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A IDENTIDADE SARILHENSE

por marcolinofernandes, em 29.12.13

                                                                                   Contemplação

nº 38.jpg

                           Pintura do autor. Largo 5 de Outubro, Sarilhos Pequenos, 1949. Junto à "Bomba" (Chafariz) pode ver-se o

                           coreto de madeira, desmontável, que foi utilizado pelas festas.

 

Se a nossa infância foi vivida com muitas dificuldades e carências, não foi, todavia, uma infância infeliz! Havia o apoio constante da nossa mãe e da nossa avó que nos acarinhavam. Além disso, tínhamos um espaço imenso e um ar puríssimo: o rio para a gente se banhar; os barcos para nos contemplar; o campo, os pinhais, as quintas e as azinhagas, para vaguear e as ruas (sem carros) para brincar. Até posso afirmar, peremptoriamente, sem ser um paradoxo, nem o exaltar das privações, que tive muita sorte por ter tido uma infância com muitas dificuldades e carências, pois foram essas dificuldades e carências que fizeram de mim a pessoa que sou hoje.

 

Nunca conseguiremos despegar da criança que fomos, ela continuará sempre presente no nosso corpo, até ao fim da vida, presa ao nosso imaginário infantil. De vez em quando liberta-se para nos lembrar quem somos, porque a vida é a infância da imortalidade. Felizes dos que não perderam a candura de sua infância e carregam com eles o espírito dessa mesma infância. A lembrança da infância é o único sonho real que nos resta na fase madura da vida, os demais são meras utopias.

 

Quem viveu intensamente a infância como nós vivemos, em Sarilhos Pequenos, numa época em que a vivência era colectiva, décadas de 1950 e 1960, sentir-se-á indubitavelmente marcado para sempre. Quer queiramos ou não, nós regressamos sempre às origens. Por isso é muito natural que, de quando em vez, as nossas reminiscências despertem para essa fase da vida que nós vivemos nesta aldeia ribeirinha, um pequeno paraíso à beira mar. Poder-se-á dizer que estou a exagerar ao utilizar a palavra paraíso para descrever a minha terra, mas não me fica mal utilizar este substantivo. A palavra paraíso tem uma conotação religiosa "designação cristã do Jardim do Éden", mas também tem uma designação comum: "um lugar utópico onde se vive harmonicamente e sem conflitos". Eu refiro-me à pacatez da terra e à qualidade de vida ambiental que ainda se vão mantendo em Sarilhos Pequenos, por enquanto?... É claro que aqui, como em todo o lado, também existem conflitos, porque a vida é feita de conflitos e entendimentos. Mas aqui a vida ainda flui sem pressas: podemos estar junto ao rio (ou navegar nele) e observarmos as várias espécies de aves marinhas, incluindo as aves de arribação como os flamingos; podemos apreciar as regatas dos barcos típicos (catraios) pelo verão; podemos caminhar pelos pinhais e depararmo-nos com várias espécies de fauna e flora; podemos observar sítios onde a natureza ainda continua inalterada; podemos fazer caminhadas pelas zonas circundantes, sempre em ambiente natural; enfim, mesmo sem os grandes laranjais das quintas do Esteiro Furado e do Mocho, e sem a movimentação de antigamente em que barcos e homens davam outra vida à aldeia, Sarilhos Pequenos continua sendo um lugar de excepção.

 

