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AS FESTAS DE SARILHOS PEQUENOS

 

As festas de Sarilhos Pequenos ter-se-ão iniciado no século XVIII, em anos consecutivos até 1932. Depois disso, só há registo (memória oral) de mais cinco festas: Em 1937, 1947; 1948; 1949 e 1960. Seguiu-se um interregno de vinte e sete anos sem festas. Só em 1987 é que se reiniciaram novamente, sempre em anos consecutivos até à presente data.

 

Foi também no século XVIII, em 1782, que D. Maria I autorizou a realização de uma feira franca em Sarilhos Pequenos. 34 Anos depois, em 1816, já no século XIX, por carta régia de 7 de Fevereiro do mesmo ano, D. João VI autoriza a transferência de uma feira que até então se realizara em Sarilhos Pequenos, para a vila da Moita, na forma e dia indicado pela confraria de Nossa Senhora da Boa Viagem.

 

Ainda no século XVIII, em 1790, na segunda Dominga de Sª Ana, um grupo de Sarilhenses funda o Círio de Sarilhos Pequenos em honra de Nª Sª da Atalaia, em que os participantes (designação do Círio) eram “o povo”.

 

No século XIX, segundo a memória manuscrita do Círio da Nº Sª d’Atalaia de Oeiras, o padre Manuel Costa divulgou uma lista respeitante ao ano de 1823, onde é mencionado a presença de 34 Círios em Atalaia, o maior número de Círios que alguma vez se deslocara em romaria a esta localidade, e onde se incluía o Círio de Sarilhos Pequenos.

 

No Sábado, dia 6 de Agosto de 1960, realizaram-se as últimas festas de Sarilhos Pequenos da época dos botes do pinho, que terminaram na quarta-feira dia 10 (5 dias de festas). Tinha havido um intervalo de onze anos sem festas. As anteriores efectuaram-se em 1949. Posteriormente só viriam a realizar-se em 1987. Ficaram intercaladas entre um interregno de 11 anos para trás e 27 anos para a frente. Mas foram as festas da nossa infância.

 

ÉRAMOS TODOS CRIANÇAS.

 

      Os músicos da banda de Sarilhos Grandes, uma charanga comandada pelo senhor “Lò”, como era conhecido, percorriam as ruas de Sarilhos Pequenos anunciando o início das festas. Todos os que podiam caprichavam na vestimenta. Afinal, sempre eram as festas da terra. Era um tempo em que se esmerava na farpela em dias especiais: domingos e dias festivos.

      Ouvem-se os cânticos entoarem pelas ruas de Sarilhos. Alguns têm a percepção do que se trata. Outros, porém, são apanhados de surpresa, ainda deitados, e saem de casa à pressa, mal têm tempo de se vestir. Todos se juntavam para acompanhar a charanga e dançar o uga-uga, percorrendo assim as ruas de Sarilhos, ao som da música, anunciando o início das festas da Nossa Senhora da Graça. Pelo caminho, à frente dos músicos, seguiam também as mulheres, de braço dado, saltitando de um lado para o outro, passo à frente, passo atrás, ao toque das cantigas, cujo repertório, à época, era quase sempre constituído por canções populares, como: o “Cochicho da Menina” («Rapaziada, isto agora é que vai bem, rip, pi, pi, pi, pi, pi, pi, o cochicho da menina»), “Larga a menina, ou pá!” e outras... Pelo meio, os miúdos caminhavam, pés descalços, à força de pisadelas.

       - Eh pá! Não me pises, porra! Levas uma chapada não tarda! – dizia o Guedelhas para o Fisgas que, apesar do seu tamanho, não hesitou em responder à letra...

       - Tu?... Tu não dás nada!

       - Não dou?... Ora, toma lá!...

      - Ai! Cabrão! «Manicacas»!

      - Psiu! Caluda! Se não levas mais... 

     Conforme acompanhavam o uga–uga, de rua em rua, havia sempre um malandreco a fazer judiarias, passando rasteiras aos  mais incautos e indefesos. As ruas eram de terra batida, com regos ao meio para melhor escoamento das águas da chuva e outras águas de origem doméstica. Quase todos os rapazes andavam descalços, exceptuando meia dúzia deles, filhos de famílias remediadas. Alguns andavam de calções até à idade adulta. As mães deles, as remediadas, não queriam que os seus filhos vagueassem pela Borda do Mar e outros sítios emblemáticos, onde a rapaziada extravasava de liberdade, dando azo às suas diabruras e patifarias, próprias dos miúdos da época. Esses rapazes eram alcunhados, em surdina, de meninos das mamãs. Mas eram pouquíssimos, de facto, e foram meninos até muito tarde, ao contrário da maioria dos rapazes, que não tiveram tempo de acabar a meninice ao ingressarem no trabalho muito precocemente. Ao contrário da maioria, os filhos dos remediados tiveram quase tudo, quase tudo em termos de condições económicas, só não tiveram o “quase”, e o “quase”, era muita coisa: era a tal vivência colectiva; vaguear livre pelos recônditos da aldeia; usufruir dos pinhais, da flora, da fauna, e dos cheiros; sentir as águas do rio e ir aos banhos de água salgada; sentir o vento; enfim, sentir o Sol radiante irrompendo pela aurora dos nossos sonhos e aventuras: brincar, brincar, brincar...

      Todos dançavam ao compasso da música, sempre atentos às pisadelas do Gordo, que eram terríveis mesmo para uns pés calçados, quanto mais pés descalços!

      - Pá! Sai daqui do meio!... – ameaçava o Gordo, para ficar com espaço para saltitar à vontade ao ritmo da música, sem ter empecilhos por perto a atrapalhá-lo. Para isso, já bastava o seu jeito desengonçado e trapalhão. Dançar não era muito o seu jeito.

      Já percorridas várias ruas, a multidão engrossava e era agora mais numerosa, pelo que o espaço escasseava: «Este tem a mania que é tudo dele! Queres ver!...» – desdenhava o Toninho, estrategicamente colocado no meio da malta da rua da Margateira, para o parceiro de ocasião, o Mansinho, que era da rua da Atrás-da-Taipa e seguia na primeira fila, mas que deambulou para o meio.

 

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                                                                      Anos 40. Uga-uga.

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                           Os músicos da  charanga descansando junto ao rio, perto do campo de futebol

 

      Alguns guardavam os tostões dos recados que faziam para ‘gastar’ pelas festas, por forma a puderem comprar um bocadinho de torrão de Alicante ou um pirolito. Outros beneficiavam dos proventos do trabalho dos irmãos mais velhos, que já trabalhavam no rio. Havia também aqueles que nada tinham e que se entretinham a vaguear pela festa, às vezes desafiando os outros com impropérios e alcunhas depreciativas.  

      O costume das alcunhas alimentava quezilas e desavenças. Por vezes raiava a ofensa e as brigas aconteciam. É bem verdade que algumas eram particularmente malévolas para despertarem no alcunhado um sentimento de cólera interior. A crueldade infantil era arrasadora e tinha laias de fanfarronice truculenta, mas não era intrínseca, era coisa da época. Ainda hoje, a crueldade infantil é uma componente psicológica do Ser humano enquanto criança, de quem sempre se disse serem puras e imaculadas. Mas essa crueldade infantil era, também, fruto de infâncias difíceis com muitas privações, repercutindo-se muitas das vezes nas atitudes das crianças, que tratavam logo de alcunharem-se umas às outras com epítetos depreciativos, alguns escabrosos e abjectos, explorando os pequenos detalhes físicos e características pessoais de cada um. A imaginação era fértil, e o impulso momentâneo e circunstancial dos autores das alcunhas perdurava para toda a vida. Ainda hoje, são lembradas algumas alcunhas vindas dessa vivência passada, relacionadas com o aspecto físico das pessoas: Pé–Curto, Braço–Curto, Pé–Gordo, Rodas–Baixas, Meio–Litro, Seis Dedos, Cabeça à Banda, Coxo, Gorducho, Bucha, Ramela, Marreco, careca, zarolho, Meia–Orelha, Ratada, Canheira, Júlia Maluca, Mouca, Muda e muitas outras... Apesar de disso, as crianças continuam a ser o melhor do mundo, digo eu.

 

O CIRCO

 

     A azáfama da montagem do palco, junto à "bomba" da água (chafariz), trazia mais um espaço para brincadeiras debaixo do mesmo. As barracas da feira eram montadas no largo e no espaço atrás da igreja (inclusive a tenda do circo). Atrás da Igreja é como quem diz, ao lado, mas sempre dissemos atrás.

    - Vem aí o circo! – alertava o Mansinho, sempre atento às novidades e aos acontecimentos vividos na terra. A notícia corria célere pelas ruas da aldeia, propagando-se rapidamente como vento soprando as mentes do imaginário infantil, cumprindo a tradição, sempre aguardado com muita expectativa por novos e velhos. Naquele tempo, festas sem circo não eram festas, ainda que, quase sempre, fossem pequenas famílias de saltimbancos, cujos artistas intervenientes eram constituídos por pequenos grupos familiares. Os saltimbancos davam a volta às ruas para divulgar o espectáculo, fazendo-se acompanhar de um ou dois instrumentos, normalmente uma trompete, uma pandeireta e um elemento solto que entregava os prospectos. Na falta de propaganda escrita era anunciado por via oral, rua a rua, através de elementos ciecentes: «Venham ao circo, o maior espectáculo do mundo!» A rapaziada, ávida de tudo que era festa, vinha logo a correr prostrar-se atrás dos saltimbancos, engrossando o número de acompanhantes de circunstância, cujos intuitos apelativos era chamar a atenção do povo com ruidoso alarido. «Atenção! Atenção! Palhaços, acrobatas, malabaristas e a grande vedeta, Asiul Airam. Esta noite, grande espectáculo, às nove e meia! Não percam...». Este nome pomposo, Asiul Airam era, nem mais nem menos, que Luísa Maria ao contrário. Os artistas de circo sempre gostaram muito de utilizar os nomes próprios ao contrário, para dar mais ênfase, parecendo estrangeirismos.

