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ALCUNHAS EM SARILHOS PEQUENOS

por marcolinofernandes, em 16.09.13

 

 

ALCUNHAS EM SARILHOS PEQUENOS

(No tempo da vivência colectiva)

 

As alcunhas são apanágio das aldeias. Está dito e redito que a vida urbana fomenta relações impessoais, destrói os laços do parentesco, aniquila os elos tradicionais, reduz as relações de vizinhança e esvazia a convivência. Tendo em linha de conta hábitos, tradições, costumes e modos de vida, as alcunhas imponham-se naturalmente.

 

Os epítetos mais comuns normalmente tinham origem em características físicas das pessoas, como Cabecinha-à-Banda, Pé-Curto, Braço-Curto, Zé-coxo, Ratada, Estica, bucha, Seis Dedos, Tá-co-vício, etc. Também eram fontes de inspiração para alguns ofícios, como Zé Padeiro, Zé Fragateiro, Júlia do leite, Ferro-velho, Zé Ferramenteiro, Manuel Arrais, Chico da Marinha, etc. O local de origem das pessoas também inspirava algumas alcunhas, como Mil-fontes, Ratinho (beirão), Salvaterra, Alfama, Aldeana, Zé D’Amora, Luís-do-Barreiro, etc. Deve-se considerar ainda as alcunhas que podiam prejudicar psicologicamente os visados, quando assumiam um carácter pejorativo, evidenciando uma característica depreciativa que os mesmos desaprovavam, como Canheira, Júlia Maluca, Maria Limpinha, Caralhotas, Zé Ramela, Manuel maluco, Cagalhão, Bardaça, Ratada, Corno-não-seja, Rodas-baixas, Cabeça-de-Chumbo, Marradinhas, Zé do Mouco, Chico Cego, Ti Mouca, Chico Macaco, etc.

 

Não era raro, em Sarilhos Pequenos, as pessoas serem conhecidas só pelas alcunhas!

Só de cabeça, posso citar umas dezenas de alcunhas:

 

A taberna do Careca, a taberna do Canguichas, a taberna do Ti Bacalhau, a taberna do Lambadas, o lugar da Maria do lenço, a loja do Zé da Ana, os meus vizinhos Manuel Pirum, António Chouriço, Puxa-Orelhas, Galeguinho, Pécaco, Zé Larilas,  Baguinho, pardal, Zé Broa, Zé Berrelho, Papo-seco, Peixe-espada, Tamboril, Carapau-Seco, Manuel da Burra, Lacrau, Osga, Canocha, Xochinhas, João Gato, Manuel Leão, o Meio-Litro, o Fosquinhas, o Zéssada, o Zé Toucinho, o Manuel Pança, António da Horta, Manuel Geada, Zé Bacalhau, Zacarias Penetra, Zé Orvalho, Pai-Mãe, Pão-e-figos, Zé-Bate-Fado, Rebentatoques, Mijárua, Cagádo, Chico Mama, Cara-de-malvado, Cara-Pa-Tudo, Manuel Pintelho, Chico Caralhotas, Manso, Manuel Vidro, Zé Ferrugento, Apaga-a-Luz e fico-me por aqui!

 

Vou aqui descrever algumas alcunhas da malta da minha terra, em versos:

 

A malta da minha terra como era

Pé descalço e trapeira todo o dia

As alcunhas não faltavam lá na terra

Era assim que a rapaziada vivia

 

Pelos nomes não se dava a gente

Palavrões lá na rua não faltavam

Gritarias e barulhos era sempre

E só pelas alcunhas chamavam 

  

Salpico, Ruço, Lasquinha,

Matança, Beia, Lacrau,

Ripeiro, Rata, Toninha,

Ferrolho, Querra e Áu

 

Ferrum, Conim, Balaia,

Relhalhá, Fur,a Tamanqueiro,

Peixinho, Sono, Alfaia,

Carrão,João-Da-Mocha, Galinheiro

 

