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TRAVESSIA MARÍTIMA SARILHOS PEQUENOS – MONTIJO

Aproveito o Estado de Emergência e o recolher obrigatório à noite para responder a um amigo que me solicitou uma informação sobre a história local de Sarilhos Pequenos e os modos de vida dos sarilhenses ligados ao rio Tejo. E como a informação já consta no meu primeiro livro, editado em 1998, mas que nem todos tiveram acesso por se ter esgotado rapidamente, faço questão de publicar aqui essa informação para todos os amigos em geral e para os sarilhenses em particular, incluindo o meu amigo que fez o pedido. Ele quer saber os nomes dos homens, barqueiros ou passadores, como se queira chamar, que fizeram da travessia Sarilhos – Montijo o seu modo de vida. Assim, vou deixar aqui os nomes contextualizados no pequeno texto que se segue:

Sarilhos Pequenos fica à distância de uma milha marítima do Montijo, em linha recta, mais ou menos dois quilómetros, pelo que a travessia não era tarefa fácil, sobretudo no Inverno em que a chuva e os ventos fortes aumentavam a ondulação. A travessia era feita a remos ou à vela através de pequenos botes: catraios com velas de espicha e lanchas a remos. Os fragateiros chamavam lanchas aos pequenos botes de apoio que todas as fragatas possuíam.

Os passageiros ocasionais, por vezes, participavam também nas manobras das embarcações de modo a abreviar o tempo do trajecto e minimizar o esforço do barqueiro. O embarque era feito na "Ponta-da-Marinha", cujo local estava empedrado desde o muro até à "carreira" para os barcos poderem receber as pessoas na maré baixa, sem terem de passar pela lama. Na preia-mar, as embarcações vinham mesmo junto ao muro receber os passageiros. No muro havia uma reentrância com dois degraus, formados no próprio terreno do muro, para se descer para as pedras que estavam na lama a formar caminho até à carreira aquando da baixa-mar. Naquele tempo, o rio não estava tão assoreado como está hoje. Havia o moinho de maré, que abria a porta d`água constantemente, e toda uma azáfama de barcos a navegar: botes de transporte do pinho; varinos de transporte do lixo e do sal; barcos de transporte de ostras, de madeira, de tijolos, de hortaliças, de frutas; canoas da apanha de limos, de morraças, etc. Os barqueiros faziam o trajecto mais directo possível: “Ponta-da-Marinha” –“Paus- da-Vila” – Montijo. “Paus-da-Vila” foi um local sinalizado, onde começara uma espécie de canal, cala, ou carreira, como nós dizíamos em Sarilhos Pequenos, que existiu até princípios do século XX, e serviu para passagem dos barcos entre Sarilhos Pequenos e Montijo, ligando directamente as duas carreiras. Depois, com o passar dos anos, o assoreamento fechou a passagem. Actualmente, só com a maré cheia os barcos podem passar e encurtar caminho, dependendo do calado (*) da embarcação. 

Ao longo dos anos, os preços cobrados pelos barqueiros foram sendo alterados. Com efeito, os últimos preços variaram entre dez a vinte cinco tostões (um escudo a dois escudos e meio) por cada passageiro transportado, mais ou menos até 1964/65. As pessoas transportadas eram trabalhadores da indústria corticeira (o Montijo era uma localidade com muitas fábricas de cortiça à época) e pessoas que iam fazer compras e outros serviços. Na década de 1960 dezenas de jovens sarilhenses, rapazes e raparigas, iniciaram-se precocemente no trabalho, nas fábricas de cortiça do Montijo, fábrica do Pablos, sobretudo. Acabada a escola primária havia que trabalhar para ajudar os pais no sustento da família. Os rapazes como ainda não tinham idade para "tirar" a cédula marítima (só era permito aos 14 anos) que lhes permitia seguir as pisadas dos pais ingressando nas fragatas do Tejo, ali trabalharam entre os 12 e os 14 anos. Foram (fomos) todos vítimas das circunstâncias, do trabalho infantil e da ditadura salazarista. Faziamos o trajecto entre Sarilhos Pequenos e Montijo a pé, ida e volta, de Verão e de Inverno, com sol ou com chuva, praticamente uma hora a caminhar. Recordo uma antiga máxima a propósito das crianças e das brincadeiras:  "Se nós não podermos agir como crianças não nos interessa brincar". Nós deixámos de brincar, prematuramente, aos 12 anos de idade.

Posto isto, aqui ficam os nomes dos barqueiros de Sarilhos Pequenos tal qual eram chamados ao tempo: pelos nomes e pelas alcunhas, referindo-me apenas ao século XX, de 1900 a 1965: “Ti Zé-Pomba”, “Ti Bernardino Rola”, “Ti Manuel Pecaco”, “Ti António Galeguinho”, “Ti Zé-Ferrum”, “Ti Zé-Batata”, “Ti Chico da Estefânea”, “Ti João Catarrinho” (com o seu catraio “Atalaia") e, por último, o “Ti Maneiras” (eu próprio fiz a travessia como seu passageiro).

Marcolino C. Fernandes escreve de acordo com antiga Ortografia e não pela nova Ortografia “Brasileira”.

 

(*) CALADO é a distância vertical entre a superfície da água e a parte mais baixa da embarcação, a quilha, quando a mesma flutua. Não confundir com PONTAL, que é a medida vertical entre o convés principal (vau do convés) e a quilha.

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