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 48 ANOS DE VIDA EM COMUM – 1973-2021

Este ano completamos 48 anos de vida em comum, faltam apenas dois anos para as chamadas bodas de ouro, 50 anos. Mas como não está fácil chegar lá, quisemos deixar um pouquinho da nossa experiência de vida através de um texto e de um pequeno vídeo. Com este vírus e outros males à espreita, dois anos é muito tempo. Mas vamos acreditar que sim. Afinal ainda não chegámos aos setenta, no meu caso já não falta muito. Por isso, vamos seguir uma velha máxima: “Quando a noite estiver mais escura é porque está perto de amanhecer”.

Uma vida em comum tem momentos felizes, conquistas, partilhas, vitórias, derrotas (vamos perdendo familiares) e alguns percalços também. Vida a dois tem momentos bons e menos bons. Quem não souber lidar com isso está condenado ao fracasso e a durabilidade da relação não é sólida, não é irreversível. O casamento não é prisão. Devemos ter a liberdade de permanecer livres e independentes e não perdermos as nossas personalidades. Ceder às vezes, sim. Mas anularmo-nos, nunca! Mantermos os nossos gostos próprios, a família, os amigos, enfim, as nossas identidades. Com o tempo vamos descobrindo como conciliar tudo isso com a vida a dois.

Quando plantamos uma árvore escolhemos um local apropriado e, de preferência, que seja fértil. Depois, é necessário regar diariamente e podá-la de vez em quando, cuidar dela, para que cresça mais forte. Nas nossas relações (casamento, amizade, família) passa-se a mesma coisa, o mesmo objectivo.

Alguns afirmam, com alguma resignação, que existem pessoas com muita sorte por viverem tanto tempo juntas. Mas não é uma questão de sorte, quero dizer, um pouquinho de sorte também ajuda, mas não é o suficiente. Achar um parceiro para a vida toda, num mundo de sentimentos tão voláteis como o nosso, é quase um feito inalcançável. As novas gerações têm outra percepção da vida e nem sempre conseguem. Os tempos são outros, as circunstâncias também, daí fazerem escolhas diferentes. Nós conseguimos. Mas não somos só nós. Em Sarilhos Pequenos, e estou a falar só da minha geração, mais ano, menos ano, nascidos entre o fim da década de 1940 e inicio da década de 1950, assim de repente, estou a lembrar-me de mais de trinta casais que ainda hoje também permanecem juntos há tantos anos. E se olharmos para as gerações anteriores à nossa, ainda vamos encontrar muitos mais. É claro que nem todos aqueles que vivem juntos há muitos anos são bons exemplos! Há até casos de muita infelicidade, por várias razões. Mas isso é um assunto que, numa análise sociológica mais profunda, daria para escrever várias páginas. Porém, fico-me por aqui. Já nos basta as televisões a transmitirem a toda a hora notícias negativas: doenças, mortes, covid, hospitais, homicídios, violência doméstica, etc.   

Voltando ao nosso caso, diria o seguinte: não tenham pena de nós, pois tivemos uma vida muito preenchida, sempre juntos, ou quase sempre. Num contexto social, económico e político da sociedade portuguesa da época – princípio da década de 1970 – em que persistia ainda muita iliteracia, pobreza e poucas oportunidades para os jovens, tivemos a possibilidade de visitar alguns dos mais emblemáticos locais culturais do mundo, que contribuíram indubitavelmente para enriquecer a nossa experiência de vida, a nossa formação e a nossa condição de seres humanos. A páginas tantas, deparámo-nos com uma “lua-de-mel” antecipada: oito dias em Paris. Depois, visitámos 8 países e 15 cidades europeias. Mais tarde, também fomos bem-sucedidos com a filha, criando as condições para a sua formação académica e, posteriormente, ela própria, puder viajar para 11 países e visitar múltiplas (o dobro) cidades europeias, incluindo Veneza e Santorini. Visitámos o museu do Louvre e a Catedral Notre-Dame, em Paris. Visitámos o famoso museu Hermitage, em São Petersburgo, com uma história incrível. O Hermitage é um dos maiores museus do mundo, possui mais de três milhões de peças. Ainda visitámos vários outros museus e partilhámos muitas visitas históricas. Assistimos a múltiplas manifestações culturais e artísticas e a várias óperas no teatro Bolshoi, com destaque para o balé (ou ballet) “Lago dos Cisnes”, do compositor Tchaikovsky, uma das melhores obras do género, apresentado pela primeira vez em 4 de Março de 1877. Dentro do nosso país visitámos muitos locais culturais e de lazer, desde Miranda do Douro ao Algarve.

