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HISTÓRIAS VERDADEIRAS DA MINHA INFÂNCIA

por marcolinofernandes, em 09.09.13

 

 

HISTÓRIAS VERDADEIRAS DA MINHA INFÂNCIA

(O Fisgas)

 

     Naquele tempo, em medos da década de 1950, na escola primária em Sarilhos Pequenos, só havia mulheres como professoras. Os alunos tratavam-nas por “senhora professora” ou “minha senhora”. Conheci várias professoras: Arlete, que era uma fera..., Maria dos Anjos, que também “arreava bem” (batia muito), Maria José, Teresa, e outras… Havia uma dessas professora, já não me lembro qual, que trazia para a escola, de quando em vez, uma criança de dois anos, um rapaz, e deixava-o à guarda do aluno mais “burro”, quero dizer, aquele que ela embirrava mais. Não se tratava propriamente de ser burro, muitas das vezes eram crianças autistas, que elas rotulavam logo de burras. É claro que elas, as professoras, eram emanadas do regime, e essa coisa de crianças com dificuldades em apreender as matérias, na visão enviesada dessas professoras, à época, era burrice.

      Não era sempre que a professora trazia a criança para a escola, mas, ainda assim, foram muitas as vezes. Um certo dia incumbiu o Fisgas (nome fictício) de tomar conta do menino. O Fisgas era um aluno que já não passava de classe, e a professora pô-lo nas últimas carteiras, como uma espécie de castigo. Além da humilhação era também uma discriminação, porquanto o fisgas pertencia a uma minoria, os esquerdinos.

       Chamávamo-lo de Fisgas, porque andava sempre com a sua fisga pronta a atirar. Trazia quase sempre as algibeiras cheias de pedrinhas. Ele tinha uma grande adversidade física que, não sendo defeito, era uma mácula para a época: nasceu canhoto. E nascer canhoto naquele tempo era ser estigmatizado pelos resquícios, ainda muito presentes, do regime Salazarento, o obscurantismo e a intolerância. Pertencia a uma minoria, e, por isso, era discriminado pela professora que ministrava o ensino de acordo com a retórica desse mesmo regime Salazarista: Todos os alunos tinham, forçosamente, de ser destros. Não podia haver contemplações. E ele pagou caro essa factura. Para o obrigar a escrever com a mão direita, a professora atava-lhe cruelmente a mão esquerda ao pé da carteira com um cordel. Ali ficava amarrado, durante as aulas, não podendo utilizar as duas mãos, como os outros alunos. Além de ser um doloroso castigo físico era, também, um castigo psicológico. Até nós, os outros alunos, nos sentíamos incomodados e amedrontados com a situação. Mas o Fisgas também era duro de roer e arranjou uma maneira muito peculiar de se desforrar da maldade da professora, através da inocente criança, coitada, que não tinha culpa nenhuma, mas estava mesmo ali à mão.

       Ele tinha um modo de falar característico parecido ao dos habitantes de Setúbal, arrastava os (érres) “R”. Quando falava “ir lá fora”, a fonética ficava parecida com “ig lá fonga”:

       «Minha senhonga, posso ig lá fonga?» “lá fora” era ir “aliviar-se”, fazer a necessidade fisiológica atrás do valado da fazenda do pinhal do Mocho, que ficava junto à escola.

      «Vai lá, mas não demores muito…» acedeu a professora, um pouco contra a sua vontade.

      O Fisgas saiu para a rua e por lá ficou uns escassos minutos, suficientes para apanhar um ramo de urtigas e trazer na algibeira da bata (bibe). Chegado à entrada da sala de aulas, bateu à porta:

       «Dá licença, minha senhonga!» naquele tempo havia este formalismo no trato com as professoras.

     «Entra!», disse a professora com voz eriçada. «Vai para o teu lugar sossegado e toma conta do menino!».

     Entrou cabisbaixo com um ar muito manso, sentou-se, e começou a preparar a sua estratégia de ataque, retirando da algibeira do bibe as ditas urtigas, enquanto a professora dava a aula junto ao quadro (quadro de escrever com giz) da escola. Com a humilhação a que fora exposto, o Fisgas sentiu-se impelido a fazer a sua vingançazinha, friccionando as urtigas contra as pernas da criança, que ele, supostamente, deveria tomar conta. Friccionou várias vezes, mas aquilo não sortia efeito. Afinal enganara-se na planta. Não eram urtigas, mas sim outra planta parecida pertencente a uma família diferente da outra urtiga – cujo nome científico é lamium álbum – que não “pica”, isto é, não tem características urticantes. A urtiga verdadeira, mais comum, a que “pica”, tem o nome científico urtica dioica (“urtigas doidas”, como nós dizíamos…). Mas o Fisgas não desistiu dos seus intentos e pediu novamente para ir lá fora:

       «Minha senhonga, posso ig outnga vez lá fonga?»

       «Outra vez!?...» exclamou a professora em jeito de pergunta.

       «É que dói-me a bangiga, minha senhonga!», atalhou ele determinado.

      «É a última vez que lá vais!», ameaçou a professora. Saiu novamente, e quando regressou já trazia as urtigas verdadeiras. Passado alguns minutos, sorrateiramente, começou impiedosamente a friccionar nas pernas da criança ao mesmo tempo que ia controlando o olhar da professora. Não foi preciso muito tempo para que a criança começasse com um choro ruidoso, inquietante e ininterrupto. Foi uma birra que pôs toda a escola em polvorosa. As pernas da criança ficaram vermelhas da irritação, mas o Fisgas, apesar dos seus oitos anos apenas, fez-se de tanso e espantado com a situação, tentando acudir à aflição da criança, como se ele não tivesse nada a ver com aquilo. A verdade é que ludibriou a professora, que nunca descobriu o que se passara de verdade. O Fisgas arriscou-se muito, mas estava-lhe no sangue…

       Ironia do destino, em idade adulta veio a ser homem muito pacato, cordial e até um pouco introvertido.

 

Marcolino

(Escrevo pela ortografia antiga)

 

 

P.S.: Sete presidentes Norte Americanos foram canhotos, incluindo os dois últimos, George Bush e Obama, que escrevem com a mão esquerda.

 

 

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