Leã,o, Besuta, Macaco,

Pula, Piolho, Carriço,

Burra, Gato, Sapo,

Vaca, Sopas, Chouriço,

 

Sebo, Banana, Coelhinho,

Matarratos, Choco, Carapau,

Robalo, Enguia Sardinha,

Charro ,Petinga, Bacalhau,

 

Tamboril, Pio, Cavalinho,

Moucho, Corvo, Rola,

Pardal, Peru, Galinho,

Gaivota ,Ganso, Pistarola

 

Frado, Fanha, Sanona,

Caturra, Barca, Navio,

Charuto, Bucha, Estica,

Baiga, Bia, Badio

 

Fiscal, Fócha, Lé,

Flêca, Folhas, Tate,

Pança, Martelo, Larilas,

Alferes, Estopa, Trabatilas,

 

Fanamim, China, Chiné,

Galeguinho, Chora, Zé-D’amora,

Menem, Mudo, Fastudo,

Manta, Pisca, Faísca,

 

Maismim, Miróscas, Neco,

Cabeças, Mama, Pideco,

Guilhes, Bóia, Róia,

Piúga, Gaiolo, Tarolo,

 

Nanja, Liró, Charlo,t

Faflivão, Baboso, Catorze,

Gala, Gaião, Orvalho,

Geada, Pecaco, Esgalho,

 

Parra, Palora, Navete,

Pataia, Preto, Vinte Sete,

Palhuço, Pilha, Pinoia,

Penetra, Pirotes, Rambóia,

 

Apaga-A-Luz, Padeiro, Roça,

Pantana, Pauleta, Sarra,

Rabaco, Troca, Raça,

Zéssada, Pataco, Samarra,

 

Cachimbo, Catarro, Seco,

Caretas, Careca, Papo-Seco,

Gala, Canino, Cané,

Saguita, Caralhotas, Caché,

 

Fartotes, Lhíta, Canguicha,

Carregas, Canhoto, Remicha,

Cafuma, Covinhas, Ronha,

Torradinha, Manso, Guedunha,

 

Galego, Barolas, Casaca,

Caramelo, Calhordas, Tarraxa,

Pingalhete, Pipocas, Pirotes,

Trolheta, Pancanca, Rebentatoques,

 

Galhagalha, Meio-Litro, Catelhas,

Melancia, Latero, Maré,

Toucinho, Piscadinha, Maneiras,

Rodas-Baixas, Pai-Mãe, Badé,

 

Quindera,Faracapas, Pé-Curto,

Paterras, Pratas, Braço-Curto,

Besugo, Popa, Chechas,

Cara-P’ra Tudo, Juanso, Mochitas,

 

Fatal Gorducho Cagalhão

Tája Guedelhas Puxa-Orelhas

Fragateiro Lota Rabão

Canocha Canejo Caranguejo

 

Borrelho  Rasgado Bate-Fado

Baguinho Zé-Broa Carola

Chocolate Forças Rabico

Chutas Chitas Caíco

 

Labíta Guita Bexiga

Gía Tripas Taça

Caldeira Janeiro Talaça

Conduto Cachiua Mija-À-Rua

  

Vidro Osgas  Pé-Gordo

Redunda Rufas Ferrugento

Engêlca Mouco Peixe-Espada

E ainda o Lambada…

 

(Versos de Salpico)

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NO TEMPO EM QUE SE BRINCAVA (SARILHOS PEQUENOS)

por marcolinofernandes, em 13.09.13

 

nº 16..JPG

                        Pinturas do autor

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                        1964. Foto cedida pelo meu amigo de infância, Manuel F. M. Rodrigues. Em cima António "Patinha", José (do Rocha) 

                       "Chico" (da Maria), Marcolino. Em baixo: Manuel (da Maria), "Antóniozinho", Filipe (do Rocha) e Jaime (da Mónica)

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                          "Chico" (da Maria), José Domingos Miranda, Fernando R. Miranda e Manuel (da Maria)

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NO TEMPO EM QUE SE BRINCAVA

 

Porque fomos crianças de ontem, devemos pensar nas crianças de hoje e apostar nas crianças de amanhã.

