitas ideias para realizar. Diz-se que depois de certa idade a gente tem mais coisas para contar do que para fazer, mas eu vou fazendo e contando, por enquanto...

 

“No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade.” (Saramago)

 

Depois desta pequena introdução, vou deixar aqui os nomes dos barcos (botes, varinos e canoas) de Sarilhos Pequenos, que chegaram a ser perto de sessenta no auge da sua actividade marítima. Poder-se-á dizer, sem chauvinismos desmedidos, que Sarilhos Pequenos possuía mais barcos do que as outras terras do concelho (Moita, Gaio, Rosário e Alhos Vedros) todas juntas. Só faço referência à quantidade de barcos apenas para repor a verdade. É que já ouvi em muitos locais de palestras e outros eventos afins, omissões e inverdades ditas por ignorância, desconhecimento e até sobranceria a propósito dos barcos do Tejo no concelho da Moita.

 

O que está nos meus livros e em todos os meus textos sobre Sarilhos Pequenos são as memórias pessoais e intrínsecas de quem as relata e também toda a informação que fui recolhendo ao longo de anos. Estas são as minhas histórias, as minhas informações. Fossem outros os narradores, outras seriam as histórias e, quiçá, mais informações. Daí que não considero esta lista de barcos e pessoas completa, por ventura faltarão nomes de barcos e de pessoas que a minha memória não reteve ou desconhece.

 

O homem precisa de amar a sua terra

 

Existe um despertar romântico e saudosista no homem que valoriza a maior de suas origens: a pátria. A pátria começa pela nossa terra.

 

Marcolino C. Fernandes (Não escreve pelo novo acordo ortográfico))

 

                    BARCOS                             TRIPULAÇÃO/ARRAIS

                                                                  ||

        ||                         (alguns eram os próprios proprietários)

 

VICTOR HUGO ------------------Joaquim Rodrigues (“Badio”)

MALICHA ------------------------- António Rodrigues (“Rabão”)

IRENE  -----------------------------Joaquim Rodrigues (“da Estefânia”)

POMBINHA ---------------------- Zacarias Fernandes( Zé-Carias)

REGALO --------------------------José “Pinta” e “Martaliano”

ULISSES --------------------------Alexandro G. Paulino(“da Pança”)

NÉLITA ----------------------------Alexandro Paulino(“da Pança”)

PALMEIRA------------------------Malaquias Miranda(“Guedunha”)

DECIDIDO -----------------------Henrique Fernandes ( “Zélhinho”

LUTADOR ---(Cnuda) ---------Manuel J. Fiteira (“Quindera”)

SOTA -----------------------------José (“Peixinho”)

 FAÍSCA -------------------------Joaquim (“da Estefânia”)

ARGENTINO -------------------Henrique ?

BUQUE --------------------------António "Mundo"/ Adelino”Peixespada”

TALAMINHO -------------------Sipriano Martins (“Paiôrra”)      

FERNANDO I (Gaião)-------José Rodrigues (“Batata” )

MISÉRIA-------------- ---------Joaquim  Rodrigues (“da Estefânea”)

PIMPÃO -----------------------João Gomes (“da Pacheca”)

COMPANHIA -------------- --João “da Pacheca” (Filho)

LARANGINHA ---------------Ant.Caetano e Ant.(“Pança”)

CAVALA ------------------- ---Ant.Fernandes (“Antóniozinho”)

PALHAIS ----------------------Ti-Caetano

CABO-RASO ----------------Francisco Gomes(“Chico Ferrum”)

ENTORTA-VIDAS ----------Joaquim Fernandes (“Eua”) e ( Ti-“Cerejas”)

MULATA ----------------------Ti-“Manso”

VASCO DA GAMA ------ --João Rodrigues (Ti – “Aré ”)

FORMOSINHO --------------António Fernandes (Ti – “Gungunhana”)

JOSÉ TOMÁS ----------------Eduardo Fernandes (Ti- Eduardo “Pilha”)

MARIA ROSA ----------------Armando Batista ("Zéssado”) / Pai e Filho

MARIA DAS DORES--------Zacarias (“Penetra”) e Filhos

CANOA CEGA ---------------Manuel Ventura (“Romeu”)

CALDINHOS  -----------------António Francisco “Leal”/João Aré

PARTE E RASGA------------José"Ferrum"/Fred."Pinta"/J."Carapau".