Os que aqui nasceram e cresceram - e também os que aqui viveram, sarilhenses de coração, apesar de serem oriundos de outras terras, alguns casados, ou casadas, com sarilhenses - ficaram indelevelmente ligados por laços de convivência colectiva, cuja característica única (familiaridade) é apanágio das pequenas terras. Em Sarilhos Pequenos houve sempre um ambiente familiar em todas as épocas da vida da povoação, transversal a todas as gerações. Não é por acaso que ainda hoje se houve dizer, com alguma ironia, às vezes maliciosa, que em Sarilhos Pequenos quase todos são primos. Tirando o lado depreciativo, sarcástico, com que alguns fazem esta afirmação, convenhamos que é uma realidade factual indesmentível. Somos, de facto, muito próximos uns dos outros. A pequenez da terra e os matrimónios contraídos entre elementos das várias famílias, ao longo de várias gerações, resultaram num grau de parentesco comum a quase toda a população. E quando assim não é, o que é raro, temos sempre a sensação, quando encontramos alguém de Sarilhos Pequenos, de estarmos perante um familiar. É um sentimento comum a quase todos os Sarilhenses, sobretudo às gerações mais antigas. A circunstância de termos nascido numa aldeia pequena, em tempo de privações, levou-nos a fortalecer esses laços de vivência colectiva que se verificara à época. As pessoas tendiam a juntar-se e a conviver numa vida social muito intensa, todos se conheciam: sabíamos os nomes de uns e de outros, os seus percursos pessoais, os apelidos, as alcunhas, as moradas, as famílias, e também os infortúnios e as exultações de cada um. Assim, não admira que nos imputem esse vínculo de parentesco. Nós não enjeitamos essa condição, porque, afinal, todos somos filhos da terra em que nascemos e vivemos. E nós gostámos de ter nascido aqui e vivido aqui, mesmo os sarilhenses adotados, os que escolheram viver aqui.  digo-o sem chauvinismos nem revivalismos desmedidos. Poder-se-á até dizer, em palavras simples, que a nossa terra, por mais pequena que seja, tem sempre a grandeza do mundo.

 

Marcolino C.Fernabdes (Escrevo pela ortografia antiga)

 

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OS BAILES DE ANTIGAMENTE

por marcolinofernandes, em 27.12.13

Sem título-2.jpg   Sarilhos Pequenos, década de 1960.

                                                             

OS BAILES DE ANTIGAMENTE

 

Os bailes dos anos 50 e 60, em Sarilhos Pequenos, realizavam-se aos fins-de-semana, na sede do 1º de Maio Futebol Clube, única colectividade da aldeia, que ficava na rua Teófilo de Braga, em frente à cantina escolar. Outro local da aldeia onde também se realizaram alguns bailes, esporadicamente, ao ar livre, em meados dos anos 50, foi num espaço que existiu em frente da taberna do “Lambadas” (sítio do actual mercado), onde também se efectuaram cegadas e jogos do pau. O referido espaço era engalanado com ramos de palmeiras e papéis coloridos recortados e colocados a uma altura apropriada para dar mais brilho ao local. Mas foi a sede do clube o grande palco dos bailes. Jovens e seniores transpiravam de alegria, depois de uma semana de trabalho árduo, dançando ao som dos conjuntos musicais. Todos se deleitavam com o convívio nos bailes, pelos contactos voluptuosos entre rapazes e raparigas que os mesmos propiciavam quando a dança começava.

 

Os bailes eram aguardados com grande ansiedade. Todos queriam a chegada desse dia para sentirem as raparigas nos braços. Alguns pretendiam recomeçarem contactos amorosos deixados de bailes anteriores, onde o amor por vezes surgia, tornando a vida mais bonita, mais sonhadora, mais romântica, contrastando com as condições de vida do dia-a-dia. O mesmo se passava com as raparigas que também ansiavam pelos bailes, talvez mais ainda que os rapazes, porque estavam mais limitadas nas suas saídas da aldeia. Para elas os bailes também eram um escape para saírem da rotina da vida familiar, das tarefas domésticas, aprendizes de costura e mais tarde em fabricas. Até chegou a haver cursos de costura no palácio-asilo (actual lar). As mulheres foram sempre discriminadas em todos os aspectos da vida. A ditadura  reservou-lhes sempre um lugar menor na sociedade, que a ignorância, a ilitracia e o atraso evolacional tratava de manter. Mas as raparigas dos anos 60, infuênciadas pelos novos ventos de mudança, romperam com todas essas barreiras sociais. O aparecimento da minissaia foi o rasgar dessas mordaças, deixando as velhas ideias e as velhas pessoas (velhas de espirito) da época em estado de choque. A partir daí tudo mudou, mas as palavras de Saramago ainda fazem sentido, hoje: "Para começar, gosto das mulheres. Acho que elas são mais fortes, mais sensíveis e que têm mais bom senso que os homens. Nem todas as mulheres do mundo são assim, mas digamos que é mais fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no género masculino. Todos os poderes políticos, económicos, militares são assunto de homens. Durante séculos, a mulher teve de pedir autorização ao seu marido ou ao seu pai para fazer fosse o que fosse. Como é que pudemos viver assim tanto tempo condenando metade da humanidade à subordinação e à humilhação?"