 

Ser criança é brincar. A brincadeira é o trabalho da criança. É a brincar que a criança aprende a ser homem ou mulher e constrói a sua personalidade.

 

Quem vê Sarilhos Pequenos hoje, não difere muito de como era na primeira metade do século XX, em termos de casario. Apesar da construção dos novos fogos “Santa Teresinha e Corte Real”, o essencial do núcleo urbano mantém-se incólume. Hoje ainda podemos ver as ruas onde brincámos, as margens do rio onde nadámos, e até as casas onde nascemos. As mudanças deram-se sobretudo a nível social: Mudaram as pessoas, mudaram os usos e os costumes, mas também mudaram as condições de vida, os objectivos e até os sonhos. Tinhamos deixado de sonhar, mas com esta nova solução de governação a esperança é bem mais animadora.

 

As circunstâncias do lugar onde nascemos e do tempo em que vivemos foi decisivo e determinante para a nossa geração. Geração formada em princípios e valores da época.

 

Muitos lembrar-se-ão, certamente, da vivência colectiva nas décadas de 40, 50 e 60 do século passado, em que éramos impelidos a procurar e a improvisar as brincadeiras possíveis e imaginárias, de acordo com o tempo e o espaço, ao ritmo da vida da época, onde a componente física era preponderante, ao contrário do sedentarismo por que passam as crianças de hoje. Eram outros tempos, gerações diferentes, vivências partilhadas. Quase sempre de pés descalços, ou com alpercatas, vivíamos até à exaustão física a vida árdua, carenciada e pouco promissora, mas, ao mesmo tempo, gratificante e enriquecedora do ponto de vista social na nossa formação como homens.

 

É espantoso o arrepio na espinha que se sente ao lembrar esses tempos de espontaneidades da meninice e adolescência, onde imperava o belo, o lúdico, o divertido, mas também o risco e o perigo: Nadámos no rio, sozinhos, sem a vigilância dos nossos pais. Bebemos água das várias nascentes que existiam naquele tempo, sem preocupações de salubridade. E ainda cá estamos muitos. Construímos carrinhos de rolamentos para descermos ladeiras abaixo. Só quando caíamos é que descobríamos que não havia travões. Saíamos de casa, de manhã, brincávamos todo o dia, e só regressávamos quando a fome apertava. Ninguém nos podia localizar. Não havia telemóveis. Partíamos os dentes, os ossos, e arranhámo-nos uns aos outros no calor das brigas de rua. Atirámos fisgadas e pedradas uns aos outros. Mas ninguém fora punido. Foram acidentes de percurso e aprendemos a suportar isso. Espetámos pregos ferrugentos, vidros e picos, nos pés descalços. Arrancámos unhas e pedaços dos dedos dos pés, por causa das topadas que demos nas pedras da rua. Rodeámos os grandes charcos das fazendas. Quem caísse, podia lá ficar. Alguns caíram. Corremos que nem loucos nos jogos que disputámos, sempre ao ar livre, em movimento, e não fomos obesos. Subimos aos pinheiros altos para procurar ninhos. Uma queda, era praticamente fatal. Atirámo-nos em mergulho de cima das proas dos barcos. Alguns até de cima dos mastros se lançavam ao rio. Fumámos barbas de milho. Comemos canários (uma flor dos muros). Comemos os talos dos repolhos que apanhávamos nas fazendas. Apanhámos lagartos nos buracos das oliveiras e no muro da Quinta do Mocho. Tivemos encontros casuais com cobras e lacraus. Atravessámos a carreira na maré baixa, atascados na lama e nos perigosos “olheiros” (uma espécie de lama movediça). Vagueámos pela Lameira (montoreira de lixo que vinha de Lisboa para servir de estrume para as fazendas). Comemos fruta apanhada, directamente, das árvores, sem lavar, sem descascar e sem autorização dos donos. Pendurámo-nos nas traseiras das camionetas de caixa aberta, à boleia, só por divertimento, indiferentes ao perigo. Atravessámos a carreira a nado, na preia-mar. Alguns ficaram sem forças e tiveram de ser salvos. Não tivemos pleystations, vídeo jogos, TVcabo, filmes de vídeo, telemóveis, ipads, computadores, Internet, mas tivemos amigos e brincámos: saíamos de casa e batíamos às portes uns dos outros e encontrávamo-nos em locais habituais.