    Rebenta um foguete ao início da noite de Sábado, são nove horas da noite, a festa começa com o acender das luzes multicolores do arraial esplendoroso. É a parte da festa, juntamente com a procissão, que os Sarilhenses mais se orgulham. Ainda hoje é assim. Sai a banda filarmónica de Sarilhos Grandes, no ar pairam os cheiros e aromas, vindos das barracas das farturas, do torrão de Alicante, e também os cheiros do povo, dançando e cantando pelas ruas, as marchas do uga–uga, indiferentes aos problemas quotidianos que terão de enfrentar novamente, após o fim das festas. Nas barracas dos feirantes estava gente acabrunhada, melancólica, de ar triste e olhar mortiço, indiferentes ao bulício dos visitantes. Ali perto, ouviam-se as primeiras palavras, trazidas pelo vento, do apresentador do circo: «Senhoras e senhores, meninas e meninos, simpático público, o espectáculo vai começar!...». Nesse ano o circo já teve uma dimensão razoável, diferente, com um tenda grande e animais. A tenda montada fazia transparecer as sombras deslizantes dos corpos dos artistas, projectados para fora do pano, através das luzes interiores, com a exuberância de todos eles, desfilando em trajes literalmente cintilantes. A rapaziada presente, fora e dentro do recinto do circo, exultava ruidosamente com as tropelias dos palhaços e suas grandes gargalhadas que se ouviam cá fora, junto à esquina da igreja.

     O espectáculo já decorria, quando foi solicitado a colaboração de alguém do público. Muito solícito, o Orlindo ofereceu-se logo, ele que tinha aquele ar destemido, despreocupado e aventureiro, avançou para o meio do recinto e foi-lhe pedido que montasse um Camelo. O Orlindo não se fez rogado e avançou para cima do animal, cuja disposição, nessa noite, não estava para brincadeiras. O animal estava excitado e muito enervado, pelo que irrompeu por aí fora, rasgou o pano que fazia a cobertura do circo e fugiu, criando um clima de pânico nalgumas pessoas. Foi uma noite de pandemónio, naquele ano de 1960.

    «Jesus, credo! O que é isto filhos!?...Venham já para casa!» – clamava a Maria pelos filhos mais pequenos, que ainda brincavam na rua àquela hora, assustada com tamanho alarido provocado pelo animal assustado.

     -- Ai valha-nos nossa Senhora da Graça! O que será que está acontecer no circo?... -- perguntava a Ti Rosa por detrás da rede da porta de casa, sempre a bisbilhotar, toda assarapantada com o acontecimento.

      -- Foi o Camelo que entrou em «parafuso»!... – respondeu o Carlitos em jeito de aviso: fujam!... fujam!... Que o animal está doido!... O pânico instalara-se, fugindo cada um para seu lado. O espectáculo extravasou para as ruas tão depressa, que a notícia se espalhara pela aldeia como a água da maré na enchente. Para as crianças que ainda brincavam nas ruas àquela hora, no mês de Agosto, descuidadas e alheias às preocupações dos adultos, o susto fê-las correr para dentro de casa, para junto de suas mães. O pânico só acalmou quando o animal foi apaziguado e levado novamente para o circo

 

A PROCISSÃO

 

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Procissão. Anos 40.

 

      Domingo à tarde, dia 7, saiu a procissão da igreja com as figuras habituais: os Santos, os andores, o povo e a Santa padroeira da terra, Nossa Senhora da Graça. Esta, porém, era quase sempre levada por homens altos e robustos como mandava a tradição, para que a Santa tivesse melhor visibilidade junto da aglomeração de pessoas que a acompanhavam, lentamente, pelas ruas de Sarilhos, até à Borda do Mar, onde todos assistiam ao fogo de artifício em honra da Nª Sª da Graça, lançado de cima dos barcos.

      Normalmente, à época, eram os fragateiros a transportar a padroeira, por ser conhecida a crença religiosa de alguns homens do rio, relacionada com a vida dura e pouco proveitosa da labuta diária no rio Tejo. A padroeira já fora credora de alguns apelos feitos por estes, nos dias de aflição, em horas muito sombrias de apuro e dificuldades, nos momentos difíceis de grandes temporais, como foi o ciclone no dia 15 de Fevereiro de 1941, mas não impediu que três sarilhenses morressem afogados no rio: Manuel “Pança”, Américo Gomes e Hermínio José.

      De opa roxo vestidos, passada lenta, os homens carregam o andor de rua em rua, misturando-se com a multidão. Durante a passagem da procissão era costume fazerem oferendas à Santa. Normalmente pregavam-se (com alfinetes) notas e peças de ouro ao manto da Santa de acordo com a preferência devota de cada um, sendo que, no final da procissão, era a Nossa Senhora da Graça a santa que apresentava o maior número de oferendas pregadas ao seu manto azul. A propósito do destino dessas notas, os mais antigos contavam que um tal senhor padre que aqui esteve, anterior ao padre João Evangelista de Jesus, ter-se-á escapulido com um montão de notas retiradas do manta da santa, proveniente das ofertas do povo. É claro que o assunto foi abafado para não dar má imagem da igreja, e também porque vivíamos em ditadura. Também houve outra história relacionada com um cordão de ouro oferecido à santa, mas prefiro não dissertar sobre o assunto por desconhecer os pormenores. À passagem dos andores juntava-se sempre muita gente que, nos passeios ou às portas de suas casas, esperavam o cortejo religioso. Uns por verdadeira devoção, que a emoção e lágrimas traduziam, outros por mera curiosidade, alguns por culto.

      Os acordos da fanfarra dos bombeiros já são perceptíveis ao longe, aproximando-se da imagem da nossa Senhora da Graça, sempre esplendorosa nas suas vestes ornamentadas a ouro pelas mãos caprichosas das costureiras de Sarilhos Pequenos. Exclamações de admiração entre a multidão, sobretudo Sarilhenses, acotovelando-se junto às casas, sublinham a passagem transcendente: «É a Santa mais bonita que existe. Mais bonita e milagreira!...», proclamava um velhote, descarapuçado, com o boné nas mãos calejadas e trémulas, benzendo-se em sinal de respeito.

      Chegados à Borda do Mar, o fogo é lançado pelos fragateiros dentro das suas embarcações engalanadas a rigor e cuidadosamente preparadas para a ocasião. A multidão fica de olhos postos no ar, admirando toda a azáfama do acto, rendida ao ruído contínuo e ensurdecedor do rebentamento dos foguetes, cujas canas caíam ao rio, no sítio da Ponta D’Areia, junto ao Estaleiro Naval. Misturada com a multidão vai também a rapaziada traquina, à espera de outras solicitações maiores que os mobilizem para as brincadeiras seguintes.

      As festas são momentos em que se confundem luzes, cheiros, sabores, cores e sons num só. As festas não foram feitas para durar, mas a vida também não, daí a importância das memórias ficarem registadas, pelo menos enquanto duramos.

 Marcolino C. Fernandes (Escreve pela ortografia antiga)

 

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                                                                                    Comissão de festas

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A fazerem de músicos com os instrumentos musicais da charanga

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UM HOMEM SINGULAR

por marcolinofernandes, em 28.02.17

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É com imensa honra e enorme satisfação que, neste momento, utilizando a rede social facebook, venho fazer um agradecimento público e singelo a um homem singular, um homem de múltiplos amigos, um ser humano excepcional, um homem universal. É um agradecimento pessoal, mas também colectivo, sobretudo colectivo. Agradecimento pessoal, por ter apadrinhado a publicação do livro “Fragateiros do Tejo”. Agradecimento colectivo, por ser o grande impulsionador de um conjunto de iniciativas que visam homenagear e exaltar os antigos fragateiros do Tejo, divulgando, preservando e perpetuando memórias do rio. E fá-lo com entusiasmo, dedicação e espírito de fragateiro, através da Marinha do Tejo de que é fundador e elemento preponderante. Tem contribuído para a regeneração e dinamização dos barcos típicos do Tejo (botes, varinos, canoas e catraios), e ajudado a manter as boas tradições fluviais do rio Tejo.

 

Ao longo da vida todos vamos conhecendo muita gente. Pessoas com quem apenas nos cruzamos, e outras que queremos que permaneçam nas nossas vidas pelo que para nós representam, e pelo imenso prazer do seu convívio. Mas somente algumas dessas pessoas ficarão para sempre na nossa memória. Uma dessas pessoas é o professor Carvalho Rodrigues, uma figura humana cativante, alguém que eu admiro, que fez a diferença para mim.

 

Apesar de ter nascido numa aldeia ribeirinha, a vida proporcionou-me conhecer muita gente de diferentes culturas e nacionalidades. Todavia, nunca havia conhecido alguém com tantos amigos como o professor Carvalho Rodrigues, amigos no sentido literal da palavra.

 

O Homem é um ser tão efémero, mas, apesar dessa efemeridade, pode deixar marca indelével durante a sua existência, produzindo uma impressão real na memória e no coração dos amigos. E os amigos não podem deixar a vida passar sem honrar e valorizar as pessoas mais importantes que passaram pelas suas vidas. Porém, as palavras nem sempre são suficientes para expressar a gratidão e o respeito que temos para com algumas dessas pessoas que conhecemos durante a vida.

 

Todos nós temos virtudes e traços de personalidade, que muitos chamam defeitos, ninguém é perfeito. A perfeição é sempre enfadonha. Há pessoas desagradáveis apesar das suas qualidades e outras encantadoras apesar dos seus defeitos. Mas, em minha opinião, as pessoas não têm defeitos. Aliás, a palavra defeito não deveria ser usada em relação aos seres humanos. O que as pessoas têm, na verdade, são traços de personalidade que não agradam, não combinam e não se adaptam com os traços de personalidade de outras pessoas. O ser humano não é um produto, uma máquina ou um insumo material. Defeituoso é tudo aquilo que não funciona como deveria funcionar. Nós, seres humanos, não funcionamos, nós vivemos. Por isso, neste texto de agradecimento ao professor Carvalho Rodrigues, não dou muito ênfase aos tais traços de personalidade que todos temos, não vêm ao caso. A imperfeição é a causa necessária da variedade nos indivíduos da mesma espécie. O perfeito é sempre análogo e não admite diferenças por excesso ou por defeito.

