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A FATÍDICA HISTÓRIA DO “CATIMANCIAS”

Na década de 1950, uma família de forasteiros, gente pobre, veio morar para Sarilhos Pequenos, para o “Bairro das Tesas”, corredor nº12. Um casal com cinco filhos, dois rapazes e três raparigas: Rute, Nice, Aida, António e Joaquim, o “Catimancias”. O pai era pastor protestante, uma actividade religiosa de onde provinha os seus parcos proventos. Não se lhe conhecia outro trabalho, razão pela qual os filhos tiveram de se “fazer à vida” muito cedo. Foi o caso do “Catimancias”, que mal chegou a Sarilhos Pequenos foi logo guardar vacas. Depois, quando tinha uns 16, 17 anos de idade, foi-lhe oferecido um trabalho precário num pequeno agricultor nos arredores do Montijo, o “Ti Manel dos queijos”, que tinha cabras e ovelhas e fazia queijos para venda. De vez em quando vinha a Sarilhos Pequenos, numa carroça, vender os seus queijos. E foi precisamente num desses dias de venda que ele reparou no Joaquim “Catimancias” e o levou, por compaixão, para seu ajudante, mediante um pequeno salário, deixando assim de guardar as vacas do Ti António Chula, um trabalho que fazia em troca de comida e alguns tostões. A partir desse dia, passou a fazer o trajecto de Sarilhos Pequenos para a zona do Montijo a pé, ida e volta, pelos muros das salinas e das fazendas, até à morada do pequeno agricultor. Para encurtar caminho atravessava muitas vezes a carreira, o rio, entre Sarilhos Pequenos e Sarilhos Grandes, sempre que a maré permitia porque ele não sabia nadar. Por isso, atravessava sempre o rio na maré baixa, ou meia maré, desde que tomasse pé e a água não ultrapassasse o pescoço. Num desses dias, vindo do trabalho, ao atravessar o rio de uma margem para a outra, afogou-se na imensidão das águas e na solidão do espaço silencioso, numa hora fatal em que não se via vivalma. Ter-se-á descuidado e avaliado mal a profundidade da maré. Esta foi uma versão falada na época. Todavia, também se falou numa outra versão mais sinistra e talvez mais verosímil, que aludia a hipótese de suicídio. Dizia-se que se lançara deliberadamente ao “Alcantil”, um local mais profundo, tipo poça de água permanente, que havia no lado de lá do rio, onde a rapaziada se atirava aos mergulhos, Um suicídio premeditado, cuja causa fora a pobreza em que vivia permanentemente, sem esperança de uma vida melhor. Esta hipótese foi reforçada pela circunstância de ele ter deixado a roupa e os velhos sapatos, corroídos pelo tempo e muito uso, em cima das morraças. Não sei se foi mesmo assim, mas foi a versão que circulou. Andou desaparecido dois ou três dias, depois veio aparecer, já meio desfigurado pela acção dos caranguejos, aquando da baixa-mar. Durante o seu desaparecimento, um grupo de rapazes onde eu me incluía nadava e brincava no rio, no meio da carreira. Um desses rapazes, bem perto de mim, sentiu uma coisa estranha a bater-lhe nas pernas e arrepiou-se todo. Disse-me que parecia um corpo de uma pessoa submersa que embatera nele. Mas como a água estava turva e dava pelo nosso peito, não vislumbramos nada. Talvez fosse o corpo do “coitado” do “Catimancias” arrastado pela corrente, imaginámos nós, incautos, como todas as crianças.

Depois desse infortúnio, a família foi-se embora de Sarilhos Pequenos. Estiveram pouco tempo na terra, talvez dois ou três anos, o suficiente para ele ser alcunhado. Não sei como terá surgido a alcunha de “Catimancias”, isso é coisa difícil de explicar tal como muitas das alcunhas daquele tempo em Sarilhos Pequenos. Talvez se referisse a cartomancia, cartomante, método de adivinhação que usa as cartas, não sei, mas a verdade é que ficou com esse epíteto.

 O Joaquim era um rapaz alto, mas muito magro, tal como o pai e o irmão António, que também eram magros e de estatura alta. Dava para notar que não se alimentava bem – não era só ele que não se alimentava bem naqueles tempos! Para quem não sabe, ou não se lembra, recordo que existiu uma vintena de famílias de Sarilhos Pequenos a viver em barracas –, daí a sua postura de rosto triste e andar lento. Era um “paz de alma” inofensivo, que partiu precocemente sem ter tempo para ver a aurora transformar-se em dia. A manhã sorria, cheia de uma atmosfera juvenil e no ar leve e calmo agitava-se uma promessa de vida. A juventude nunca passou e o crepúsculo espalhou-se no seu sorriso eclipsado. Ele viveu sempre no crepúsculo da vida, em plena desarmonia com essa manhã que nunca lhe sorriu. A vida exilada do seu sonho é uma viagem sombria. No caso dele, sombria e curta. O Sol quando nasce é para todos, mas nem todos têm um lugar ao Sol. Ele não teve esse lugar, nem teve tempo para tentar, ou talvez já não quisesse tentar, tal não era o seu sofrimento interior. Naqueles tempos não se falava em depressões, dizia-se aborrecimentos, tristezas. Foi assim que o conhecemos, sempre triste e melancólico com a vida. Fechava-se dentro dessa sua melancolia constante. Recordo-o pela sua maneira de ser, sua forma de esta na vida: bondoso, calmo, de aspecto sofrido e com semblante meio aturdido. Ao resgatar agora essas trágicas memórias, pretendo também prestar um tributo à sua memória, passados que estão quase 60 anos. Ele também consta das minhas memórias de infância, infelizmente pelo lado negativo da vida. Poder-se-á dizer, com alguma razão, que ele também foi um dos rapazes que nunca foram meninos, nem sequer teve tempo para ser jovem, apenas passou fugazmente pela vida, uma vida amargurada. Houve muitos “Catimancias” que resistiram e alguns até foram, mais ou menos, bem-sucedidos na vida. Bem-sucedidos no sentido do constituírem família e terem uma vida condigna e honrada.

 Fomos educados numa sociedade e numa época, enquanto crianças, sob a doutrina da igreja católica, em que o bem e o mal tinham nomes próprios: o bem era (de certa maneira ainda é) sempre atribuído a deus. E quando a vida de alguém é salvo in-extremis, que não foi o caso, diz-se que é “milagre de deus”, por bem. Ou se alguém falece precocemente, mesmo sendo adolescente, diz-se que “foi deus que o chamou mais cedo”, também por bem. Ou, então, diz-se que foram “horas do diabo”, por mal. Mas a realidade é bem diferente da ficção e da fé. E não tem nada a ver com o divino e outras imaginações afins. O BEM e o MAL estão dentro de nós desde que nascemos. Só depende de nós, com o decorrer do tempo, determinar qual deles vai predominar, qual deles vamos alimentar mais. Ao “Catimancias”, que não se alimentava bem, mas que alimentava o BEM, não lhe serviu de nada ser filho de pastor protestante, deus não quis levar isso em conta.

 Marcolino Fernandes não escreve de acordo com Novo Acordo Ortográfico “brasileiro”

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As setas vermelhas indicam o sítio do "Alcantil".

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Vista parcial da zona ribeirinha de Sarilhos Pequenos onde se inclui também o Estaleiro Naval.

 

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Casa onde morou o "Catimancias"

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