MANUEL I---------Talvez Henriue “zelhinho” ??

CAMELA---(Flôr/Brejos)-António "Ventura"

 ESTEFÂNEA --Canoa----Manuel Batista (“Zéssado”)

 PISTAROLA  ------------  António Simões (“Pistarola”)

SIMÕES  ----------------   António Simões (“Pistarola”)

RATINHO  -----------     ?

VARETAS-----------   -----José de Oliveira (Ti-“Zé-Batefado”)

PAI-DA-MALTA------------Agostinho Rodrigues e Tomás José (“Farramenteiro”)

S.JOÃO BATISTA e MALICHA -------Manuel da Costa (“Rasgado”)

TAVARES ------------------Manuel Fernandes  

SOCIEDADE/ COMPANHIA ----------Manuel José (Geada)

NÃO INVEJA A FLÔR------------------Bernardino Rodrigues (Ti- “Tripas”)

INVEJA A FLOR-------------------------João (“Aré”) ??

BEBVINDO--------------------------------João Aré

16 DE FEVEREIRO  -------------------José Rodrigues Pint (“Lé”)

ADELINA COSTA---(Fragata)------- Francisco João (“Chico Remicha”)

TATE  ----------------(Fragata)---------Ti- Bruno.

BOTE do “Rambóia”

BOTE do “Gaiolo”

BARCO do Diamantino

BARCO  do Berardo “Charuto".

BARCO  do  Ti "Charuto”

BARCO  do Ti "Sabino".

BARCO  do Ti "Chicozinho".

BARCO  do Ti- "Zé-Gaitinhas".

BARCO  do Ti-Manuel Da" Velha".

BARCO do Ti- "Zé-Batefado”

 

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Jornal do sindicato dos fragateiros com a lista dos mortos pelo ciclone de 1941, onde se inclui três sarilhenses: Herminio José, Manuel "Pança" e Américo Gomes.

 

 

 

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2ª PARTE

Os corpos gerentes, os carolas na marcação do campo com cal, os jogadores em transito e os adeptos acompanhantes do clube.

 

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1ª PARTE

O 1º de Maio Futebol Clube Sarilhense, fundado em 1 de Maio de 1918, é um dos mais antigos clubes de Portugal e do distrito de Setúbal, sendo ultrapassado apenas pelo Vitória de Setúbal (1910), pelo Barreirense (1911) e União Futebol Comércio Industria (1917).

 

A sua primeira sede, provisória, foi na rua Antero de Quental, por cima da taberna do Ti–Zacarias “Penetra”. A segunda sede foi na rua Luís de Camões, num barracão adjacente à taberna do Ti–“Zé Pataco” (Rosa da Mónica). A terceira sede, já com carácter permanente, funcionou durante muitos anos na Rua Teófilo de Braga (actual sede do PCP), até ao início da década de 1970, data em que o clube se mudou para sede própria (Ginásio). A Sede é pertença do próprio clube e fica na rua com o mesmo nome: 1º de Maio.

 

O nome 1º de Maio não terá surgido por mero acaso, se tivermos em conta as mudanças políticas que se verificavam à época, em todo o mundo, aquando da fundação do clube por trabalhadores marítimos, fragateiros de Sarilhos Pequenos. Em Portugal vivia-se a 1ª República (5 de Outubro de 1910 – 28 de Maio de 1926) com todas as convulsões e repercussões inerentes. No resto do mundo predominava as influências da revolução Russa de 1917. O movimento anarco-sindicalista português e as lutas sociais influenciavam as classes trabalhadoras. Por isso, não eram raras as conotações com as datas mais significativas das lutas dos trabalhadores em todo o mundo, como é o caso do dia internacional dos trabalhadores, 1º de Maio, que vem sendo comemorado desde 1889.

 

Foram muitos os jogadores fragateiros, ou filhos destes, que se notabilizaram no futebol, pelo que a todos indistintamente – porque uma citação individual seria longa, correndo o risco, mais que provável, de omitir alguém, sempre desagradável – aqui expresso a minha homenagem, através da publicação de um conjunto de fotografias significativas de várias gerações de jogadores, na sua grande maioria filhos da terra, que marcaram indelevelmente a vida do clube. Poder-se-á afirmar, sem falsa modéstia, que foram dignos representantes das respectivas gerações e da grandeza que o clube outrora granjeou. Tradicionalmente, o clube foi sempre um “viveiro” de bons futebolistas, incluindo jogadores internacionais, que depois transitavam para outros clubes de maior dimensão, alguns deles da 1ª Divisão Nacional (hoje, 1ª liga). De entre esses clubes de maior dimensão que absorveram jogadores sarilhenses, contam-se os seguintes: Grupo Desportivo da Cuf, Barreirense, Luso, Vitória de Setúbal, Benfica, Sporting, Belenenses, Boavista, Marítimo, Beira-Mar, União de Leiria, Varzim, Montijo, Peniche, Amora e outros que a minha memória não reteve.