 

Não tenho a pretensão de falar em nome de todos os antigos fragateiros, mas gosto de pensar que muitos deles, sobretudo os que já cá não estão, se sentiriam representados neste meu agradecimento. Falo em meu nome, eu próprio também um antigo fragateiro, e em nome do meu pai, dos meus avôs e restante família ligada ao rio Tejo.

 

Por mais verdadeiras e bonitas que possam ser as palavras usadas neste momento, nunca serão suficientes para expressar o nosso agradecimento ao professor Carvalho Rodrigues, a quem nós, carinhosamente, chamamos de “professor”.

 

Obrigado por tudo, professor! Obrigado pelo humanismo, generosidade e simplicidade. Que a sua vida permita continuar a contribuir para dignificar os antigos fragateiros, assim como os barcos tradicionais do rio Tejo e suas gentes. Bem-haja!

 

Marcolino Fernandes: Escreve pela ortografia antiga, como forma de protesto pela subserviência ao Brasil. Agora um facto é um fato, não é um acontecimento. Para ser um acontecimento talvez tenhamos que passar a chamar “terno” ao fato. E terno é simplesmente carinhoso.

 

Pequena nota biográfica. Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

 

Fernando Carvalho Rodrigues (Casal de Cinza, 28 de Janeiro de 1947) é um físico português, um cientista.

 

É licenciado em física na Universidade de Lisboa, e doutorado em engenharia electrónica pela Universidade de Liverpool.

 

Professor catedrático do Instituto Superior Técnico (1985), coordenador do laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial (1984) e director da Faculdade de Tecnologia da Universidade Independente (1995) em Lisboa, é conhecido como o «pai» do satélite português, sendo o responsável máximo pelo consórcio POSAT que constituiu e lançou o primeiro satélite português, a 26 de Setembro de 1993.

 

O professor Carvalho Rodrigues recebeu diversos prémios e condecorações, dos quais se destacam o Pfizer (1977), a comenda da Ordem Militar de Santiago da espada (1995) e doutor Honoris Causa (1995) pela Universidade da beira Interior.

 

É também autor de diversas obras publicadas em Portugal e nos estados Unidos, encarregou-se da direcção do Projecto Educativo DIDACTA, à frente de uma vasta equipa de especialistas, investigadores e pedagogos.

 

Também gosta de cantar, ironicamente pela semelhança fisionómica com o tenor Luciano Pavarotti.

 

O professor é um homem sempre bem-disposto, ri-se muito e todos os assuntos, por mais científicos e complexos que sejam, vão dar a uma piada ou a uma história anedótica. Quem o conhece sabe do que falo.

 

 O seu currículo é tão extenso, tem tanta obra feita e recebeu tantos prémios e condecorações, que fiz apenas uma súmula, o que importa escrever neste agradecimento ao Professor Carvalho Rodrigues?

 

 «Os loucos vão à procura de razões, os homens sensatos nem sequer tentam»

 (Carvalho Rodrigues)

 

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SARILHOS PEQUENOS – SINES – FUTEBOL – CONVÍVIO

por marcolinofernandes, em 07.10.14


Nas décadas de 1940/50/60, do século passado, as famílias Sarilhenses tinham agregados familiares numerosos, as proles chegaram mesmo a atingir 16 pessoas num só agregado. Devido às circunstâncias de vida da época, as brincadeiras dos rapazes tendiam sempre para jogar à bola. Daí a proliferação de jogadores que o clube foi apadrinhando ao longo dos anos. As equipas de futebol eram compostas, com algumas excepções, por jogadores nascidos na terra.

 

Assim, o futebol, através do clube 1º de Maio, levara as pessoas a viajarem para fora da terra por forma a acompanharem o clube aos diversos pontos do Distrito, através de passeios em excursões de camioneta, autenticas romarias às terras dos adversários com especial prazer à cidade de Sines.

 

Entre os adeptos Sarilhenses e os adeptos adversários nem sempre as coisas foram pacíficas. Às vezes as contendas chegavam a vias de facto. A cultura da tolerância não era apanágio das claques rivais naqueles tempos. O amor à camisola era, muitas das vezes, levado aos extremos aquando no calor da disputa pelos pontos. As rivalidades eram exacerbadas até ao limite, quando se tratava dos jogos disputados entre o 1º de Maio, Moita, Quinta do Anjo, Alcochete, Amora Arrentela e Sesimbra, sobretudo estes, gerando sempre um ambiente muito tenso: antes, durante e depois dos jogos. Não eram raras as vezes em que haviam tumultos e agressões físicas. Houve até um caso, bem caricato, em que um adepto do 1º de Maio, no calor de uma contenda, entre as claques do 1º de Maio e do Amora (creio), num jogo realizado em Sarilhos Pequenos, em fins da década de 1950, agrediu violenta e inadvertidamente um individuo natural do Chão Duro, também adepto do 1º de Maio, pensando tratar-se de um forasteiro apoiante do clube visitante, o Amora. O engano desta desmesurada violência clubista levou a que o agredido ficasse com alguns dentes partidos. O agressor, após a verificação do erro cometido, ter-se-á penitenciado perante o molestado e atónito agredido, que mais não pode fazer senão aceitar as desculpas. Consta que a pessoa que perpetrou a agressão, depois desse dia, nunca mais quis assistir a jogos de futebol.

Todavia, e apesar disso, foi nesses tempos difíceis que se desenvolveu uma grande amizade, diria mesmo fraternal, entre a população de Sarilhos e a população de Sines, por via dos clubes de futebol. Os encontros entre os dois clubes destacaram-se sempre pela positiva, por causa da empatia criada entre jogadores, dirigentes e populações. Criou-se e fortaleceu-se uma estima frutuosa e duradoura entre ambas as terras, que fugia aos padrões da época no que diz respeito ao relacionamento das claques e suas rivalidades. Essa grande amizade esteve sempre patente aquando as equipas de Sines e de Sarilhos se encontravam por força do calendário desportivo. As quezílias, os tumultos e as desordens, deram lugar ao bom senso, à tolerância e à amizade recíproca, tendo por base o futebol.

 

É um facto indesmentível, que já não era só uma amizade entre dois clubes, era mais do que isso, passou a ser entre as pessoas que se visitavam mutuamente. Convidavam-se e conviviam entre si, cordial e respeitosamente. As casas e a comida eram franqueadas de parte a parte, perpetuando-se pelos anos seguintes, através das várias gerações. Mais do que ir ao futebol, acompanhar o clube a Sines, os Sarilhenses iam visitar amigos, fortalecer amizades e promover convívios. O resultado dos jogos era o que menos contava. O importante era o respeito mútuo que se criara entre as pessoas das duas povoações.

 

Com o passar dos anos e o desaparecimento dessas gerações, esse convívio tradicional não existe mais. As circunstâncias da vida mudaram e os costumes também. E até o clube de futebol 1º de Maio F.C. S. também já não existe mais em termos de futebol, acabou ingloriamente. Os motivos não sei, pelo que não vou dissertar sobre o assunto. Faz muita impressão ver um clube centenário (faltam nove meses para fazer cem anos) acabar assim... E digo isto, não por ser um adepto de futebol, que não sou, nunca fui, respeito que é, mas por ser apenas um Sarilhense que gosta de preservar o património colectivo, e o clube é um património que faz parte da memória colectiva dos Sarilhenses, tal como os barcos, as pessoas e os usos e costumes. Fica a esperança de ver as instalações do clube servir, pelo menos, para benefício da população, para o bem comum.

Mulheres de Sines em pose com jogadores Sarilhenses

Estas fotografias com os jogadores posando intercalados, são uma prova de amizade recíproca que existia naqueles tempos. Não era um procedimento habitual. Aliás, creio até, que só aconteceu com estes dois clubes: posar assim, desta forma única, irmanados de um espírito de camaradagem e respeito mútuo. Estou a referir-me apenas a clubes que jogaram com o 1º de Maio. Mas não tenhamos ilusões, não existem claques virtuosas. Nós, Sarilhenses, também tivemos os nossos “pecados” em termos de rivalidades clubistas. Os adeptos foram capazes do melhor, mas também do pior.

Passados mais de 50 anos, os aspectos relacionados com as claques do futebol pouco ou nada mudaram. Talvez até tenham regredido. A incivilidade dos actuais adeptos (leia-se claques organizadas) não desmerece em nada dos seus antecessores dos anos 50. Penso até que a violência no futebol é agora muito mais exacerbada e perigosa, ao contrário desses tempos dos murros, dos pontapés e, quanto muito, do orgulho ferido.

 Marcolino (Escrevo pela ortografia antiga e não pela nova ortografia imposta pelo Brasil)

P.S. - As fotos aqui expostas não têm a mesma nitidez das fotos originais.

 

 

 

 

 

 

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AS MULHERES DA MINHA VIDA


Aprendi a dar os primeiros passos com duas mulheres, minha mãe e minha avó. Com a partida das duas, fiquei ligado a outras duas, minha mulher e minha filha. Assim, são quatro as mulheres da minha vida, mas se incluir a minha sogra e a avó materna da minha mulher, com quem tive um bom relacionamento, então, já somam seis mulheres. Em cada nova etapa da minha vida, uma nova descoberta. Sempre tive, e tenho, uma mão amiga de uma mulher para me aconselhar.


Nós, os homens, não seriamos absolutamente nada sem as mulheres. Elas são fontes inesgotáveis de inspiração e sabedoria. São obras da natureza que encantam os nossos caminhos. Com nossa sensibilidade masculina, tosca e orgulhosa, costumamos ver no sexo oposto apenas um ser mais fraco. Porém, aquela ideia arcaica, religiosa, de Adão e Eva, onde a mulher foi feita de um pedaço de carne de segunda categoria, apenas para satisfazer o homem, porque o chamado “sexo forte” se encontrava muito triste e sozinho no “paraíso” em que vivia, há muito tempo que passou à história. Caindo assim por terra a hipócrita auto concepção masculina de se julgar superior. Hoje já não há mais espaço para tal pretensão. As mulheres estão presentes nas mais diversas áreas na vida das sociedades.


