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CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA LOCAL DE SARILHOS PEQUENOS

por marcolinofernandes, em 09.07.23

      ESTALEIRO NAVAL DE SARILHOS PEQUENOS

                                        80 ANOS - 1943 / 2023

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Até ao fim do século XlX a grande maioria das fragatas, sobretudo varinos, eram construídas em Ovar. Depois da construção vinham para Lisboa em expedições, que se denominavam “enviadas”. Em finais do mesmo século e primeira metade do século XX também o rio Tejo foi provido de muitos estaleiros navais, nomeadamente na Margem Sul: Barreiro, Almada, Seixal (Arrentela), Montijo, Alcochete, Amora, Gaio/Rosário e Sarilhos Pequenos. Em Lisboa havia os estaleiros do Cais da Ribeira. Os operários destes estaleiros eram, quase todos, oriundos de Ovar e Pardelhó.

O Estaleiro Naval de Sarilhos Pequenos, actualmente, é o único em funções no rio Tejo e, quiçá, no país. Há mesmo quem afirme que é o único no país com estas características. Estou a referir-me à construção e reparação naval de barcos em madeira com estas dimensões. Para todos nós, sarilhenses do tempo dos botes do pinho,, que crescemos a brincar junto ao Estaleiro Naval, incluindo as raparigas, décadas de 1940, 1950 e 1960, é muito curioso continuarmos a assistir ainda à sua laboração, passados 80 anos da sua fundação.

 O Estaleiro Naval de Sarilhos Pequenos foi fundado no século XX, em 1943, pelo senhor António Pinto, conhecido por António “Viana”, natural de Viana do Castelo. Ainda me lembro, vagamente, de o ver com o seu chapéu preto de aba larga, quando a minha mãe me levava pela mão, com os meus 4 anitos, e ali passávamos, no tempo em que a zona do estaleiro era um caminho público. O estaleiro, propriamente dito, era só aquele pequeno espaço à volta do primeiro barracão da sua fundação, que já não existe. E era ladeado pelos muros de passagem pública, pela fazenda do Ti “Zé” Augusto, pela fazenda alugada ao Ti Viriato e pelo Castanheiro. Doze anos depois, em 1955, passou para a posse dos irmãos Costa: Jaime Ferreira Costa e José Ferreira Costa (Zé Bento). Mais tarde, ficou só na posse de Jaime Costa. Hoje, é gerido pelo filho, também chamado de Jaime Costa, cujo percurso profissional foi sempre, desde criança, ligado ao Estaleiro Naval. Com ele, o estaleiro ainda perdura. Vamos ver se tem continuação no futuro? É o único na zona do Estuário do Tejo e um dos últimos do país a construir e reparar embarcações de madeira.    

Em 2018 a Câmara Municipal da Moita decidiu promover a inscrição das técnicas de construção e reparação de embarcações tradicionais do Estuário do Tejo no Estaleiro Naval de Sarilhos Pequenos, no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Depois disso, resolveu apresentar a candidatura deste património a inscrição na Lista do Património Cultural imaterial que requer medidas urgentes de salvaguarda, da UNESCO.

Jaime Ferreira da Costa, construtor naval, natural de Pardilhó e radicado em Sarilhos Pequenos, concelho da Moita, foi homenageado pela Câmara Municipal da Moita, em 16 de Setembro de 2003, dia do município e das festas da Moita. A homenagem teve honras de sessão solene no salão nobre dos paços do concelho. Também foi homenageado o Mestre José Lopes, do Estaleiro Naval do Gaio, ambos com Medalha de Mérito Municipal, dourada, por terem contribuído para a divulgação e engrandecimento do concelho da Moita através das suas nobres e artísticas profissões, a construção e recuperação de embarcações típicas do rio Tejo.