 

Sem tícostura - Cópia.jpg

                               Principio da década de 1960. Curso de costura no Palácio (Asilo). Na imagem: Maria Gertrudes,

                               Maria Augusta, Graça, Edite, Maria da Conceição, Angelina, Maria Manuela,  Elena e "Minha"

 

Os momentos dos bailes eram dias e noites de magia, de sonhos e fantasias, mas também de folia e convívio. Alguns amores começados nos bailes viriam a resultar em casamentos duráveis, outros nem tanto assim, uns quantos até com rapazes de fora. Mas os rapazes sarilhenses, à semelhança da geração de seus pais, não viam com bons olhos a presença de outros jovens forasteiros, que entravam na disputa concorrencial pela procura de par para dançar. Mas houve sempre respeito e tolerância, apesar de dissimulada por olhares e gestos desaprovadores, mas inofensivos. Ainda assim, foram várias as raparigas que casaram com rapazes de fora (outras terras que não Sarilhos Pequenos) por causa do convívio dos bailes. Nos anos 60, numa fase de mudança revolucionária dos costumes e atitudes, influenciados pelos acontecimentos exteriores, sobretudo o Maio de 68, em França, os forasteiros tiveram até a primazia na preferência das raparigas para dançar ou namorar, chegando mesmo a ser moda namorar um rapaz de fora. Esta geração, dos anos sessenta, viria a ser precursora das mudanças que ocorreram posteriormente, revolucionando os costumes e mentalidades da época.

 

Alguns dos bailes que se realizaram nessa época tinham nome próprio, pela especificidade dos mesmos: O baile da pinha, o baile da Miss Primavera, o baile da cadeira, o baile do lenço, etc. Todos os bailes exigiam da parte dos dançantes uma competição saudável pela conquista dos primeiros lugares. Conheço uma rapariga desses tempos (ainda hoje é bonita) que foi rainha do baile no ano de 1968/69, recebendo a faixa de Miss Primavera, porque foi a mais requisitada e a vencedora do baile Primavera. Este baile consistia no maior número de senhas que as raparigas conseguiam receber dos rapazes. Assim, a rapariga que os rapazes mais procurassem para dançar, a mais solicitada, recebia de cada um deles uma senha. Quantas mais vezes e quantos mais rapazes interrompessem a dança da rapariga para mudar de par, mais senhas ela acumulava para ser a vencedora no final. Para ganhar este prémio as raparigas tinham de possuir algumas qualidades: boa dançarina, simplicidade, muita simpatia e beleza quanto baste. Esta rapariga que eu me refiro, tinha (ainda tem) todas estas qualidades.

 

Alguns costumes estavam bem enraizados, como a moda para o bufete (dedicada aos casados) aonde as raparigas solteiras se dirigiam, de acordo com as suas escolhas e preferências pessoais, a solicitar par para dançar. Era, aliás, a única situação em que as mulheres tomavam a iniciativa de convidar um par para dançar. Também havia o costume de, durante dança, os pares seram interceptados e convidados, de quando em vez, a fazerem uma pausa no meio da sala para lhes ser oferecido um cálice de aguardente e uma bolacha, em troca de uma pequena contribuição monetária para o clube.

 

Os conjuntos musicais (como eram conhecidos naquele tempo) abrilhantavam estes bailes com grande fulgor e entusiasmo. O “Águias D'ouro” foi o precursor de outros grupos surgidos na sua esteira, como os “Companheiros do Luar” e, mais tarde, já nos anos 70, o “Sol Vermelho”. Todos estes conjuntos musicais eram constituídos por gente da terra. Os primeiros começaram por tocar banjos, bandolins e bandolas, depois vieram as guitarras eléctricas. Em meados dos anos 60 os bailes já eram abrilhantados por outros conjuntos musicais que não eram de Sarilhos Pequenos: “Primavera” da Moita (integrava dois Sarilhenses); “Os Caveiras” de Sarilhos Grandes; “José da silva” do Barreiro e outros…