Aqueles que teimam em fazer uma depreciação gratuita das mulheres a coberto do seu status quo machista, e que não reflectem sobre a sua própria existência de vida e sobre a forma como vieram ao mundo, através do esforço e tenacidade dessas mesmas mulheres – só elas geram vida – são uns seres mesquinhos e ignorantes, encolhidos no seu espaço mental obtuso e portadores de um QI (quociente de inteligência) de uma galinha.


Às mulheres deixo aqui os meus aplausos, pela força, pela raça, pela beleza, pela busca constante de seus direitos, pela coragem, pelo desprendimento e pelo dom de serem geradoras de vidas.
Marcolino (Escreve pela ortografia antiga)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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NO TEMPO EM QUE SE BRINCAVA (2)

por marcolinofernandes, em 05.02.14

 

(QUEM TEM UM AMIGO PRODIGIOSO TEM TUDO)

 

    Naquele dia o nosso grupo, o grupo da Margateira, era constituído por meia dúzia de rapazes, que decidiram ir nadar logo pela manhã. Tínhamos idades entre os sete e nove anos e vivíamos em 1958 ou 1959, já não me lembro exactamente o ano, mas isso é apenas um preciosismo sem importância nesta pequena história passada em Sarilhos Pequenos.

   Os dias longos de um verão solarengo, só refrescados de quando em vez pela brisa do vento à barra, vento Oeste, levava-nos a confluir para a “Borda do Mar” a fim de darmos largas às nossas diabruras. Éramos impelidospela vivência colectiva, pela liberdade da meninice e pela vadiação salutar: quais borboletas voadoras…

   O grupo era liderado pelo A.M.G., rapaz moreno, cabelo liso, penteado para o lado com uma «rafa» a cair sobre a testa, porte atlético a condizer e multifacetado nas várias vertentes da vida: bom jogador de futebol; bom nadador; bom dançarino; bom conversador e outras façanhas que tais... A sua melhor qualidade, digo eu, era a generosidade, apesar de algumas pessoas da época, sobretudo as mais idosas, verem nele muita irreverência. Esqueciam-se, ou não sabiam, que é próprio dos adolescentes e dos jovens serem irreverentes. Para bem comportadinhos e obedientes já bastavam os meninos da mocidade portuguesa (organização fascista da juventude) que o regime cultivava! Mas o A.M.G. não era desses... era daqueles “antes quebrar, que torcer”. Como seu companheiro de infância e amigo, o que eu vi nele foi CARISMA. Tinha qualidades e personalidade das pessoas que se destacam e exercem espontaneamente atitudes de líderes, contagiando os que lhes estão próximos. Aqueles que têm carisma, como era o caso dele, são estimados, são ouvidos, despertam o interesse dos outros e geralmente são simpáticos e contagiantes. São pessoas que têm a habilidade de cativar absolutamente toda a gente? Não importa a sua aparência ou condição social, são virtuosos que pelo seu carácter se tornam o centro das atenções. É um tipo de magnetismo que inspira confiança e adoração. Assim como a beleza, a posição social e a sorte, também o carisma pode abrir muitas portas na vida. Contudo, são qualidades difíceis de obter, não é qualquer um que pode ter carisma.

    O A.M.G. não era muito dado a disciplinas rígidas, era um rebelde por natureza. Rebelde, no bom sentido da palavra, um espírito livre e brincalhão. Era visto por alguns adultos como um malandrete, um «gozão», (leia-se, trocista) devido à sua maneira de ser, irrequieto e dominador. Os que lidavam com ele de perto, sabiam que tinha um coração do tamanho do mundo.. Condoía-se, muitas das vezes, com os indigentes de ocasião que apareciam lá na Terra, em meados dos anos 50.

    A azáfama da brincadeira predominava e o convite surge por uma voz terminante vinda do meio do grupo:  

       É pá, malta, vamos p’ra “Borda do Mar” ao banho!... – sugere o A.M.G. em tom convidativo.

       “Bora”!... Vamos nadar e atravessar a carreira para o outro lado, para a Banda do Arço. - Respondeu prontamente o Chico Gordo.

       Eu não tenho calções de banho! - avisa o Fisgas, muito aflito com a situação.

       Não te rales, vamos mesmo em cuecas. Eu também vou... – responde o  Guedelhas.

       É que eu só tenho estes calções de andar por aí, não tenho cuecas! – repete  o Fisgas, envergonhado.

       Vamos mas é todos nus, pá! – gritava lá de trás o Mansinho em tom sarcástico e  muito matreiro, como sempre. O Fisgas, que era muito tímido, estava pouco à vontade e ficou corado, com um vermelhão roborizado na face. Vai daí, olhou para os lados, um pouco encabulado, colocando as mãos nos calções, a contra gosto, fazendo o gesto para se despir, mas, por momentos, hesitou.

       E se alguém nos rouba a roupa? – replicou.

       Bem... vamos todos nus para casa, tal qual viemos ao mundo! - resposta pronta do Mansinho, que em tom jocoso ainda disse:  

       Vá lá ver, pá!... Tens vergonha ó quê!?... Não me digas que já «pintas»!?...

A galhofa e a risada contagiaram o grupo, e para o pôr à prova a malandragem despiu-se toda, levando-o também por arrastamento a fazer o mesmo. O Fisgas, a muito custo, olhou à sua volta, para um lado e para outro, a ver se vinha alguém conhecido e, devagarinho, lá foi tirando a roupa. Depois de estar em pelota, levou as duas mãos em forma de concha às partes, numa atitude de timidez.

       Eh pá! t’ás a ver!?... Não custa nada!... B’ora! Vem daí! Vamos à «roca»!... (leia-se, roubar uvas à vinha do Sr. António Carlos) – recorda o Mansinho. Para trás ficara o Guedelhas, retardatário como sempre, entretido a atirar pedras achatadas ao rio, fazendo-as deslizar por cima da água, aos cavalinhos.

Entretanto, outro grupo aproximara-se. Era a «Malta lá de Cima», que vinha em fila Indiana pelos muros do Castanheiro, pontapeando-se e rasteirando-se uns aos outros, numa correria desenfreada a caminho da “Borda do Mar”. Na ânsia de ver quem chegava primeiro à água, valia tudo: empurrões, rasteiras, topadas, puxões e trambolhões, que, por vezes, resultavam em esfoladelas da pele, deixando à vista as mazelas, logo ali desinfectadas, com muito ardor, ao entrarem na água salgada.

       Ai!!! Eh pá! Cabrão! Pisaste-me de propósito!

       Eu!? Vai-te lixar!... Tu é que te puseste à minha frente! – durante a corrida, há uma voz que se faz ouvir alto e bom som:

       Quem for o último a chegar é maricas!...

    O «Gordinho», corria desajeitado, bandeando-se todo, com as banhas da barriga aos pulos, deixando-se ficar para trás. A vontade de os acompanhar era boa, mas o seu corpo havia-o traído. Mesmo assim, não foi o último a chegar, o último foi o Bibos que se estatelara no chão, passaram-lhe uma rasteira. Vai daí, todo empoeirado a queixar-se duma perna, vociferou:

       Malandros de merda! «Voceses» empurraram-me! Assim não vale! Fizeram-me cair e aleijaram-me!

       Ah! Ah! Ah! Ainda cheguei à tua frente! – regozijava-se o Gordinho.

       Cala-te Gordo! Tu nem podes com o cu! Se não me tivessem empurrado ficavas a milhas...

    Juntos éramos todos iguais e todos frescos! A vivência colectiva proporcionava-nos a experiência do contacto com a natureza e o conhecimento das relações humanas. Apreendemos pequenos truques sobre a vida, que foram muito úteis na nossa existência adulta.

    Depois de tanta correria e muita chacota, todos se atiraram à água para irem à «roca»: colher uvas em vinha alheia, pela calada, atravessando a carreira a nado para a outra margem do rio, a Banda do Arço. Era um ritual de todos os verões, cuja tradição o tempo se encarregara de passar de geração em geração. Os mais afoitos atiravam-se primeiro e depois seguiam-se uns atrás dos outros, esbracejando e afastando-se num ápice, ávidos de chegar ao outro lado onde estavam as belas uvas. No regresso trazíamos os cachos de uvas dependurados nas bocas, fisgados pelos dentes, tantos quantos pudéssemos acarretar, dependia da destreza e valentia de cada um, deixando as mãos livres para nadar. Nem todos tinham a coragem e o atrevimento de cometer tal proeza, só conseguida pelos mais destemidos. Atravessar a carreira já era uma vitória pessoal para quem conseguisse nadar tal distância sem tomar pé, mas, mais difícil ainda, era nadar com a boca cheia de uvas e respirar só pelo nariz. Os mais novos e os menos resistentes desistiam a meio do caminho, temendo perder as forças. Casos de afogamento eram raros, embora houvesse conhecimento de alguns como o Joaquim “Catimâncias” (rapaz de família pobre que veio morar para o “Bairro das tesas”, em Sarilhos Pequenos), que ali perdera a vida. Dizia-se que não sabia nadar, que fora traído pela corrente da caldeira do moinho. Mas também se dizia que fora suicídio, provocado pela pobreza que vivia em sua casa.