 

Apesar de todos estes perigos, será que tivemos sorte por não termos sido super protegidos na nossa infância? Faz pensar que sim. Olhando para trás, é difícil acreditar que ficamos incólumes aos reais perigos a que nos expusemos. 

 

Ao arrepio de saudosismos lamechas, os meus textos e os meus livros procuram eneltecer uma vivência, um povo e uma terra, através do baú das minhas memórias. Um património imaterial que faz parte do “ADN” de Sarilhos Pequenos.

 

A nossa geração não foi melher nem pior que a actual geração, foi diferente, porque diferente foram as circunstãncia de vida: o tempo em que nascemos e o lugar em que vivemos. E também não tem nada a ver com aquela expressão saudosista: "No meu tempo é que era bom! O meu tempo é este! O nosso tempo é este! Só que vivemos há mais tempo. Por isso, temos mais conhecimento.

 

O registo de memórias passadas é o melhor investimento cultural que podemos legar aos nossos filhos e netos.

 

Marcolino (Escreve pela ortografia anterior))

 

 

  

 

 

 

 

 

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HISTÓRIAS VERDADEIRAS DA MINHA INFÂNCIA

por marcolinofernandes, em 09.09.13

 

 

HISTÓRIAS VERDADEIRAS DA MINHA INFÂNCIA

(O Fisgas)

 

     Naquele tempo, em medos da década de 1950, na escola primária em Sarilhos Pequenos, só havia mulheres como professoras. Os alunos tratavam-nas por “senhora professora” ou “minha senhora”. Conheci várias professoras: Arlete, que era uma fera..., Maria dos Anjos, que também “arreava bem” (batia muito), Maria José, Teresa, e outras… Havia uma dessas professora, já não me lembro qual, que trazia para a escola, de quando em vez, uma criança de dois anos, um rapaz, e deixava-o à guarda do aluno mais “burro”, quero dizer, aquele que ela embirrava mais. Não se tratava propriamente de ser burro, muitas das vezes eram crianças autistas, que elas rotulavam logo de burras. É claro que elas, as professoras, eram emanadas do regime, e essa coisa de crianças com dificuldades em apreender as matérias, na visão enviesada dessas professoras, à época, era burrice.

      Não era sempre que a professora trazia a criança para a escola, mas, ainda assim, foram muitas as vezes. Um certo dia incumbiu o Fisgas (nome fictício) de tomar conta do menino. O Fisgas era um aluno que já não passava de classe, e a professora pô-lo nas últimas carteiras, como uma espécie de castigo. Além da humilhação era também uma discriminação, porquanto o fisgas pertencia a uma minoria, os esquerdinos.