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Os bailes marcaram um tempo e uma geração. Hoje já não existem bailes em Sarilhos Pequenos. Como disse o poeta Luís de Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e também mudam-se os usos e costumes, digo eu... Mas existe hoje uma nova realidade que trouxe novamente de volta os bailes, que estão na moda, mas agora têm casas próprias, dias certos e alguns chamam-se da 3ª idade. Muitos participantes destes novos bailes são os jovens de outrora, mas as “causas”, essas, já são outras. Agora diz-se que os bailes da Terceira Idade têm benefícios para a saúde física e mental, que a dança favorece a circulação sanguínea e ajuda reduzir o colesterol. Diz-se também que são espaços agradáveis, com clima familiar, onde se promove o convívio e a integração social, e porque não dizê-lo, também alguns encontros amorosos de circunstância e umas tantas uniões de facto. Com a idade e a experiência de vida acumulada, estes jovens de ontem não têm tantos anseios próprios da juventude. Eles carregam uma certeza: a vontade de serem felizes. Desta forma, um dia após o outro, vão descobrindo um envelhecer cheio de momentos divertidos, porque alguém disse um dia: “A felicidade não existe, às vezes acontece”. E como vida é muito fugaz, um sopro, um minuto, como disse Oscar Niemeyer, que viveu até aos 105 anos, é importante aproveitar esses momentos de felicidade que às vezes acontecem. É preciso sonhar. A vida ainda não terminhou e os sonhos não envelhecem...

 

Marcolino (Escrevo pela ortografia antiga)

 

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O ASSALTO À “BURRA DO CHUMBEIRO”

por marcolinofernandes, em 11.12.13

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                           Quinta do Esteiro Furado

 

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Nós também tivemos os nossos assaltantes românticos, à moda de hollywood, dignos de uma investigação Inglesa tipo Sherloch Holmes. Foi na Quinta do Esteiro Furado, em Sarilhos Pequenos, na primeira metade século XX, que se deu o arrojado assalto, perpetrado por duas figuras típicas da aldeia. Este assalto foi muito comentado na altura e nos anos que se seguiram. Os verdadeiros factos e os pormenores do assalto só os dois protagonistas tinham conhecimento. E esse conhecimento, essa informação, levaram com eles quando faleceram. O que ficou foi a história que o povo sempre contou sobre o assalto à “Burra do Chumbeiro”, que era o nome que a população dava a um suposto grande cofre, algures na Quinta do Esteiro Furado, pertença do dono da Quinta, o senhor João Manuel “Chumbeiro”, que viria mais tarde a vender a Quinta ao senhor António João da Silva, em Dezembro de 1972.

 

Os presumíveis larápios eram duas figuras típicas de Sarilhos Pequenos, já falecidas há muitos anos. Não menciono os seus nomes por respeito à memória de ambos. Segundo a versão do povo, o plano de assalto foi engendrado e executado pela calada da noite, tendo sido bem sucedido. As coisas só não correram tão bem após o assalto, porque os dois homens nunca se tinham visto com tanto dinheiro. Após a divisão do mesmo, resolveram gastá-lo “à grande e à Francesa” nas festas tradicionais de Alcochete. E assim, por escassos dias, ficaram momentaneamente endinheirados e passaram de homens pobres sem vintém a pobres homens com dinheiro. A corroborar esta ideia estará o facto de, à consumação do bem sucedido assalto, seguir-se uma sofreguidão desmedida em gastar tão rapidamente o produto do mesmo. A leviandade de tal atitude e a pouca familiaridade que tinham com o dinheiro terá precipitado a sua captura. Para quem vivia no limite da pobreza, poder-se-á até falar em miséria, verem-se de repente com tanto dinheiro, alterou-lhes o discernimento, tornando-os bastante suspeitos aos olhos de quem os conhecia, pelo que as denúncias ocorreram e a prisão tornou-se inevitável.