    De quando em vez havia uns sustos valentes e alguns «pirolitos» engolidos. O problema era a corrente de água vinda da caldeira do moinho de maré, quando abria as comportas e esvaziava na vazante, puxando os mais incautos e de pouca resistência. Havia sempre aqueles que, por inexperiência ou por desconhecimento das manhas do rio, cometiam erros fatais. Por vezes alguns não calculavam bem as distâncias para dosearem o seu esforço e, na ânsia de seguir os outros mais rápidos e melhores nadadores, cansavam-se. Foi precisamente o caso do M.C.F. naquele dia, quase fatídico, dos anos cinquenta: Atirámo-nos todos ao rio e começámos a nadar Crawl, à braçada – como nós dizíamos – para nos distanciarmos da margem rapidamente. O M.C.F., que era o mais pequeno, atrasou-se um pouco e nadou com braçada rápida para tentar chegar-se aos outros, mas depressa se cansou e perdeu as forças, ficando à mercê da corrente e engolindo vários «pirolitos» que contribuíram para a sua agonia, mal se contendo ao cimo da água. Com movimentos lentos e sem nexo virou-se de costas, tentando fazer de homem morto para se manter à tona de água. Terá sido isso que lhe valera até chegar o seu amigo, o A.M.G., o tal rapaz prodígio e de bom carácter, que era também um exímio nadador. Ele apercebera-se que o seu amigo estava em dificuldades e voltou atrás para o socorrer, segurando-o com firmeza pela nuca para não se afogar. Entretanto, o alarme tinha sido dado por alguém em terra, que se apercebera da situação, chamando a atenção dos homens do estaleiro naval, que de imediato pegaram num pequeno bote e foram em seu auxílio, culminado com o resgato bem sucedido. O A.M.G. só largou o amigo após a chegada dos homens do estaleiro naval. Foram minutos de desespero que culminaram com o salvamento do M.C.F., que não ganhou para o susto. A sua ingenuidade de criança, subestimando as leis do rio, ia-lhe sendo fatal, não fora a atitude corajosa e louvável do A.M.G. Depois de se recompor do susto o M.C.F. regressou sozinho a casa, pela rua da Margateira, triste, cabisbaixo e com orgulho ferido. Os outros continuaram as suas brincadeiras, afinal de contas o perigo já tinha passado e não era a primeira vez que o rio pregara partidas daquelas.

    A atitude é uma pequena coisa que faz uma grande diferença. E é por isso que uns têm nobreza de carácter e outros não. Não quero com isto dizer, que os restantes membros do grupo não sejam hoje, também eles, homens distintos. Porém, naquele dia, o A.M.G. foi o único que voltou a trás para socorrer o amigo. Certamente não foi um acaso, foi obra do tal carácter dele de que já falei, da sua generosidade, companheirismo, amizade, lealdade e solidariedade. Por tudo isto é que eu digo que ele tinha muito CARISMA. Há um aforismo que diz: “Um irmão pode não ser um amigo, mas um verdadeiro amigo será sempre um irmão. E o A.M.G. foi o irmão que eu escolhi. É um sentimento que perdura para toda a vida.

 

Marcolino (Escrevo pela ortografia antiga)

 

Notas: 1 - Os verdadeiros nomes dos intervenientes nesta pequena história são substituídos por personagens fictícias para não melindrar ninguém.

 

2 - Dos companheiros de infância com quem brincámos naquele tempo, alguns já partiram: O “31”, que se chamava Fernando, filho da Ti Maria Orvalha, faleceu ainda criança, com o tétano, ao espetar um prego ferrugento, na “Lameira”; o Carlos do “Luís do Barreiro”, que saiu de Sarilhos Pequenos adolescente, também já faleceu; o “Chico da Maria”, outro bom amigo, faleceu há pouco tempo no país de acolhimento onde era emigrante; o “Chico da Loca” também já faleceu; o Casaca (António José), do grupo da “Trás da Taipa”, também faleceu faz tempo; o João Guilherme morreu na guerra colonial, onde aliás o “Zé Fanha” (também falecido) perdeu a perna e o A.M.G. foi feito prisioneiro de guerra, mas felizmente regressou são e salvo. Podia mencionar outros um pouco mais velhos que nós 2 ou 3 anos, que também já faleceram, e que ainda os apanhámos nas brincadeiras, mas para não correr o risco de me esquecer de algum, sempre desagradável, termino aqui.

 

 

 

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OS MEDOS DE ANTIGAMENTE (2ª PARTE)

por marcolinofernandes, em 04.01.14

 

 

Ainda a propósito dos medos de antigamente, conto-vos uma pequena história familiar passada no início da década de 1970, em nossa casa, em Sarilhos Pequenos. A casa onde nós vivíamos era da minha avó, cujo marido falecera muito novo, deixando-a com cinco filhos pequenos, o mais novo com 3 anos e minha mãe com seis. Razão pela qual se tornou ela mesma a “chefe de família”, como se dizia na altura, ganhando o sustento dela e dos filhos através de um trabalho contínuo e muito árduo, no rio Tejo, apanhando lameginhas (amêijoas) durante mais de 50 anos. Apesar de ela ser franzina (era rija como o ferro), e da vida dura que sempre levara, viveu muito para além dos 90 anos, muito embora na última fase da sua vida já mostrasse alguma falta de discernimento que a levara a cometer pequenos delírios. Um desses pequenos delírios foi uma conversa imaginária que ela mantinha, quase todas as noites, com sua amiga e comadre Henriqueta do “Manso”, já falecida na altura. Estas conversas fictícias só existiram na cabecinha já muito desgastada da minha avó querida, mas que teve repercussões nas mentes mais crédulas de algumas pessoas da terra, incluindo familiares. Havia quem acreditasse que a alma da Ti Henriqueta aparecia à minha avó, associando feitiçarias e coisas do género a este seu comportamento patológico. E a coisa já adquirira tais proporções, que até já havia quem falasse em casa assombrada. Mas, na verdade, era apenas uma doença natural de quem viveu muito e deu tudo o que tinha para ajudar os seus, com sacrifício e muito sofrimento. Quebrou já muito tarde, perto dos oitenta anos. Naquele tempo não havia depressões, nem sequer esta palavra era conhecida, mas as mazelas estavam lá e a vida foi implacável.

 

 Para refutar os pensamentos e opiniões das pessoas que julgaram ver no comportamento da minha avó coisas do sobrenatural, o meu irmão mais velho (éramos, ainda somos, quatro irmãos) teve a brilhante ideia de arranjar uns quatro a cinco metros daquelas mangueiras plastificadas, estreitas, que se encaixam nas torneiras da água, e estendemos a mangueira do nosso quarto ao quarto da minha avó, sempre rente ao chão, subtilmente, até que uma das pontas da dita mangueira se enfiasse debaixo da cama dela. A outra ponta da mangueira ficava no nosso quarto para podermos falar através da mesma e, assim, comunicarmos com ela sem sermos vistos. Foi por volta das 22 horas, mais ou menos, quando tudo já estava preparado, que o meu irmão pôs a boca na ponta da mangueira, fez uma voz aguda, feminina, e começou a falar para a nossa avó, fazendo-se passar pela sua amiga falecida, a Ti Henriqueta do “Manso”. A sua voz saía na outra ponta da mangueira colocada debaixo da sua cama. Durante uns cinco minutos mantivemos com ela uma conversa de circunstância à medida das suas capacidades de entendimento, falando coisas dos tempos em que ambas apanhavam lameginhas. O diálogo começou assim: «Boa noite, “Estrudes”, sou eu a “Requeta”!» foram as primeiras palavras do meu irmão. «Ah! És tu “Requeta”?» respondeu a minha avó. «Sim, “Estrudes”, sou eu, venho visitar-te mais uma vez...» simulou o meu irmão. Naquele tempo, em Sarilhos Pequenos, até no falar éramos poupados, ao invés de se dizer os nomes completos das pessoas e das coisas, “comia-se” algumas letras para simplificar. Por exemplo: Henriqueta (Requeta); Gertrudes (Estrudes); Maria José (Marizé); Teodora (Tidora); Brígida (Brisa); Felizarda (Fezarda); Bibiana (Biana); António (Tonho); José (Zé); Francisco (Chico) e assim sucessivamente… A páginas tantas decidimos incluir naquele diálogo uma sugestão que nós sabíamos de antemão que ia deitar por terra todas essas ideias do sobrenatural. Também sabíamos que a nossa avó tinha uma opinião firme, apesar da sua demência, sobre o seu legado, a sua casa, que sempre dissera ser para deixar aos cinco filhos, em partes iguais. Quando era questionada sobre o assunto, dizia sempre que todos eram filhos dela. Não admitia que uma parte da casa fosse legada à minha mãe, que sempre vivera com ela, e que cuidou dela até à sua morte (morte de minha mãe, que partiu primeiro). Naquele tempo não havia a moda dos lares, nem lares nem dinheiro para lares. Assim, quando faleceu fez-se as partilhas e a casa foi dividida por todos os herdeiros em partes iguais, tal como ela desejara. 

 

 Mas voltando ao diálogo, entretanto, no meio da conversa, o meu irmão faz a seguinte sugestão em nome da sua amiga falecida. «Olha lá, “Estrudes”, deves fazer uma parte da casa à tua filha, coitada!» ela respondeu rápido e grosso à “alma do outro mundo”. «Olha! Vai bardamerda! Para vires cá com essas conversas, mais vale não vires…» E assim, desta maneira arrebatada, ficou clarificado que as almas do outro mundo estavam só na cabecinha muito cansada da minha avó, aliás, como nós, netos, bem alertáramos. Nesse dia divertimo-nos muito com a situação, mas, após a brincadeira, fomos ao quarto da nossa avó, carinhosamente, como que pedindo desculpa pela pequena maldade que acabáramos de fazer. Gostávamos muito da nossa avó. Nós, os dois mais velhos, acompanhamo-la muitas vezes nas suas incursões pelos campos do Alto Estanqueiro e Rio Frio, vendendo e trocando amêijoas por produtos agrícolas. Fazíamos o trajecto a pé: Sarilhos Pequenos – Alto Estanqueiro – Rio Frio, ida e volta. Um prato de amêijoas custava 10 tostões e um pires, que era mais pequeno, custava 5 tostões. No fim não trazíamos quase dinheiro nenhum, mas vínhamos carregados de frutas, hortaliças e tubérculos: Era muito peso para uma mulher idosa e uma grande experiência de vida para uma criança. 

 

 A minha avó tinha 22 netos e conhecia todos. Todavia, quase no fim da vida, já tinha dificuldade em reconhecer alguns e trocava os nomes, mesmo os nossos nomes, que sempre vivêramos com ela na mesma casa onde nascemos.

 

 Já não se fazem avós como antigamente.