                         AINDA SOBRE JAIME FERREIRA COSTA (O Mestre Jaime)

Jaime Ferreira da Costa nasceu na freguesia de Pardelhó a 27 de Maio de 1924. Era conhecido na sua terra por Jaime “Lavoura” (alcunha da família). Em 1943 veio trabalhar para os estaleiros navais de Setúbal, onde esteve pouco tempo, mudando-se, depois, para o Estaleiro Naval do Gaio, no concelho da Moita, em 1944.

Em 1955, com 31 anos, comprou o Estaleiro Naval ao mestre “Viana” e radicou-se em Sarilhos Pequenos, como proprietário e mestre do estaleiro. Mesmo antes da sua morte, aos 86 anos, no dia 4 de Junho de 2010 (quando faleceu estava no lar de Sarilhos Pequenos), o Estaleiro Naval já era gerido pelo filho, Jaime Costa, que deu continuidade ao legado do pai, para nós, sarilhenses, o “Jaime do Estaleiro”, para distinguirmos do “Jaime da Mónica”. Em terras pequenas há que fazer a destrinça.

Um certo dia, não sei precisar a data, já o Mestre Jaime estava no lar de Sarilhos Pequenos, vim a saber depois, passei de carro pela rua Luís de Camões (rua do asilo), ainda o trânsito se fazia nos dois sentidos, vinha eu de saída, à tarde, e deparei-me com o mestre Jaime sentado num dos dois bancos municipais, quase defronte do antigo talho, sozinho, cabisbaixo, pensativo, como que à espera do tempo passar. Achei estranho ver o mestre Jaime ali sentado. Depois, num outro dia, contei a uns amigos, que costumavam parar ali junto à Associação Naval Sarilhense, essa minha estranheza, ao que estes me responderam que o mestre Jaime estava a viver no lar de Sarilhos.   

     Os lares são lugares para onde as pessoas vão, quase no fim da vida, cansadas do tempo que passou rápido, mas também cansadas do tempo lento que teima em demorar a passar. Cansadas dos dias de chuva que impede uma saída em grupo, mas também cansadas dos dias de sol que incomodam os olhos.

São lugares de gente cansada das pessoas mandantes, que teimam em infantilizar os mais velhos que ali vão parar, muitas das vezes, ou quase sempre, por decisões de terceiros. Eles já não são as crianças de ontem, mas têm uma experiência de vida acumulada e merecem ser respeitados.

São lugares de gente cansada da rotina diária dos lares, por muito bem tratados que sejam, e certamente serão, por pessoas complacentes e humanas, mas não em todos lares, infelizmente. Estar num lar é como estar naquilo a que eu chamo a “morgue dos vivos”. Talvez esteja a exagerar, mas quando dependemos dos outros perde-se muito: perde-se a liberdade, perde-se a privacidade, perde-se gosto pela vida, perde-se tudo…. Quem vai para um lar é para não voltar.

São pessoas cansadas do seu novo mundo restrito, com o seu “passe livre” para sair e entrar não quando bem entenderem, com medo de saírem e nada encontrar, meditando no pouco tempo de vida que lhes resta, uma vida entediante, pensando que cá fora não existe mais nada para ser descoberto. As coisas perdem valor com o tempo. O tempo é muito fugaz e não há como voltarmos atrás. Estes são momentos de vida para olvidar. No caso do mestre Jaime, é caso para dizer, recorrendo a uma frase filosófica: “Não morras sem antes viveres!”

Quem bem-intencionado é e só investe no futuro, deixa de viver o presente. O tempo passa rápido e o presente já é passado. Há pessoas que se esquecem de viver, é só trabalho, sempre trabalho, muito trabalho… E, no fim, não existe pessoas inesquecíveis, todos somos esquecíveis.