       Chamávamo-lo de Fisgas, porque andava sempre com a sua fisga pronta a atirar. Trazia quase sempre as algibeiras cheias de pedrinhas. Ele tinha uma grande adversidade física que, não sendo defeito, era uma mácula para a época: nasceu canhoto. E nascer canhoto naquele tempo era ser estigmatizado pelos resquícios, ainda muito presentes, do regime Salazarento, o obscurantismo e a intolerância. Pertencia a uma minoria, e, por isso, era discriminado pela professora que ministrava o ensino de acordo com a retórica desse mesmo regime Salazarista: Todos os alunos tinham, forçosamente, de ser destros. Não podia haver contemplações. E ele pagou caro essa factura. Para o obrigar a escrever com a mão direita, a professora atava-lhe cruelmente a mão esquerda ao pé da carteira com um cordel. Ali ficava amarrado, durante as aulas, não podendo utilizar as duas mãos, como os outros alunos. Além de ser um doloroso castigo físico era, também, um castigo psicológico. Até nós, os outros alunos, nos sentíamos incomodados e amedrontados com a situação. Mas o Fisgas também era duro de roer e arranjou uma maneira muito peculiar de se desforrar da maldade da professora, através da inocente criança, coitada, que não tinha culpa nenhuma, mas estava mesmo ali à mão.

       Ele tinha um modo de falar característico parecido ao dos habitantes de Setúbal, arrastava os (érres) “R”. Quando falava “ir lá fora”, a fonética ficava parecida com “ig lá fonga”:

       «Minha senhonga, posso ig lá fonga?» “lá fora” era ir “aliviar-se”, fazer a necessidade fisiológica atrás do valado da fazenda do pinhal do Mocho, que ficava junto à escola.

      «Vai lá, mas não demores muito…» acedeu a professora, um pouco contra a sua vontade.

      O Fisgas saiu para a rua e por lá ficou uns escassos minutos, suficientes para apanhar um ramo de urtigas e trazer na algibeira da bata (bibe). Chegado à entrada da sala de aulas, bateu à porta:

       «Dá licença, minha senhonga!» naquele tempo havia este formalismo no trato com as professoras.

     «Entra!», disse a professora com voz eriçada. «Vai para o teu lugar sossegado e toma conta do menino!».

     Entrou cabisbaixo com um ar muito manso, sentou-se, e começou a preparar a sua estratégia de ataque, retirando da algibeira do bibe as ditas urtigas, enquanto a professora dava a aula junto ao quadro (quadro de escrever com giz) da escola. Com a humilhação a que fora exposto, o Fisgas sentiu-se impelido a fazer a sua vingançazinha, friccionando as urtigas contra as pernas da criança, que ele, supostamente, deveria tomar conta. Friccionou várias vezes, mas aquilo não sortia efeito. Afinal enganara-se na planta. Não eram urtigas, mas sim outra planta parecida pertencente a uma família diferente da outra urtiga – cujo nome científico é lamium álbum – que não “pica”, isto é, não tem características urticantes. A urtiga verdadeira, mais comum, a que “pica”, tem o nome científico urtica dioica (“urtigas doidas”, como nós dizíamos…). Mas o Fisgas não desistiu dos seus intentos e pediu novamente para ir lá fora:

       «Minha senhonga, posso ig outnga vez lá fonga?»

       «Outra vez!?...» exclamou a professora em jeito de pergunta.

       «É que dói-me a bangiga, minha senhonga!», atalhou ele determinado.

      «É a última vez que lá vais!», ameaçou a professora. Saiu novamente, e quando regressou já trazia as urtigas verdadeiras. Passado alguns minutos, sorrateiramente, começou impiedosamente a friccionar nas pernas da criança ao mesmo tempo que ia controlando o olhar da professora. Não foi preciso muito tempo para que a criança começasse com um choro ruidoso, inquietante e ininterrupto. Foi uma birra que pôs toda a escola em polvorosa. As pernas da criança ficaram vermelhas da irritação, mas o Fisgas, apesar dos seus oitos anos apenas, fez-se de tanso e espantado com a situação, tentando acudir à aflição da criança, como se ele não tivesse nada a ver com aquilo. A verdade é que ludibriou a professora, que nunca descobriu o que se passara de verdade. O Fisgas arriscou-se muito, mas estava-lhe no sangue…

       Ironia do destino, em idade adulta veio a ser homem muito pacato, cordial e até um pouco introvertido.