 

 As avós de antigamente transportam-nos para momentos inesquecíveis vivenciados em tempos ásperos. Eram lindas, enrugadas (bem sei que a minha avó não tinha uma beleza exterior), com batas, aventais, ou vestidos estampados. No caso da minha avó, que foi uma viúva precoce, nunca a vi de outra maneira que não fosse vestida de preto. Elas viveram numa época de estereótipos e estigmas muito acentuados, carregadas de roupa preta até morrer e sempre viúvas até ao fim da vida. Eram avós batalhadoras, desprovidas de preguiça, rainhas do lar e parideiras. A profissão das avós de antigamente era casar. As avós de ontem guardavam no olhar e no corpo as marcas de toda uma vida. Guardavam em si uma infinidade de conhecimentos que nos transmitiram, foi com eles que aprendemos. Elas aprenderam a lidar com as "feridas" da vida de uma forma admirável. Devolver-lhes o amor é o mínimo que podemos fazer. Tinha tanto para dizer que me faltam as palavras...

 

 Marcolino (Escreve pela ortografia antiga)

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A IDENTIDADE SARILHENSE

por marcolinofernandes, em 29.12.13

                                                                                   Contemplação

nº 38.jpg

                           Pintura do autor. Largo 5 de Outubro, Sarilhos Pequenos, 1949. Junto à "Bomba" (Chafariz) pode ver-se o

                           coreto de madeira, desmontável, que foi utilizado pelas festas.

 

Se a nossa infância foi vivida com muitas dificuldades e carências, não foi, todavia, uma infância infeliz! Havia o apoio constante da nossa mãe e da nossa avó que nos acarinhavam. Além disso, tínhamos um espaço imenso e um ar puríssimo: o rio para a gente se banhar; os barcos para nos contemplar; o campo, os pinhais, as quintas e as azinhagas, para vaguear e as ruas (sem carros) para brincar. Até posso afirmar, peremptoriamente, sem ser um paradoxo, nem o exaltar das privações, que tive muita sorte por ter tido uma infância com muitas dificuldades e carências, pois foram essas dificuldades e carências que fizeram de mim a pessoa que sou hoje.

 

Nunca conseguiremos despegar da criança que fomos, ela continuará sempre presente no nosso corpo, até ao fim da vida, presa ao nosso imaginário infantil. De vez em quando liberta-se para nos lembrar quem somos, porque a vida é a infância da imortalidade. Felizes dos que não perderam a candura de sua infância e carregam com eles o espírito dessa mesma infância. A lembrança da infância é o único sonho real que nos resta na fase madura da vida, os demais são meras utopias.

 

Quem viveu intensamente a infância como nós vivemos, em Sarilhos Pequenos, numa época em que a vivência era colectiva, décadas de 1950 e 1960, sentir-se-á indubitavelmente marcado para sempre. Quer queiramos ou não, nós regressamos sempre às origens. Por isso é muito natural que, de quando em vez, as nossas reminiscências despertem para essa fase da vida que nós vivemos nesta aldeia ribeirinha, um pequeno paraíso à beira mar. Poder-se-á dizer que estou a exagerar ao utilizar a palavra paraíso para descrever a minha terra, mas não me fica mal utilizar este substantivo. A palavra paraíso tem uma conotação religiosa "designação cristã do Jardim do Éden", mas também tem uma designação comum: "um lugar utópico onde se vive harmonicamente e sem conflitos". Eu refiro-me à pacatez da terra e à qualidade de vida ambiental que ainda se vão mantendo em Sarilhos Pequenos, por enquanto?... É claro que aqui, como em todo o lado, também existem conflitos, porque a vida é feita de conflitos e entendimentos. Mas aqui a vida ainda flui sem pressas: podemos estar junto ao rio (ou navegar nele) e observarmos as várias espécies de aves marinhas, incluindo as aves de arribação como os flamingos; podemos apreciar as regatas dos barcos típicos (catraios) pelo verão; podemos caminhar pelos pinhais e depararmo-nos com várias espécies de fauna e flora; podemos observar sítios onde a natureza ainda continua inalterada; podemos fazer caminhadas pelas zonas circundantes, sempre em ambiente natural; enfim, mesmo sem os grandes laranjais das quintas do Esteiro Furado e do Mocho, e sem a movimentação de antigamente em que barcos e homens davam outra vida à aldeia, Sarilhos Pequenos continua sendo um lugar de excepção.

 

Os que aqui nasceram e cresceram - e também os que aqui viveram, sarilhenses de coração, apesar de serem oriundos de outras terras, alguns casados, ou casadas, com sarilhenses - ficaram indelevelmente ligados por laços de convivência colectiva, cuja característica única (familiaridade) é apanágio das pequenas terras. Em Sarilhos Pequenos houve sempre um ambiente familiar em todas as épocas da vida da povoação, transversal a todas as gerações. Não é por acaso que ainda hoje se houve dizer, com alguma ironia, às vezes maliciosa, que em Sarilhos Pequenos quase todos são primos. Tirando o lado depreciativo, sarcástico, com que alguns fazem esta afirmação, convenhamos que é uma realidade factual indesmentível. Somos, de facto, muito próximos uns dos outros. A pequenez da terra e os matrimónios contraídos entre elementos das várias famílias, ao longo de várias gerações, resultaram num grau de parentesco comum a quase toda a população. E quando assim não é, o que é raro, temos sempre a sensação, quando encontramos alguém de Sarilhos Pequenos, de estarmos perante um familiar. É um sentimento comum a quase todos os Sarilhenses, sobretudo às gerações mais antigas. A circunstância de termos nascido numa aldeia pequena, em tempo de privações, levou-nos a fortalecer esses laços de vivência colectiva que se verificara à época. As pessoas tendiam a juntar-se e a conviver numa vida social muito intensa, todos se conheciam: sabíamos os nomes de uns e de outros, os seus percursos pessoais, os apelidos, as alcunhas, as moradas, as famílias, e também os infortúnios e as exultações de cada um. Assim, não admira que nos imputem esse vínculo de parentesco. Nós não enjeitamos essa condição, porque, afinal, todos somos filhos da terra em que nascemos e vivemos. E nós gostámos de ter nascido aqui e vivido aqui, mesmo os sarilhenses adotados, os que escolheram viver aqui.  digo-o sem chauvinismos nem revivalismos desmedidos. Poder-se-á até dizer, em palavras simples, que a nossa terra, por mais pequena que seja, tem sempre a grandeza do mundo.

 

Marcolino C.Fernabdes (Escrevo pela ortografia antiga)

 

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OS BAILES DE ANTIGAMENTE

por marcolinofernandes, em 27.12.13

Sem título-2.jpg   Sarilhos Pequenos, década de 1960.

                                                             

OS BAILES DE ANTIGAMENTE

 

Os bailes dos anos 50 e 60, em Sarilhos Pequenos, realizavam-se aos fins-de-semana, na sede do 1º de Maio Futebol Clube, única colectividade da aldeia, que ficava na rua Teófilo de Braga, em frente à cantina escolar. Outro local da aldeia onde também se realizaram alguns bailes, esporadicamente, ao ar livre, em meados dos anos 50, foi num espaço que existiu em frente da taberna do “Lambadas” (sítio do actual mercado), onde também se efectuaram cegadas e jogos do pau. O referido espaço era engalanado com ramos de palmeiras e papéis coloridos recortados e colocados a uma altura apropriada para dar mais brilho ao local. Mas foi a sede do clube o grande palco dos bailes. Jovens e seniores transpiravam de alegria, depois de uma semana de trabalho árduo, dançando ao som dos conjuntos musicais. Todos se deleitavam com o convívio nos bailes, pelos contactos voluptuosos entre rapazes e raparigas que os mesmos propiciavam quando a dança começava.

 

Os bailes eram aguardados com grande ansiedade. Todos queriam a chegada desse dia para sentirem as raparigas nos braços. Alguns pretendiam recomeçarem contactos amorosos deixados de bailes anteriores, onde o amor por vezes surgia, tornando a vida mais bonita, mais sonhadora, mais romântica, contrastando com as condições de vida do dia-a-dia. O mesmo se passava com as raparigas que também ansiavam pelos bailes, talvez mais ainda que os rapazes, porque estavam mais limitadas nas suas saídas da aldeia. Para elas os bailes também eram um escape para saírem da rotina da vida familiar, das tarefas domésticas, aprendizes de costura e mais tarde em fabricas. Até chegou a haver cursos de costura no palácio-asilo (actual lar). As mulheres foram sempre discriminadas em todos os aspectos da vida. A ditadura  reservou-lhes sempre um lugar menor na sociedade, que a ignorância, a ilitracia e o atraso evolacional tratava de manter. Mas as raparigas dos anos 60, infuênciadas pelos novos ventos de mudança, romperam com todas essas barreiras sociais. O aparecimento da minissaia foi o rasgar dessas mordaças, deixando as velhas ideias e as velhas pessoas (velhas de espirito) da época em estado de choque. A partir daí tudo mudou, mas as palavras de Saramago ainda fazem sentido, hoje: "Para começar, gosto das mulheres. Acho que elas são mais fortes, mais sensíveis e que têm mais bom senso que os homens. Nem todas as mulheres do mundo são assim, mas digamos que é mais fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no género masculino. Todos os poderes políticos, económicos, militares são assunto de homens. Durante séculos, a mulher teve de pedir autorização ao seu marido ou ao seu pai para fazer fosse o que fosse. Como é que pudemos viver assim tanto tempo condenando metade da humanidade à subordinação e à humilhação?"

