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OS MEDOS DE ANTIGAMENTE (2ª PARTE)

por marcolinofernandes, em 04.01.14

 

 

Ainda a propósito dos medos de antigamente, conto-vos uma pequena história familiar passada no início da década de 1970, em nossa casa, em Sarilhos Pequenos. A casa onde nós vivíamos era da minha avó, cujo marido falecera muito novo, deixando-a com cinco filhos pequenos, o mais novo com 3 anos e minha mãe com seis. Razão pela qual se tornou ela mesma a “chefe de família”, como se dizia na altura, ganhando o sustento dela e dos filhos através de um trabalho contínuo e muito árduo, no rio Tejo, apanhando lameginhas (amêijoas) durante mais de 50 anos. Apesar de ela ser franzina (era rija como o ferro), e da vida dura que sempre levara, viveu muito para além dos 90 anos, muito embora na última fase da sua vida já mostrasse alguma falta de discernimento que a levara a cometer pequenos delírios. Um desses pequenos delírios foi uma conversa imaginária que ela mantinha, quase todas as noites, com sua amiga e comadre Henriqueta do “Manso”, já falecida na altura. Estas conversas fictícias só existiram na cabecinha já muito desgastada da minha avó querida, mas que teve repercussões nas mentes mais crédulas de algumas pessoas da terra, incluindo familiares. Havia quem acreditasse que a alma da Ti Henriqueta aparecia à minha avó, associando feitiçarias e coisas do género a este seu comportamento patológico. E a coisa já adquirira tais proporções, que até já havia quem falasse em casa assombrada. Mas, na verdade, era apenas uma doença natural de quem viveu muito e deu tudo o que tinha para ajudar os seus, com sacrifício e muito sofrimento. Quebrou já muito tarde, perto dos oitenta anos. Naquele tempo não havia depressões, nem sequer esta palavra era conhecida, mas as mazelas estavam lá e a vida foi implacável.

 

 Para refutar os pensamentos e opiniões das pessoas que julgaram ver no comportamento da minha avó coisas do sobrenatural, o meu irmão mais velho (éramos, ainda somos, quatro irmãos) teve a brilhante ideia de arranjar uns quatro a cinco metros daquelas mangueiras plastificadas, estreitas, que se encaixam nas torneiras da água, e estendemos a mangueira do nosso quarto ao quarto da minha avó, sempre rente ao chão, subtilmente, até que uma das pontas da dita mangueira se enfiasse debaixo da cama dela. A outra ponta da mangueira ficava no nosso quarto para podermos falar através da mesma e, assim, comunicarmos com ela sem sermos vistos. Foi por volta das 22 horas, mais ou menos, quando tudo já estava preparado, que o meu irmão pôs a boca na ponta da mangueira, fez uma voz aguda, feminina, e começou a falar para a nossa avó, fazendo-se passar pela sua amiga falecida, a Ti Henriqueta do “Manso”. A sua voz saía na outra ponta da mangueira colocada debaixo da sua cama. Durante uns cinco minutos mantivemos com ela uma conversa de circunstância à medida das suas capacidades de entendimento, falando coisas dos tempos em que ambas apanhavam lameginhas. O diálogo começou assim: «Boa noite, “Estrudes”, sou eu a “Requeta”!» foram as primeiras palavras do meu irmão. «Ah! És tu “Requeta”?» respondeu a minha avó. «Sim, “Estrudes”, sou eu, venho visitar-te mais uma vez...» simulou o meu irmão. Naquele tempo, em Sarilhos Pequenos, até no falar éramos poupados, ao invés de se dizer os nomes completos das pessoas e das coisas, “comia-se” algumas letras para simplificar. Por exemplo: Henriqueta (Requeta); Gertrudes (Estrudes); Maria José (Marizé); Teodora (Tidora); Brígida (Brisa); Felizarda (Fezarda); Bibiana (Biana); António (Tonho); José (Zé); Francisco (Chico) e assim sucessivamente… A páginas tantas decidimos incluir naquele diálogo uma sugestão que nós sabíamos de antemão que ia deitar por terra todas essas ideias do sobrenatural. Também sabíamos que a nossa avó tinha uma opinião firme, apesar da sua demência, sobre o seu legado, a sua casa, que sempre dissera ser para deixar aos cinco filhos, em partes iguais. Quando era questionada sobre o assunto, dizia sempre que todos eram filhos dela. Não admitia que uma parte da casa fosse legada à minha mãe, que sempre vivera com ela, e que cuidou dela até à sua morte (morte de minha mãe, que partiu primeiro). Naquele tempo não havia a moda dos lares, nem lares nem dinheiro para lares. Assim, quando faleceu fez-se as partilhas e a casa foi dividida por todos os herdeiros em partes iguais, tal como ela desejara. 

 

 Mas voltando ao diálogo, entretanto, no meio da conversa, o meu irmão faz a seguinte sugestão em nome da sua amiga falecida. «Olha lá, “Estrudes”, deves fazer uma parte da casa à tua filha, coitada!» ela respondeu rápido e grosso à “alma do outro mundo”. «Olha! Vai bardamerda! Para vires cá com essas conversas, mais vale não vires…» E assim, desta maneira arrebatada, ficou clarificado que as almas do outro mundo estavam só na cabecinha muito cansada da minha avó, aliás, como nós, netos, bem alertáramos. Nesse dia divertimo-nos muito com a situação, mas, após a brincadeira, fomos ao quarto da nossa avó, carinhosamente, como que pedindo desculpa pela pequena maldade que acabáramos de fazer. Gostávamos muito da nossa avó. Nós, os dois mais velhos, acompanhamo-la muitas vezes nas suas incursões pelos campos do Alto Estanqueiro e Rio Frio, vendendo e trocando amêijoas por produtos agrícolas. Fazíamos o trajecto a pé: Sarilhos Pequenos – Alto Estanqueiro – Rio Frio, ida e volta. Um prato de amêijoas custava 10 tostões e um pires, que era mais pequeno, custava 5 tostões. No fim não trazíamos quase dinheiro nenhum, mas vínhamos carregados de frutas, hortaliças e tubérculos: Era muito peso para uma mulher idosa e uma grande experiência de vida para uma criança. 

 

 A minha avó tinha 22 netos e conhecia todos. Todavia, quase no fim da vida, já tinha dificuldade em reconhecer alguns e trocava os nomes, mesmo os nossos nomes, que sempre vivêramos com ela na mesma casa onde nascemos.

 

 Já não se fazem avós como antigamente.

 

 As avós de antigamente transportam-nos para momentos inesquecíveis vivenciados em tempos ásperos. Eram lindas, enrugadas (bem sei que a minha avó não tinha uma beleza exterior), com batas, aventais, ou vestidos estampados. No caso da minha avó, que foi uma viúva precoce, nunca a vi de outra maneira que não fosse vestida de preto. Elas viveram numa época de estereótipos e estigmas muito acentuados, carregadas de roupa preta até morrer e sempre viúvas até ao fim da vida. Eram avós batalhadoras, desprovidas de preguiça, rainhas do lar e parideiras. A profissão das avós de antigamente era casar. As avós de ontem guardavam no olhar e no corpo as marcas de toda uma vida. Guardavam em si uma infinidade de conhecimentos que nos transmitiram, foi com eles que aprendemos. Elas aprenderam a lidar com as "feridas" da vida de uma forma admirável. Devolver-lhes o amor é o mínimo que podemos fazer. Tinha tanto para dizer que me faltam as palavras...

 

 Marcolino (Escreve pela ortografia antiga)

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