 

Na época todos se perguntavam como é que dois “pilhas galinhas” – digo isto sem sentido depreciativo, porque de facto a área deles eram os galinheiros, os laranjais e outros lugares afins – conseguiram elaborar e pôr em pratica um plano de assalto a um palacete habitado, numa quinta que estava vedada e era patrulhada por um guarda a cavalo (guarda da quinta), empunhando uma espingarda, que utilizara algumas vezes, sendo uma dessas vezes para atirar num destes assaltantes, noutra ocasião, quando o assalto eram às laranjas do grande pomar que ali existira em tempos. Contava-se que o tiro o terá atingido nas pernas e que fora disparado com cartuchos cheios de sal, ferindo-o de tal forma que veio de rojo pela azinhaga, arrastando-se até à sua «casa» (barraca). Não há dúvidas que eles pensaram o assalto e prepararam um plano. A tarefa não era de somenos, apesar de alguns dizerem que a sorte protegeu os incautos, subestimando a inteligência destes dois assaltantes. Não tinham, evidentemente, um QI (Quociente de Inteligência) elevado, a prova disso foi a forma como gastaram o dinheiro do assalto, mas se foram bem sucedidos no dito assalto é porque não eram totalmente desprovidos de inteligência, apesar de serem iletrados, analfabetos. Um deles era cadastrado e passara vários anos na prisão.

 

Falo destes homens com benevolência e até com algum carinho, porque lembro-me muito bem deles e da vida dura que levaram. Um deles voltava de quando em vez à casa de sua mãe, que ficava a 50 metros da minha casa, sempre que saía da prisão. Penso que uma boa parte da sua vida terá sido passada em prisões. Lembro-me, enquanto criança, de ficar muito intimidado ao passar por ele, mas não havia razão para o temer, eram só receios de criança. Utilizei atrás a palavra carinho, porque eles não eram violentos, antes pelo contrário, não se consta que tivessem alguma vez feito mal a alguém, ao contrário dos assaltantes de hoje. Nunca furtaram a quem nada tinha, ou quem tinha pouco, nem nunca assaltaram as casas da população. Eles foram dos tais que nasceram e foram criados em ambiente muito desfavorável e também não eram providos de grande discernimento, mas, apesar de tudo, foram duas figuras do meu imaginário infantil que recordo com alguma pena, porque me lembram anos muito difíceis em termos económicos, sociais e políticos. Foram tempos de muita pobreza, muita iliteracia, muita repressão politica, mas também muita luta, muita coragem e muita esperança. Foi uma época em que também imigraram milhares de portugueses, fugindo à miséria, muitos tiveram de fugir à socapa, passando a fronteira a “salto”, porque o regime não os deixava sair. Hoje são os próprios governantes (2013, governo PSD/CDS) – estes rapazes que nunca trabalharam, filhos do capitalismo selvagem e desumano – que mandam os nossos jovens valores imigrar, comprometendo assim o futuro de Portugal. E mais ainda, estes pobres assaltantes comparados com actuais assaltantes (leia-se os banqueiros, o BPN, o BES e esta gente que nos governam) seriam considerados imaculados.

 

A pobreza costuma ser vista como consequência de se nascer e ser criado em ambiente desfavorável ou, também, resultado de fracasso pessoal. A falta de meios financeiros pode, por si só, deteriorar as funções cognitivas do indivíduo. No caso destes dois Sarilhenses menos considerados, penso que se conjugaram os dois factores: criados em ambiente desfavorável e fracasso pessoal. Nascer pobre não significa ser menos inteligente que os demais, aliás, há até bastantes exemplos de pessoas que nasceram pobres e revelaram-se grandes figuras da humanidade. Todavia, a pobreza em si mobiliza muita energia mental. É como um computador que é lento porque está a carregar um vídeo longo demais. Dizem os especialistas, que os esforços feitos pelos pobres para enfrentarem problemas materiais básicos, como a incógnita de saber se haverá dinheiro suficiente para alimentar a família ou pagar a renda da casa, esgotam a capacidade mental dos mesmos e deixa-os com pouca energia cognitiva para se dedicarem à educação deles e dos próprios filhos. Se alguma vez conseguirmos uma sociedade que atenda às preocupações que fazem reduzir a carga cognitiva dos pobres, então, nessa altura, haverá muito menos probabilidades de surgirem assaltantes como estes dois. Mas essa sociedade não se vislumbra nestes tempos que vivemos, antes pelo contrário, assistimos a uma regressão civilizacional cuja dimensão pode atingir consequências futuras irreparáveis para a humanidade e em particular para a Europa. Acreditar em utopias não significa que nos iludamos, significa que temos esperança.