 

Sem tícostura - Cópia.jpg

                               Principio da década de 1960. Curso de costura no Palácio (Asilo). Na imagem: Maria Gertrudes,

                               Maria Augusta, Graça, Edite, Maria da Conceição, Angelina, Maria Manuela,  Elena e "Minha"

 

Os momentos dos bailes eram dias e noites de magia, de sonhos e fantasias, mas também de folia e convívio. Alguns amores começados nos bailes viriam a resultar em casamentos duráveis, outros nem tanto assim, uns quantos até com rapazes de fora. Mas os rapazes sarilhenses, à semelhança da geração de seus pais, não viam com bons olhos a presença de outros jovens forasteiros, que entravam na disputa concorrencial pela procura de par para dançar. Mas houve sempre respeito e tolerância, apesar de dissimulada por olhares e gestos desaprovadores, mas inofensivos. Ainda assim, foram várias as raparigas que casaram com rapazes de fora (outras terras que não Sarilhos Pequenos) por causa do convívio dos bailes. Nos anos 60, numa fase de mudança revolucionária dos costumes e atitudes, influenciados pelos acontecimentos exteriores, sobretudo o Maio de 68, em França, os forasteiros tiveram até a primazia na preferência das raparigas para dançar ou namorar, chegando mesmo a ser moda namorar um rapaz de fora. Esta geração, dos anos sessenta, viria a ser precursora das mudanças que ocorreram posteriormente, revolucionando os costumes e mentalidades da época.

 

Alguns dos bailes que se realizaram nessa época tinham nome próprio, pela especificidade dos mesmos: O baile da pinha, o baile da Miss Primavera, o baile da cadeira, o baile do lenço, etc. Todos os bailes exigiam da parte dos dançantes uma competição saudável pela conquista dos primeiros lugares. Conheço uma rapariga desses tempos (ainda hoje é bonita) que foi rainha do baile no ano de 1968/69, recebendo a faixa de Miss Primavera, porque foi a mais requisitada e a vencedora do baile Primavera. Este baile consistia no maior número de senhas que as raparigas conseguiam receber dos rapazes. Assim, a rapariga que os rapazes mais procurassem para dançar, a mais solicitada, recebia de cada um deles uma senha. Quantas mais vezes e quantos mais rapazes interrompessem a dança da rapariga para mudar de par, mais senhas ela acumulava para ser a vencedora no final. Para ganhar este prémio as raparigas tinham de possuir algumas qualidades: boa dançarina, simplicidade, muita simpatia e beleza quanto baste. Esta rapariga que eu me refiro, tinha (ainda tem) todas estas qualidades.

 

Alguns costumes estavam bem enraizados, como a moda para o bufete (dedicada aos casados) aonde as raparigas solteiras se dirigiam, de acordo com as suas escolhas e preferências pessoais, a solicitar par para dançar. Era, aliás, a única situação em que as mulheres tomavam a iniciativa de convidar um par para dançar. Também havia o costume de, durante dança, os pares seram interceptados e convidados, de quando em vez, a fazerem uma pausa no meio da sala para lhes ser oferecido um cálice de aguardente e uma bolacha, em troca de uma pequena contribuição monetária para o clube.

 

Os conjuntos musicais (como eram conhecidos naquele tempo) abrilhantavam estes bailes com grande fulgor e entusiasmo. O “Águias D'ouro” foi o precursor de outros grupos surgidos na sua esteira, como os “Companheiros do Luar” e, mais tarde, já nos anos 70, o “Sol Vermelho”. Todos estes conjuntos musicais eram constituídos por gente da terra. Os primeiros começaram por tocar banjos, bandolins e bandolas, depois vieram as guitarras eléctricas. Em meados dos anos 60 os bailes já eram abrilhantados por outros conjuntos musicais que não eram de Sarilhos Pequenos: “Primavera” da Moita (integrava dois Sarilhenses); “Os Caveiras” de Sarilhos Grandes; “José da silva” do Barreiro e outros…

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Os bailes marcaram um tempo e uma geração. Hoje já não existem bailes em Sarilhos Pequenos. Como disse o poeta Luís de Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e também mudam-se os usos e costumes, digo eu... Mas existe hoje uma nova realidade que trouxe novamente de volta os bailes, que estão na moda, mas agora têm casas próprias, dias certos e alguns chamam-se da 3ª idade. Muitos participantes destes novos bailes são os jovens de outrora, mas as “causas”, essas, já são outras. Agora diz-se que os bailes da Terceira Idade têm benefícios para a saúde física e mental, que a dança favorece a circulação sanguínea e ajuda reduzir o colesterol. Diz-se também que são espaços agradáveis, com clima familiar, onde se promove o convívio e a integração social, e porque não dizê-lo, também alguns encontros amorosos de circunstância e umas tantas uniões de facto. Com a idade e a experiência de vida acumulada, estes jovens de ontem não têm tantos anseios próprios da juventude. Eles carregam uma certeza: a vontade de serem felizes. Desta forma, um dia após o outro, vão descobrindo um envelhecer cheio de momentos divertidos, porque alguém disse um dia: “A felicidade não existe, às vezes acontece”. E como vida é muito fugaz, um sopro, um minuto, como disse Oscar Niemeyer, que viveu até aos 105 anos, é importante aproveitar esses momentos de felicidade que às vezes acontecem. É preciso sonhar. A vida ainda não terminhou e os sonhos não envelhecem...

 

Marcolino (Escrevo pela ortografia antiga)

 

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O ASSALTO À “BURRA DO CHUMBEIRO”

por marcolinofernandes, em 11.12.13

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                           Quinta do Esteiro Furado

 

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Nós também tivemos os nossos assaltantes românticos, à moda de hollywood, dignos de uma investigação Inglesa tipo Sherloch Holmes. Foi na Quinta do Esteiro Furado, em Sarilhos Pequenos, na primeira metade século XX, que se deu o arrojado assalto, perpetrado por duas figuras típicas da aldeia. Este assalto foi muito comentado na altura e nos anos que se seguiram. Os verdadeiros factos e os pormenores do assalto só os dois protagonistas tinham conhecimento. E esse conhecimento, essa informação, levaram com eles quando faleceram. O que ficou foi a história que o povo sempre contou sobre o assalto à “Burra do Chumbeiro”, que era o nome que a população dava a um suposto grande cofre, algures na Quinta do Esteiro Furado, pertença do dono da Quinta, o senhor João Manuel “Chumbeiro”, que viria mais tarde a vender a Quinta ao senhor António João da Silva, em Dezembro de 1972.

 

Os presumíveis larápios eram duas figuras típicas de Sarilhos Pequenos, já falecidas há muitos anos. Não menciono os seus nomes por respeito à memória de ambos. Segundo a versão do povo, o plano de assalto foi engendrado e executado pela calada da noite, tendo sido bem sucedido. As coisas só não correram tão bem após o assalto, porque os dois homens nunca se tinham visto com tanto dinheiro. Após a divisão do mesmo, resolveram gastá-lo “à grande e à Francesa” nas festas tradicionais de Alcochete. E assim, por escassos dias, ficaram momentaneamente endinheirados e passaram de homens pobres sem vintém a pobres homens com dinheiro. A corroborar esta ideia estará o facto de, à consumação do bem sucedido assalto, seguir-se uma sofreguidão desmedida em gastar tão rapidamente o produto do mesmo. A leviandade de tal atitude e a pouca familiaridade que tinham com o dinheiro terá precipitado a sua captura. Para quem vivia no limite da pobreza, poder-se-á até falar em miséria, verem-se de repente com tanto dinheiro, alterou-lhes o discernimento, tornando-os bastante suspeitos aos olhos de quem os conhecia, pelo que as denúncias ocorreram e a prisão tornou-se inevitável.

 

Na época todos se perguntavam como é que dois “pilhas galinhas” – digo isto sem sentido depreciativo, porque de facto a área deles eram os galinheiros, os laranjais e outros lugares afins – conseguiram elaborar e pôr em pratica um plano de assalto a um palacete habitado, numa quinta que estava vedada e era patrulhada por um guarda a cavalo (guarda da quinta), empunhando uma espingarda, que utilizara algumas vezes, sendo uma dessas vezes para atirar num destes assaltantes, noutra ocasião, quando o assalto eram às laranjas do grande pomar que ali existira em tempos. Contava-se que o tiro o terá atingido nas pernas e que fora disparado com cartuchos cheios de sal, ferindo-o de tal forma que veio de rojo pela azinhaga, arrastando-se até à sua «casa» (barraca). Não há dúvidas que eles pensaram o assalto e prepararam um plano. A tarefa não era de somenos, apesar de alguns dizerem que a sorte protegeu os incautos, subestimando a inteligência destes dois assaltantes. Não tinham, evidentemente, um QI (Quociente de Inteligência) elevado, a prova disso foi a forma como gastaram o dinheiro do assalto, mas se foram bem sucedidos no dito assalto é porque não eram totalmente desprovidos de inteligência, apesar de serem iletrados, analfabetos. Um deles era cadastrado e passara vários anos na prisão.

 

Falo destes homens com benevolência e até com algum carinho, porque lembro-me muito bem deles e da vida dura que levaram. Um deles voltava de quando em vez à casa de sua mãe, que ficava a 50 metros da minha casa, sempre que saía da prisão. Penso que uma boa parte da sua vida terá sido passada em prisões. Lembro-me, enquanto criança, de ficar muito intimidado ao passar por ele, mas não havia razão para o temer, eram só receios de criança. Utilizei atrás a palavra carinho, porque eles não eram violentos, antes pelo contrário, não se consta que tivessem alguma vez feito mal a alguém, ao contrário dos assaltantes de hoje. Nunca furtaram a quem nada tinha, ou quem tinha pouco, nem nunca assaltaram as casas da população. Eles foram dos tais que nasceram e foram criados em ambiente muito desfavorável e também não eram providos de grande discernimento, mas, apesar de tudo, foram duas figuras do meu imaginário infantil que recordo com alguma pena, porque me lembram anos muito difíceis em termos económicos, sociais e políticos. Foram tempos de muita pobreza, muita iliteracia, muita repressão politica, mas também muita luta, muita coragem e muita esperança. Foi uma época em que também imigraram milhares de portugueses, fugindo à miséria, muitos tiveram de fugir à socapa, passando a fronteira a “salto”, porque o regime não os deixava sair. Hoje são os próprios governantes (2013, governo PSD/CDS) – estes rapazes que nunca trabalharam, filhos do capitalismo selvagem e desumano – que mandam os nossos jovens valores imigrar, comprometendo assim o futuro de Portugal. E mais ainda, estes pobres assaltantes comparados com actuais assaltantes (leia-se os banqueiros, o BPN, o BES e esta gente que nos governam) seriam considerados imaculados.

