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NO TEMPO EM QUE SE BRINCAVA (SARILHOS PEQUENOS)

por marcolinofernandes, em 13.09.13

 

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                        Pinturas do autor

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                        1964. Foto cedida pelo meu amigo de infância, Manuel F. M. Rodrigues. Em cima António "Patinha", José (do Rocha) 

                       "Chico" (da Maria), Marcolino. Em baixo: Manuel (da Maria), "Antóniozinho", Filipe (do Rocha) e Jaime (da Mónica)

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                          "Chico" (da Maria), José Domingos Miranda, Fernando R. Miranda e Manuel (da Maria)

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NO TEMPO EM QUE SE BRINCAVA

 

Porque fomos crianças de ontem, devemos pensar nas crianças de hoje e apostar nas crianças de amanhã.

 

Ser criança é brincar. A brincadeira é o trabalho da criança. É a brincar que a criança aprende a ser homem ou mulher e constrói a sua personalidade.

 

Quem vê Sarilhos Pequenos hoje, não difere muito de como era na primeira metade do século XX, em termos de casario. Apesar da construção dos novos fogos “Santa Teresinha e Corte Real”, o essencial do núcleo urbano mantém-se incólume. Hoje ainda podemos ver as ruas onde brincámos, as margens do rio onde nadámos, e até as casas onde nascemos. As mudanças deram-se sobretudo a nível social: Mudaram as pessoas, mudaram os usos e os costumes, mas também mudaram as condições de vida, os objectivos e até os sonhos. Tinhamos deixado de sonhar, mas com esta nova solução de governação a esperança é bem mais animadora.

 

As circunstâncias do lugar onde nascemos e do tempo em que vivemos foi decisivo e determinante para a nossa geração. Geração formada em princípios e valores da época.

 

Muitos lembrar-se-ão, certamente, da vivência colectiva nas décadas de 40, 50 e 60 do século passado, em que éramos impelidos a procurar e a improvisar as brincadeiras possíveis e imaginárias, de acordo com o tempo e o espaço, ao ritmo da vida da época, onde a componente física era preponderante, ao contrário do sedentarismo por que passam as crianças de hoje. Eram outros tempos, gerações diferentes, vivências partilhadas. Quase sempre de pés descalços, ou com alpercatas, vivíamos até à exaustão física a vida árdua, carenciada e pouco promissora, mas, ao mesmo tempo, gratificante e enriquecedora do ponto de vista social na nossa formação como homens.

 

É espantoso o arrepio na espinha que se sente ao lembrar esses tempos de espontaneidades da meninice e adolescência, onde imperava o belo, o lúdico, o divertido, mas também o risco e o perigo: Nadámos no rio, sozinhos, sem a vigilância dos nossos pais. Bebemos água das várias nascentes que existiam naquele tempo, sem preocupações de salubridade. E ainda cá estamos muitos. Construímos carrinhos de rolamentos para descermos ladeiras abaixo. Só quando caíamos é que descobríamos que não havia travões. Saíamos de casa, de manhã, brincávamos todo o dia, e só regressávamos quando a fome apertava. Ninguém nos podia localizar. Não havia telemóveis. Partíamos os dentes, os ossos, e arranhámo-nos uns aos outros no calor das brigas de rua. Atirámos fisgadas e pedradas uns aos outros. Mas ninguém fora punido. Foram acidentes de percurso e aprendemos a suportar isso. Espetámos pregos ferrugentos, vidros e picos, nos pés descalços. Arrancámos unhas e pedaços dos dedos dos pés, por causa das topadas que demos nas pedras da rua. Rodeámos os grandes charcos das fazendas. Quem caísse, podia lá ficar. Alguns caíram. Corremos que nem loucos nos jogos que disputámos, sempre ao ar livre, em movimento, e não fomos obesos. Subimos aos pinheiros altos para procurar ninhos. Uma queda, era praticamente fatal. Atirámo-nos em mergulho de cima das proas dos barcos. Alguns até de cima dos mastros se lançavam ao rio. Fumámos barbas de milho. Comemos canários (uma flor dos muros). Comemos os talos dos repolhos que apanhávamos nas fazendas. Apanhámos lagartos nos buracos das oliveiras e no muro da Quinta do Mocho. Tivemos encontros casuais com cobras e lacraus. Atravessámos a carreira na maré baixa, atascados na lama e nos perigosos “olheiros” (uma espécie de lama movediça). Vagueámos pela Lameira (montoreira de lixo que vinha de Lisboa para servir de estrume para as fazendas). Comemos fruta apanhada, directamente, das árvores, sem lavar, sem descascar e sem autorização dos donos. Pendurámo-nos nas traseiras das camionetas de caixa aberta, à boleia, só por divertimento, indiferentes ao perigo. Atravessámos a carreira a nado, na preia-mar. Alguns ficaram sem forças e tiveram de ser salvos. Não tivemos pleystations, vídeo jogos, TVcabo, filmes de vídeo, telemóveis, ipads, computadores, Internet, mas tivemos amigos e brincámos: saíamos de casa e batíamos às portes uns dos outros e encontrávamo-nos em locais habituais.

 

Apesar de todos estes perigos, será que tivemos sorte por não termos sido super protegidos na nossa infância? Faz pensar que sim. Olhando para trás, é difícil acreditar que ficamos incólumes aos reais perigos a que nos expusemos. 

 

Ao arrepio de saudosismos lamechas, os meus textos e os meus livros procuram eneltecer uma vivência, um povo e uma terra, através do baú das minhas memórias. Um património imaterial que faz parte do “ADN” de Sarilhos Pequenos.

 

A nossa geração não foi melher nem pior que a actual geração, foi diferente, porque diferente foram as circunstãncia de vida: o tempo em que nascemos e o lugar em que vivemos. E também não tem nada a ver com aquela expressão saudosista: "No meu tempo é que era bom! O meu tempo é este! O nosso tempo é este! Só que vivemos há mais tempo. Por isso, temos mais conhecimento.

 

O registo de memórias passadas é o melhor investimento cultural que podemos legar aos nossos filhos e netos.

 

Marcolino (Escreve pela ortografia anterior))

 

 

  

 

 

 

 

 

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1 comentário

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antonio santos a 15.09.2013

sem dúvida...o enriquecimento humano e a formação social aprendem-se em interação com os outros...a ausência de fartura repele a frivolidade, favorece a solidaridade e parece que dá engenho ao homem para que o futuro seja melhor.

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