 

Marcolino (Escrevo pela ortografia antiga)

 

 

 

 

 

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OS MEDOS DE ANTIGAMENTE

por marcolinofernandes, em 06.12.13

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 1ª PARTE

 

Nascemos e crescemos em Sarilhos Pequenos, numa época em que as crianças nasciam em casa ajudadas pelas chamadas parteiras do povo: a Ti Ana do “Liró” e a Ti Emília “Larilas”, que, apesar de serem analfabetas, tinham muita experiência do assunto, fruto de uma prática constantemente repetida. Era um tempo em que as proles eram numerosas, havendo famílias com quatro, seis, oito, dez e até catorze filhos. Foi preciso construir uma segunda escola primária, em fins da década de 1950, para dar saída a tantas crianças.

 

No início da nossa infância não havia água canalizada, nem esgotos, nem luz eléctrica: A água ia-se buscar aos poços públicos, que nós chamávamos de bombas, por se extrair a água através de bombadas manuais; os dejectos eram recolhidos pela “Pipa” (cisterna ambulante); a iluminação das casas era feita com candeeiros a petróleo; as comidas eram confeccionadas a lenha ou a fogão a petróleo. Ao pôr da noite brincávamos na rua, às escuras, às vezes iluminados pelas noites de lua cheia. 

 

Nestas condições os medos fictícios que a escuridão e as longas conversas às lareiras das chaminés à moda antiga de poial alto e fundo para melhor arder a lenha, deixando os tachos e panelas mascarrados – perduraram ao longo de várias gerações, quando o tempo passava devagar e tudo era mais calmo. Era o conteúdo dessas conversas sobre patranhas e medos, lobisomens, mulas sem cabeça, almas de outro mundo e outras histórias afins, que nos faziam ir para a cama com o coração “tefetefe” e a cabeça debaixo dos lençóis. Nas noites invernosas adormecíamos ao calor e à sonolência das braseiras dessas mesmas chaminés.

 

Sarilhos Pequenos desses tempos era uma aldeia ribeirinha rodeada pelo rio e pelos muros das cinco salinas: Bombaça, Furadinho, Sargeda, Guisada, Alviela, e por três pinhais que ainda existem: o pinhal do Mocho, o pinhal do Inglês e o pinhal do Lourenço, todos dentro do perímetro da aldeia, mesmo o pinhal do Lourenço, que fica na estrada do Esteiro Furado. Havia também as grandes e pequenas quintas, olivais, laranjais, fazendas, charcos grandes e pequenos. Os caminhos eram de veredas e azinhagas, ladeadas por valados, alguns com densos caniçais e arbustos, onde as lendas e os medos se mantiveram ao longo dos anos. Muitos habitantes acreditavam piamente desses medos do sobrenatural, pelo que as mezinhas tradicionais transmitidas de pais para filhos como forma de se protegerem contra essas aparições terríficas, eram muito consideradas: A ferradura já usada pela besta e pregada nas portas das casas; os chifres; o alecrim queimado; os molhos de ramos apanhados no campo e pendurados atrás das portas; as rezas específicas e apropriadas para o mau-olhado (quebranto); os amuletos de uso pessoal; os Santos; as cruzes; etc. Estas eram as formas “seguras” de defesa que algumas pessoas usavam contra esses seres malignos e destruidores, como imaginavam as suas mentes inquietas. As histórias de lobisomens, bruxas e demónios, encantavam, ao mesmo tempo que aterrorizavam os pequenos ouvintes que, hipnotizados, escutavam os adultos de imaginação fértil e sombria, descreverem cenas arrepiantes, fabricando medos, aparições horrendas, transformações inexplicáveis, que criavam um clima de trémulos calafrios ao passarem por lugares escuros e encruzilhadas de caminhos com fama de estarem assombrados. Muitas destas histórias eram contadas à noite quando as conversas eram motivo de convívio e passatempo entre famílias, vizinhos e amigos. Havia homens e mulheres que eram exímios contadores de histórias macabras, quase sempre rodeadas por vários ouvintes e alguns deles menores. Escutavamos narrações das coisas mais incríveis e inexplicáveis, ouvidas em silêncio arrepiante, com os rostos estupefactos. Eram petas ardilosas as histórias contadas de bruxas e lobisomens, que se transformavam em animais de todo o tipo, ou em barris que rolavam pelas ruas, altas horas da madrugada, para depois atacarem as pessoas, passando-lhes o feitiço. Da boca do povo não se livraram algumas pessoas da terra, acusadas de serem bruxas ou lobisomens. Segundo as pessoas de idade avançada o lobisomem tinha que ser picado com uma vara de bico afiado na ponta, a fim de fazer sangue, para que o espírito maligno apossado do homem se retirasse. A pessoa com coragem para fazer este trabalho não podia falhar à primeira, sob pena de ser ela própria acometida de ataque e transformada no feitiço.