 

A pobreza costuma ser vista como consequência de se nascer e ser criado em ambiente desfavorável ou, também, resultado de fracasso pessoal. A falta de meios financeiros pode, por si só, deteriorar as funções cognitivas do indivíduo. No caso destes dois Sarilhenses menos considerados, penso que se conjugaram os dois factores: criados em ambiente desfavorável e fracasso pessoal. Nascer pobre não significa ser menos inteligente que os demais, aliás, há até bastantes exemplos de pessoas que nasceram pobres e revelaram-se grandes figuras da humanidade. Todavia, a pobreza em si mobiliza muita energia mental. É como um computador que é lento porque está a carregar um vídeo longo demais. Dizem os especialistas, que os esforços feitos pelos pobres para enfrentarem problemas materiais básicos, como a incógnita de saber se haverá dinheiro suficiente para alimentar a família ou pagar a renda da casa, esgotam a capacidade mental dos mesmos e deixa-os com pouca energia cognitiva para se dedicarem à educação deles e dos próprios filhos. Se alguma vez conseguirmos uma sociedade que atenda às preocupações que fazem reduzir a carga cognitiva dos pobres, então, nessa altura, haverá muito menos probabilidades de surgirem assaltantes como estes dois. Mas essa sociedade não se vislumbra nestes tempos que vivemos, antes pelo contrário, assistimos a uma regressão civilizacional cuja dimensão pode atingir consequências futuras irreparáveis para a humanidade e em particular para a Europa. Acreditar em utopias não significa que nos iludamos, significa que temos esperança.

 

Marcolino (Escrevo pela ortografia antiga)

 

 

 

 

 

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OS MEDOS DE ANTIGAMENTE

por marcolinofernandes, em 06.12.13

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 1ª PARTE

 

Nascemos e crescemos em Sarilhos Pequenos, numa época em que as crianças nasciam em casa ajudadas pelas chamadas parteiras do povo: a Ti Ana do “Liró” e a Ti Emília “Larilas”, que, apesar de serem analfabetas, tinham muita experiência do assunto, fruto de uma prática constantemente repetida. Era um tempo em que as proles eram numerosas, havendo famílias com quatro, seis, oito, dez e até catorze filhos. Foi preciso construir uma segunda escola primária, em fins da década de 1950, para dar saída a tantas crianças.

 

No início da nossa infância não havia água canalizada, nem esgotos, nem luz eléctrica: A água ia-se buscar aos poços públicos, que nós chamávamos de bombas, por se extrair a água através de bombadas manuais; os dejectos eram recolhidos pela “Pipa” (cisterna ambulante); a iluminação das casas era feita com candeeiros a petróleo; as comidas eram confeccionadas a lenha ou a fogão a petróleo. Ao pôr da noite brincávamos na rua, às escuras, às vezes iluminados pelas noites de lua cheia. 

 

Nestas condições os medos fictícios que a escuridão e as longas conversas às lareiras das chaminés à moda antiga de poial alto e fundo para melhor arder a lenha, deixando os tachos e panelas mascarrados – perduraram ao longo de várias gerações, quando o tempo passava devagar e tudo era mais calmo. Era o conteúdo dessas conversas sobre patranhas e medos, lobisomens, mulas sem cabeça, almas de outro mundo e outras histórias afins, que nos faziam ir para a cama com o coração “tefetefe” e a cabeça debaixo dos lençóis. Nas noites invernosas adormecíamos ao calor e à sonolência das braseiras dessas mesmas chaminés.

 

Sarilhos Pequenos desses tempos era uma aldeia ribeirinha rodeada pelo rio e pelos muros das cinco salinas: Bombaça, Furadinho, Sargeda, Guisada, Alviela, e por três pinhais que ainda existem: o pinhal do Mocho, o pinhal do Inglês e o pinhal do Lourenço, todos dentro do perímetro da aldeia, mesmo o pinhal do Lourenço, que fica na estrada do Esteiro Furado. Havia também as grandes e pequenas quintas, olivais, laranjais, fazendas, charcos grandes e pequenos. Os caminhos eram de veredas e azinhagas, ladeadas por valados, alguns com densos caniçais e arbustos, onde as lendas e os medos se mantiveram ao longo dos anos. Muitos habitantes acreditavam piamente desses medos do sobrenatural, pelo que as mezinhas tradicionais transmitidas de pais para filhos como forma de se protegerem contra essas aparições terríficas, eram muito consideradas: A ferradura já usada pela besta e pregada nas portas das casas; os chifres; o alecrim queimado; os molhos de ramos apanhados no campo e pendurados atrás das portas; as rezas específicas e apropriadas para o mau-olhado (quebranto); os amuletos de uso pessoal; os Santos; as cruzes; etc. Estas eram as formas “seguras” de defesa que algumas pessoas usavam contra esses seres malignos e destruidores, como imaginavam as suas mentes inquietas. As histórias de lobisomens, bruxas e demónios, encantavam, ao mesmo tempo que aterrorizavam os pequenos ouvintes que, hipnotizados, escutavam os adultos de imaginação fértil e sombria, descreverem cenas arrepiantes, fabricando medos, aparições horrendas, transformações inexplicáveis, que criavam um clima de trémulos calafrios ao passarem por lugares escuros e encruzilhadas de caminhos com fama de estarem assombrados. Muitas destas histórias eram contadas à noite quando as conversas eram motivo de convívio e passatempo entre famílias, vizinhos e amigos. Havia homens e mulheres que eram exímios contadores de histórias macabras, quase sempre rodeadas por vários ouvintes e alguns deles menores. Escutavamos narrações das coisas mais incríveis e inexplicáveis, ouvidas em silêncio arrepiante, com os rostos estupefactos. Eram petas ardilosas as histórias contadas de bruxas e lobisomens, que se transformavam em animais de todo o tipo, ou em barris que rolavam pelas ruas, altas horas da madrugada, para depois atacarem as pessoas, passando-lhes o feitiço. Da boca do povo não se livraram algumas pessoas da terra, acusadas de serem bruxas ou lobisomens. Segundo as pessoas de idade avançada o lobisomem tinha que ser picado com uma vara de bico afiado na ponta, a fim de fazer sangue, para que o espírito maligno apossado do homem se retirasse. A pessoa com coragem para fazer este trabalho não podia falhar à primeira, sob pena de ser ela própria acometida de ataque e transformada no feitiço.

 

Sem iluminação geral, as noites eram longas e escuras como o breu, às vezes ventosas no Inverno. As ruas eram de terra-batida e encontravam-se pesadas e enlameadas das fortes chuvadas que caía. Os sons e estalidos ecoavam aos nossos ouvidos: O piar das corujas, que traziam mau augúrio às famílias supersticiosas; o latir dos cães, que entoava pelas ruas nas noites frias; o coaxar das rãs nos charcos circundantes; as portas das casas velhas e abandonadas, que batiam com o vento; os ramos das árvores remexendo-se ao passarmos por recantos obscuros; a escuridão silenciosa dos becos e das entradas dos pátios sombrios e medonhos, como a angústia que nos maus momentos sempre ataca as famílias de vida difícil.

 

Quase todos se deslocavam a pé ou de bicicleta. E à excepção da estrada principal, Sarilhos Pequenos – Chão Duro, que também era ladeada por valados, olivais e caniçais, tendo sempre por companhia a escuridão, tudo o resto eram caminhos de azinhagas com valados e veredas. Assim, não era de espantar que toda a espécie de medos proliferasse na mente dos habitantes mais crédulos, por força de tanto ouvirem falar de tais patranhas. Por vezes, já tarde da noite, vir pé, sozinho, do Chão Duro ou de Sarilhos Grandes, para Sarilhos Pequenos, já era uma proeza só conseguida pelos mais afoitos, que também lá os havia em maior quantidade, para quem os medos partiam do próprio homem e não do sobrenatural e irreal. Os outros, os supersticiosos, que eram uma minoria da população, quando apanhados nesta situação, eram apossados de um estado tal de nervosismo que tudo que viam mexer ao longo do caminho era transformado pelas suas mentes apavoradas nos tais lobisomens, almas do outro mundo, bruxas, cavalos sem cabeça, etc. Havia locais específicos com fama de aparecimentos macabros, como a passagem pelo moinho de maré, sobretudo quando a passagem passou a ser feita por dentro do moinho, pelo apodrecimento das tábuas da passagem pedonal; o caniçal a meio da estrada de Sarilhos Pequenos; as azinhagas; os pinhais; os olivais e dentro da povoação o “Bairro das Tesas”.

 

Convenhamos que os medos de hoje são bem mais reais do que esses medos fictícios de antigamente. São os medos de ficar desempregado; os medos de ver os nossos filhos emigrarem, desesperados por não conseguirem trabalho no seu país; os medos do empobrecimento que estes lunáticos, filhos do capitalismo selvagem, (2013, governo PSD/CDS) nos estão a impor; os medos da fome; os medos de não se poder pagar a prestação da casa; os medos de não ter dinheiro para os medicamentos; os medos até de um regresso ao passado obscuro e ditatorial; os medos, enfim, de um futuro sombrio…

 

Sinto saudade dos medos da minha infância. Saudade da alma do outro mundo que a minha avó jurava falar no quarto dela, à noite, com quem mantinha uma conversa fluente. Saudade do lobisomem que arranhava a porta, saudade do vizinho que se transformava em noite de lua cheia, saudade dos fantasmas que não se viam e das “bruxas" da minha aldeia, que nunca foram…

 

Hoje, aceitaria trocar, sem pestanejar, o medo que sinto pelos povos sujeitos à barbárie terrorista jihadista (terrorismo islâmico), pelos medos que sentia na minha infância.

 

Ah, que saudade! Já não se fazem medos como antigamente.  

 

Dos prazeres que me permito, visitar reminiscências do passado é, sem dúvida, um dos meus favoritos.

Marcolino (Escrevo pela ortografia antiga)

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