                                               SOBRE O JAIME COSTA (filho)

Jaime Manuel Carromeu Costa nasceu no Gaio, em 23 de Julho de 1953 (mais velho 5 dias que a Guida, minha mulher, que nasceu a 28 do mesmo mês e do mesmo ano), ainda o pai trabalhava no estaleiro do Gaio, que viria deixar em 1955. É o segundo de três irmãos, e aquele que seguiu as pisadas do pai, dando continuidade à profissão e ao legado de família. O Jaime sempre esteve ligado à arte da construção naval, acompanhando o pai nas tarefas diárias do estaleiro. Trabalho árduo, braçal, que exige muito esforço físico, aptidão e destreza. Foi o único filho que trabalhou com afinco no estaleiro. O irmão mais velho, o Francisco, foi empregado do estaleiro, coisa bem diferente. Não tenho a certeza se o irmão mais novo também por lá trabalhou, ou trabalha agora?

O Francisco tinha as suas peculiaridades, mas era bom ser-humano. Um dia, já depois do 25 de Abril, a revolução estava no auge, estava ele sentado à porta do “Café Farol”, em Sarilhos Pequenos, a fumar um charuto, e um amigo meu que estava presente e me contou o episódio, exclamou: «puxa!... De charuto, Francisco!?». «Então!... Qual é o problema? O Fidel Castro é revolucionário e fuma charuto! E eu não posso fumar, porquê?». Responde o Francisco de prontidão.

O Jaime tem “dupla nacionalidade”, quero dizer, dupla localidade. Nasceu no Gaio, mas viveu a maior parte da sua vida em Sarilhos Pequenos, incluindo a sua infância. Portanto, eu diria que ele é – vou inventar uma palavra nova, escolhida entre o gentílico gaiense e sarilhense – um “gairilhense”. É ele que vem mantendo o Estaleiro Naval em funcionamento, e onde sempre trabalhou. Por isso, penso que já lhe podemos atribuir o título de “Mestre Jaime”, apesar de ele dizer, humildemente, que Mestre Jaime era o pai dele.

POR ORDEM CRONOLÓGICA

1943 – É fundado o Estaleiro Naval de Sarilhos Pequenos pelo senhor António “Viana”, uma alusão à sua terra, Viana do Castelo, que lhe dava o “apelido”. O apelido verdadeiro seria Pinto, António Pinto.

1955 - Doze anos depois da sua fundação, o estaleiro foi comprado por Jaime Ferreira da Costa, natural de Pardilhó, em parceria com o irmão José Bento.

O Estaleiro Naval construía e reparava fragatas, varinos, botes, canoas e, num certo período, batelões de ferro. Para isso tiveram de contratar soldadores, maçariqueiros e assentadores de chapas.

1960 e 1970 - Foi nestas décadas que o estaleiro empregou mais trabalhadores: calafates, carpinteiros, serradores braçais, soldadores, maçariqueiros, assentadores de chapa e pintores. Um dos meus irmãos trabalhou como soldador.

1961 - Foi criada uma sociedade, constituída por Jaime Ferreira da Costa e José Bento Ferreira da Costa, irmãos. O Estaleiro Naval passou a designar-se «Jaime Ferreira da Costa & Irmãos, Lda».

1982 - Com o declínio da actividade das fragatas e batelões foi abolida a sociedade entre os dois irmãos. A partir dessa data, Jaime Ferreira forma, então, uma nova sociedade com os seus filhos, sendo ele próprio sócio maioritário.

2000 - No virar do século, primeira década do século XXI, o estaleiro empregava uma dezena de trabalhadores, mais ou menos, e os clientes passaram a ser várias câmaras municipais do distrito de Setúbal, mas também as Câmaras de Cascais, de Vila Franca de Xira e Azambuja. É aqui, que as respectivas embarcações fazem as suas reparações e, por vezes, construções de raiz, como foi o caso do bote de Alcochete, muleta do Barreiro, canoa de Lisboa, galeão do sal de Cascais e reparação do galeão de Alcácer do Sal, etc.

2003 – Jaime Ferreira Costa foi agraciado pela Câmara Municipal da Moita com Medalha de Mérito Municipal.

 

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Primeiro barracão do Estaleiro Naval, nestas duas imagens baixo. já extinto  Fotos do autorjpg-2.jpg

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