 

Como todos os clubes, o 1º de Maio teve momentos altos e baixos, sendo que, em minha opinião, o actual momento, que vem desde o encerramento do futebol, é o período mais baixo de sempre do clube. Faz muita impressão ver um clube centenário (faltam nove meses para fazer cem anos) «acabar» assim, ingloriamente... Mas prefiro não divagar sobre as razões da actual situação do clube, por falta de conhecimento de causa. Não sou uma pessoa ligada ao futebol, nem sequer adepto sou, respeito quem é, todavia, fui um sócio que também envergou a camisola do clube, época de 1967/68, como jogador dos juniores. Porém, estive sempre desligado das coisas do futebol. O que não quer dizer que não tenha muito apreço, respeito, por todos os carolas que se dedicaram de alma e coração ao clube. Sou apenas um Sarilhense que gosta de preservar o património colectivo. E o clube é um património que faz parte da memória colectiva dos Sarilhenses, tal como os barcos, as pessoas e os usos e costumes.

 

Vários foram os momentos altos da carreira do clube, sendo os mais importantes, em minha opinião, os seguintes: A fundação do próprio clube em 1918. A conquista da “Taça Mariano A. Coelho” em 1949-50, vencendo o Vitória de Setúbal. A proeza da equipa ao ganhar 22 jogos seguidos em 1953-54. O nascimento da empática e envolvente amizade entre as pessoas de Sarilhos e de Sines, nas décadas de 50 e 60, por obra dos seus clubes de futebol (1º de Maio e Spor Lisboa e Sines, julgo que seria este o nome do clube de Sines à época). A conquista do campeonato distrital de juniores em 1963-64. O lançamento da primeira pedra para iniciar a construção da nova Sede (conhecida como ginásio), assim como a sua inauguração. A conquista do campeonato da primeira distrital em 1977. A conquista do campeonato da zona (f) da 3ª Divisão Nacional e consequente subida à 2ª Divisão Nacional, em 1978. A conquista do campeonato distrital (2ª divisão) de juniores, época 1973/74. E, Finalmente, a participação na taça de Portugal, jogando com o Sporting, em Alvalade, perdendo por 3-0. Aceito que possa haver quem considere outros, e não só estes, os feitos mais importantes do clube, mas esta é apenas a minha opinião, sujeita a correcções, se for caso disso. Refiro-me só aos feitos e desenvolvimento do clube alcançados no período antes do 25 de Abril de 1974.

 

Por último, quero fazer aqui uma chamada de atenção pertinente e muito justa, que é também uma homenagem a todos aqueles, e foram muitos, que, não sendo sarilhenses de nascimento, aqui jogaram futebol com a mesma garra, o mesmo empenho, a mesma paixão e o mesmo orgulho em vestir a camisola do 1º de Maio. Não consigo precisar, mas ao longo de quase todo o século XX em que o clube existiu (leia-se jogando futebol, porque o clube como estrutura está de pé, quero dizer, persiste para efeitos legais, tem edifícios de pé, e tem futebol infantil), muitas dezenas de jogadores de fora – naturais de outras terras – fizeram parte do espírito sarilhense, através do futebol. Há muitos exemplos de jogadores de fora que casaram com mulheres sarilhenses e aqui constituíram família. Alguns ficaram mesmo cá a viver, integrando-se de tal forma nos usos e costumes sarilhenses, que nem se notou que não haviam nascido cá. Todos eles, os que já faleceram e os que ainda cá estão, merecem o nosso reconhecimento, que é uma forma sincera de gratidão.

 

Este era um tempo (1918 – 1974) em que os jogadores não recebiam quaisquer contrapartidas monetárias, ou outras, para jogar futebol, a não ser as mazelas intrínsecas à condição de jogador.

 

Marcolino (Escreve pela ortografia antiga)

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