Assim, poder-se-á dizer, sem falsas modéstias, que foi algo muito profícuo a que a maioria dos jovens portugueses da nossa idade, à época, não teve oportunidade de realizar, muito menos ainda filhos de trabalhadores. Mas connosco aconteceu, mesmo sendo filhos de trabalhadores humildes de Sarilhos Pequenos. Como disse o filósofo José Ortega: “O homem é o homem e suas circunstâncias”. Hoje, visto à distância temporal, consideramos que fomos uns jovens privilegiados. Privilegiados culturalmente, no sentido do conhecimento e da experiência de vida, mas não por termos sido favorecidos na vida, que não fomos, antes pelo contrário, vivemos uma infância de tempos difíceis.

Foi uma aventura inimaginavelmente partilhada por nós há 47 anos. Digo inimaginável, por sermos ambos muito jovens (21 e 23 anos), nascidos numa pequena aldeia ribeirinha, cheia de estereótipos, como todas as aldeias, onde o estigma de se nascer no seio de famílias humildes era muito acentuado. Havia sempre quem confundisse, erradamente, alguma pobreza económica com pobreza de espirito. A maioria da população masculina trabalhava no rio Tejo, fragateiros. Mas, ainda assim, havia quem enfatizasse e promovesse diferenças sociais. Pobreza de espirito havia, e ainda há, em todos os grupos sociais da população. Há até muita gente que não tem pobreza de dinheiro, mas tem muita pobreza de espirito. Não há maior demonstração de pobreza de espirito do que a necessidade que alguns têm de ostentação. Ou rir dos outros, isso, sim, é pobreza de espirito. Ao contrário, rir com os outros é uma coisa saudável, alegre e faz bem à saúde.

Nascemos em Sarilhos Pequenos e ali vivemos até aos 22 e 24 anos. A Guida nasceu no “Bairro das Tesas” e eu nasci quase à entrada da “Margateira”: são epítetos de lugares simbólicos de Sarilhos Pequenos no tempo em que se nascia em casa com a ajuda das chamadas “parteiras do povo”: Ti Ana “Liró” e Ti Emília “Larilas”, ambas sem formação alguma, nem profissional, nem escolar, apenas a prática de assistir a muitos partos e a proles abundantes. Apesar disso, o trabalho delas, o seu voluntarismo, foi fundamental e decisivo para a existência de muitos de nós. E até davam injeções! Assim, podemos afirmar, em jeito de brincadeira, que todos os que nasceram em casa são verdadeiramente naturais de Sarilhos Pequenos, por ali terem nascido. Actualmente, nasce-se em hospitais. É claro que estou a brincar! Todos os que são criados em Sarilhos Pequenos são sarilhenses.

Injeções também dava a Ti Maria “Pataca”. A Ti Emília “Barrigana” fazia e vendia água das rosas para os olhos (eu ia lá comprar para a minha avó). A Ti Estefânia tratava entorses, era endireita de pés torcidos e outros males afins. Até a minha mãe dava injeções à família, imagine-se!... É uma confidência verdadeira. Deu ao meu irmão primogénito, quando este foi acometido da febre da carraça, e também ao meu pai. Penso que também terá dado a outras pessoas da família, mas não tenho a certeza. Uma coisa impensável de acontecer nos dias de hoje, mas era o que havia!