 

Marcolino

(Escrevo pela ortografia antiga)

 

 

P.S.: Sete presidentes Norte Americanos foram canhotos, incluindo os dois últimos, George Bush e Obama, que escrevem com a mão esquerda.

 

 

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AS REDES SOCIAIS MUDARAM AS RELAÇÕES SOCIAIS

por marcolinofernandes, em 05.09.13

 

As redes sociais vieram revolucionar as relações entre as pessoas. De tal modo que existem pessoas com mais de mil amigos virtuais, quando na vida real têm apenas três ou quatro amigos. Todos sabemos que estas redes têm aspectos positivos, mas também negativos. No meu tempo de infância as redes sociais eram as redes das portas das casas da minha aldeia em que, por detrás delas, se observava, às vezes maliciosamente, o comportamento das pessoas: vizinhos, amigos ou transeuntes. Hoje, através do facebook, entra-nos em casa não só o comportamento das pessoas como também traços das suas personalidades, forma de estar na vida e até aspectos pessoais reveladores.

 

Confesso que é uma experiência gratificante acompanhar as novas tecnologias, para quem já passou dos 60 anos de idade e aprendeu as primeiras letras do abecedário através duma pedra (ardósia ou lousa). Todavia, existe uma parte da vida que se esboroa por tanta exposição e às vezes gratuita. É aquela parte dos mistérios da vida que nos mantém curiosos, fazendo-nos pensar e sonhar. Refiro-me às ideias pré-concebidas que nós temos sobre algumas pessoas amigas, que se desfazem para sempre apenas com um clique. O facebook, por exemplo, que é a rede social que eu utilizo, fez-me conhecer pessoas amigas que eu julgava já conhecer desde infância, mas que, na realidade, não conhecia bem. Ou melhor dizendo, conhecia a pessoa mas não a personalidade, nem as suas iluminações ou limitações intelectuais. O mesmo poder-se-á dizer também a meu respeito: Todos nós já cativámos ou decepcionámos alguém, através do facebook, com as nossas ideias e personalidades?

 

É precisamente esta áurea de mistério da vida que eu penso que perdemos por nos expormos tanto à comunidade. Deveríamos preservar mais o nosso “Eu”. Hoje, quando vamos ao encontro de alguém já sabemos quase tudo sobre a pessoa, e tendemos a fazer juízes de valor que dantes não ousaríamos. Todos perdemos um pouco a inocência, mas a vida é o que é… É preciso valorizar as auto-estradas da comunicação que aproxima as pessoas, desde que não as esmague lentamente. Sou a favor, por isso tento utilizá-las com alguma prudência, mas também não estou isento de erros.

Julho, 2013

  

Marcolino

 

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«A MINHA PÁTRIA É A LÍNGUA PORTUGUESA».

por marcolinofernandes, em 05.09.13

 

«A MINHA PÁTRIA É A LÍNGUA PORTUGUESA».

 (Fernando Pessoa)

 

Seremos mais pacóvios que outros povos?

Este ano deparei-me com «eles» no Algarve, mas também na praia do Rosário, falando um francês de rua, não de escola. «Eles» são os emigrantes Portugueses. Não serão todos, convenhamos, mas são muitos os que vemos e ouvimos pelas praias portuguesas, de regresso para umas férias, falando a língua dos países de acolhimento, em detrimento da sua própria língua “a língua de Camões”, como é conhecido o português. Sempre gostámos muito de parecer o que não somos; de enaltecer as virtualidades dos outros países; de termos vergonha de sermos portugueses. Fernando Pessoa disse um dia: «A minha Pátria é a língua Portuguesa».