 

Sem iluminação geral, as noites eram longas e escuras como o breu, às vezes ventosas no Inverno. As ruas eram de terra-batida e encontravam-se pesadas e enlameadas das fortes chuvadas que caía. Os sons e estalidos ecoavam aos nossos ouvidos: O piar das corujas, que traziam mau augúrio às famílias supersticiosas; o latir dos cães, que entoava pelas ruas nas noites frias; o coaxar das rãs nos charcos circundantes; as portas das casas velhas e abandonadas, que batiam com o vento; os ramos das árvores remexendo-se ao passarmos por recantos obscuros; a escuridão silenciosa dos becos e das entradas dos pátios sombrios e medonhos, como a angústia que nos maus momentos sempre ataca as famílias de vida difícil.

 

Quase todos se deslocavam a pé ou de bicicleta. E à excepção da estrada principal, Sarilhos Pequenos – Chão Duro, que também era ladeada por valados, olivais e caniçais, tendo sempre por companhia a escuridão, tudo o resto eram caminhos de azinhagas com valados e veredas. Assim, não era de espantar que toda a espécie de medos proliferasse na mente dos habitantes mais crédulos, por força de tanto ouvirem falar de tais patranhas. Por vezes, já tarde da noite, vir pé, sozinho, do Chão Duro ou de Sarilhos Grandes, para Sarilhos Pequenos, já era uma proeza só conseguida pelos mais afoitos, que também lá os havia em maior quantidade, para quem os medos partiam do próprio homem e não do sobrenatural e irreal. Os outros, os supersticiosos, que eram uma minoria da população, quando apanhados nesta situação, eram apossados de um estado tal de nervosismo que tudo que viam mexer ao longo do caminho era transformado pelas suas mentes apavoradas nos tais lobisomens, almas do outro mundo, bruxas, cavalos sem cabeça, etc. Havia locais específicos com fama de aparecimentos macabros, como a passagem pelo moinho de maré, sobretudo quando a passagem passou a ser feita por dentro do moinho, pelo apodrecimento das tábuas da passagem pedonal; o caniçal a meio da estrada de Sarilhos Pequenos; as azinhagas; os pinhais; os olivais e dentro da povoação o “Bairro das Tesas”.

 

Convenhamos que os medos de hoje são bem mais reais do que esses medos fictícios de antigamente. São os medos de ficar desempregado; os medos de ver os nossos filhos emigrarem, desesperados por não conseguirem trabalho no seu país; os medos do empobrecimento que estes lunáticos, filhos do capitalismo selvagem, (2013, governo PSD/CDS) nos estão a impor; os medos da fome; os medos de não se poder pagar a prestação da casa; os medos de não ter dinheiro para os medicamentos; os medos até de um regresso ao passado obscuro e ditatorial; os medos, enfim, de um futuro sombrio…

 

Sinto saudade dos medos da minha infância. Saudade da alma do outro mundo que a minha avó jurava falar no quarto dela, à noite, com quem mantinha uma conversa fluente. Saudade do lobisomem que arranhava a porta, saudade do vizinho que se transformava em noite de lua cheia, saudade dos fantasmas que não se viam e das “bruxas" da minha aldeia, que nunca foram…

 

Hoje, aceitaria trocar, sem pestanejar, o medo que sinto pelos povos sujeitos à barbárie terrorista jihadista (terrorismo islâmico), pelos medos que sentia na minha infância.

 

Ah, que saudade! Já não se fazem medos como antigamente.  

 

Dos prazeres que me permito, visitar reminiscências do passado é, sem dúvida, um dos meus favoritos.

Marcolino (Escrevo pela ortografia antiga)

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