 Era uma terra pequena virada para o rio (hoje, quase todas as aldeias ribeirinhas estão de costas voltadas para o rio, os tempos mudaram e a vida também) e onde a maioria da população adquiria o sustento: E as tais “diferenças sociais” que mencionei atrás, até nos namores se revelavam: os filhos dos mais bem-sucedidos, dos remediados e dos emproados (os tais pobres de espirito com ar de superioridade), normalmente ignoravam os filhos dos menos favorecidos, quase sempre por imposição dos pais, mas também por vontade dos próprios, que herdavam e seguiam os pensamentos erróneos dos progenitores, criando muros e barreiras desnecessárias e obtusas. Nós não tivemos essas barreiras porque somos ambos originários de famílias humildes, nem tivemos intermediários (aquilo que designava na época por “namores feitos”). Não se trata de palavras despeitadas, apenas factos, eram outros tempos, em circunstâncias diferentes. Os filhos eram sempre vistos em função das condições económicas dos pais. Foram as circunstâncias da vida que ditaram as regras. E as regras favoreciam sempre aqueles que provinham de famílias com razoáveis ou mesmo boas condições financeiras, comparado com a maioria da população de Sarilhos Pequenos. Aquilo a que o Status Quo da sociedade, à época, designava como “pessoas ricas”. Ricas, no contexto da aldeia, que eram, mais ou menos, meia dúzia de famílias. E as pessoas ricas no contexto das aldeias tornam-se pessoas “importantes” e reverenciadas. Era uma época em que a importância das pessoas andava muito ligada aos bens materiais e à riqueza pessoal. Hoje, a vida mudou muito, mas ainda existem muitos resquícios desses tempos e desses pensamentos.

O tempo é implacável com todos, nunca pára nem espera por ninguém, segue o seu caminho sem olhar para trás, não tem nenhuma compaixão por nós. E passa para todos independentemente de quem seja, não há nenhuma regalia para ninguém. A nós, as marcas do tempo deixaram anos de experiência que a vivência em comum nos proporcionou. E não importa o número de anos vividos, o importante mesmo é o que ainda sentimos. A idade está nas nossas cabeças. Não fora as maleitas do corpo, algumas com mais gravidade, motivadas pela declínio normal dos nossos órgãos, estaríamos aí para as curvas, como soi dizer-se. As rugas, essas, ainda não se vislumbram, estão tímidas, mas não as tememos, elas são as marcas do tempo a passar por nós, dos anos vividos, adquiridas nas lutas do dia-a-dia, como prova inexorável da nossa existência. A verdadeira idade não é avaliada só pelos anos vividos, também é pelos carinhos tocados, pelos sorrisos roubados, pelos sonhos tentados e pelos beijos dados.

Agora, que entrámos na chamada 3ª idade, já passámos o número 65, considerada velhice, não vamos desistir. A vida tem as suas fases e esta já foi mais respeitada. Outrora, a velhice era uma dignidade; hoje, ela é um peso, infelizmente. A velhice é incómoda, claro! Ela nunca vem só, traz sempre muitas coisas atrás. Porém, envelhecer também é viver. E se envelhecermos juntos, melhor ainda. Nós ainda não perdemos a capacidade de nos indignarmos, quando isso acontecer, então sim, envelhecemos mesmo.

Durante a nossa curta existência, a exultação e a dolência caminham de mãos dadas. É por isso que devemos tentar ser felizes de vez em quando porque não se pode ser sempre, isso não existe. Além disso, ser feliz consome-nos muito tempo.

Para terminar, recordo uma frase muito usada pelos antigos fragateiros do Tejo: AGORA É SÓ FAZER LEME!... Era o que o meu pai e o Ti João da Rosa me diziam quando eu tinha 10 anos e os acompanhava na labuta diária, em várias ocasiões, quando a fragata carregava vinho de Lisboa para Azambuja: setenta toneladas de barris com vinho. Quando os ventos eram de feição (vento à popa) e a maré enchia, mandavam-me para o leme da fragata – escota aliviada e vela enfunada – e lá ia eu a navegar, a fazer leme. A fragata, praticamente já sabia o rumo. É precisamente isso que nós estamos a fazer agora nesta fase das nossas vidas: “fazer leme” e deixar-nos ir…  

Marcolino Fernandes não escreve de acordo com a nova ortografia “brasileira”.

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