 

Não estou a ver um imigrante Ucraniano revisitando o seu país e a falar Português; ou um Espanhol residente em Portugal, que vai passar férias ao seu país, falando em português; ou um Inglês aqui radicado, que volta a Inglaterra falando Português; ou um francês que volta a Paris, falando português; ou um Romeno que deixa Portugal para chegar a Bucareste falando Português; ou os imigrantes brasileiros em Portugal – não me consta que alguma vez algum Brasileiro voltasse ao seu país com o sotaque português, ao contrário de muitos emigrantes Portugueses no Brasil que voltam ao seu país com sotaque brasileiro – que não perdem o sotaque brasileiro, apesar dos anos que aqui permanecem; ou os Alemães, que são historicamente ultra-nacionalistas para abdicarem da sua língua. Esses, então, nem cá em Portugal eles querem falar português, quanto mais no país deles! Pois os nossos emigrantes fazem questão «ostentar» a condição: «Jean-Pierre, en regardant le soleil! Jean-Pierre, Mettez le chapeau sur la tête! Jean-Pierre, attention, ne partez pas!». São alguma das frases que se ouvem nas praias portuguesas, no mês de Agosto.  

 

Com aproximadamente 280 milhões de falantes, o português é a 5ª língua mais falada no mundo, a 3ª mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul da Terra. Portugal “nasce” a 25 de Julho de 1139, com a proclamação de D. Afonso Henriques como rei de Portugal após a vitória na Batalha de Ourique. Contudo, só foi fundado em 5 de Outubro de 1143, a uma terça-feira, há 867 anos, através do Tratado de Zamora, em que o rei de Castela e Leão, Afonso VII, reconheceu a independência de Portugal. Portanto, em 2043, Portugal vai fazer 900 anos, é um país quase Milenar. Não devemos, por isso, sentir vergonha do país, mas sim destes governantes actuais, onde, provavelmente, a maioria dos emigrantes votaram, os poucos que votam…

 

UMA HISTÓRIA RELACIONADA.

 

Em 1967, há 46 anos atrás, encontrava-me na doca do “Jardim”, em Lisboa, bairro de Alfama, quando conheci essa figura típica, pária, que se chamava “Pad-Zé”, Luís de seu nome verdadeiro. Estávamos a bordo da fragata, eu e a restante tripulação, quatro elemento ao todo, quando avistámos em cima da muralha uma figura esguia, masculina, bem vestida, fato inteiro, cor de creme, gravata a condizer, sapatos envernizados e cigarro ao canto da boca. Tinha chegado de França, dizia ele, onde estivera como emigrante a salto, clandestino, mas que não dera resultado, pelo que voltou para Portugal. Era o que ele contava… A partir daí fez da nossa fragata – porque era conterrâneo dos outros elementos da tripulação – o seu local de referência para estar de quando em vez e, também, pernoitar algumas vezes. Nunca lhe conheci casa própria ou alugada, foi sempre um pária. Viveu muito tempo numa «pensão» (uma senhora da Moita que lhe alugara um quarto), o resto do tempo era passado em Lisboa nas docas, fragatas e ruelas.

 

Um dia, ao cair da noite, aperaltou-se – ele gostava de se vestir bem – e foi «engatar» estrangeiras, «camonas» como ele dizia… Estava junto a mim, quando vislumbra o eléctrico que se vinha aproximando do largo de São Pedro, em Alfama, e diz-me:

 «Ó Marcolino, para onde vai aquele eléctrico?»

«Então?... Não vês que está lá escrito que vai para Belém?», respondi eu, num atónito tom de voz.

«Eu não sei ler nem escrever, sou analfabeto!», retorquiu ele com uma franqueza repentina.

«Analfabeto?... Então tu falas francês – era um francês de rua, mas ainda muito recente – e não sabes o português?», repliquei eu, com a ingenuidade dos meus 16 anitos, perante os seus (dele) trinta e poucos anos. De facto ele sabia alguma coisa, muito rudimentar, do Francês que aprendera na sua atribulada permanência em França, que lhe permitia «engatar», conforme dizia, as tais «camonas» de língua francesa.

 

Não é para comparar com os emigrantes de que falei atrás, porque já passaram 46 anos e há menos iliteracia, mas faz-nos pensar…

 

Marcolino

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