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NO TEMPO EM QUE SE BRINCAVA (2)

por marcolinofernandes, em 05.02.14

 

(QUEM TEM UM AMIGO PRODIGIOSO TEM TUDO)

 

    Naquele dia o nosso grupo, o grupo da Margateira, era constituído por meia dúzia de rapazes, que decidiram ir nadar logo pela manhã. Tínhamos idades entre os sete e nove anos e vivíamos em 1958 ou 1959, já não me lembro exactamente o ano, mas isso é apenas um preciosismo sem importância nesta pequena história passada em Sarilhos Pequenos.

   Os dias longos de um verão solarengo, só refrescados de quando em vez pela brisa do vento à barra, vento Oeste, levava-nos a confluir para a “Borda do Mar” a fim de darmos largas às nossas diabruras. Éramos impelidospela vivência colectiva, pela liberdade da meninice e pela vadiação salutar: quais borboletas voadoras…

   O grupo era liderado pelo A.M.G., rapaz moreno, cabelo liso, penteado para o lado com uma «rafa» a cair sobre a testa, porte atlético a condizer e multifacetado nas várias vertentes da vida: bom jogador de futebol; bom nadador; bom dançarino; bom conversador e outras façanhas que tais... A sua melhor qualidade, digo eu, era a generosidade, apesar de algumas pessoas da época, sobretudo as mais idosas, verem nele muita irreverência. Esqueciam-se, ou não sabiam, que é próprio dos adolescentes e dos jovens serem irreverentes. Para bem comportadinhos e obedientes já bastavam os meninos da mocidade portuguesa (organização fascista da juventude) que o regime cultivava! Mas o A.M.G. não era desses... era daqueles “antes quebrar, que torcer”. Como seu companheiro de infância e amigo, o que eu vi nele foi CARISMA. Tinha qualidades e personalidade das pessoas que se destacam e exercem espontaneamente atitudes de líderes, contagiando os que lhes estão próximos. Aqueles que têm carisma, como era o caso dele, são estimados, são ouvidos, despertam o interesse dos outros e geralmente são simpáticos e contagiantes. São pessoas que têm a habilidade de cativar absolutamente toda a gente? Não importa a sua aparência ou condição social, são virtuosos que pelo seu carácter se tornam o centro das atenções. É um tipo de magnetismo que inspira confiança e adoração. Assim como a beleza, a posição social e a sorte, também o carisma pode abrir muitas portas na vida. Contudo, são qualidades difíceis de obter, não é qualquer um que pode ter carisma.

    O A.M.G. não era muito dado a disciplinas rígidas, era um rebelde por natureza. Rebelde, no bom sentido da palavra, um espírito livre e brincalhão. Era visto por alguns adultos como um malandrete, um «gozão», (leia-se, trocista) devido à sua maneira de ser, irrequieto e dominador. Os que lidavam com ele de perto, sabiam que tinha um coração do tamanho do mundo.. Condoía-se, muitas das vezes, com os indigentes de ocasião que apareciam lá na Terra, em meados dos anos 50.

    A azáfama da brincadeira predominava e o convite surge por uma voz terminante vinda do meio do grupo:  

       É pá, malta, vamos p’ra “Borda do Mar” ao banho!... – sugere o A.M.G. em tom convidativo.

       “Bora”!... Vamos nadar e atravessar a carreira para o outro lado, para a Banda do Arço. - Respondeu prontamente o Chico Gordo.

       Eu não tenho calções de banho! - avisa o Fisgas, muito aflito com a situação.

       Não te rales, vamos mesmo em cuecas. Eu também vou... – responde o  Guedelhas.

       É que eu só tenho estes calções de andar por aí, não tenho cuecas! – repete  o Fisgas, envergonhado.

       Vamos mas é todos nus, pá! – gritava lá de trás o Mansinho em tom sarcástico e  muito matreiro, como sempre. O Fisgas, que era muito tímido, estava pouco à vontade e ficou corado, com um vermelhão roborizado na face. Vai daí, olhou para os lados, um pouco encabulado, colocando as mãos nos calções, a contra gosto, fazendo o gesto para se despir, mas, por momentos, hesitou.

       E se alguém nos rouba a roupa? – replicou.

       Bem... vamos todos nus para casa, tal qual viemos ao mundo! - resposta pronta do Mansinho, que em tom jocoso ainda disse:  

       Vá lá ver, pá!... Tens vergonha ó quê!?... Não me digas que já «pintas»!?...

A galhofa e a risada contagiaram o grupo, e para o pôr à prova a malandragem despiu-se toda, levando-o também por arrastamento a fazer o mesmo. O Fisgas, a muito custo, olhou à sua volta, para um lado e para outro, a ver se vinha alguém conhecido e, devagarinho, lá foi tirando a roupa. Depois de estar em pelota, levou as duas mãos em forma de concha às partes, numa atitude de timidez.

       Eh pá! t’ás a ver!?... Não custa nada!... B’ora! Vem daí! Vamos à «roca»!... (leia-se, roubar uvas à vinha do Sr. António Carlos) – recorda o Mansinho. Para trás ficara o Guedelhas, retardatário como sempre, entretido a atirar pedras achatadas ao rio, fazendo-as deslizar por cima da água, aos cavalinhos.

Entretanto, outro grupo aproximara-se. Era a «Malta lá de Cima», que vinha em fila Indiana pelos muros do Castanheiro, pontapeando-se e rasteirando-se uns aos outros, numa correria desenfreada a caminho da “Borda do Mar”. Na ânsia de ver quem chegava primeiro à água, valia tudo: empurrões, rasteiras, topadas, puxões e trambolhões, que, por vezes, resultavam em esfoladelas da pele, deixando à vista as mazelas, logo ali desinfectadas, com muito ardor, ao entrarem na água salgada.

       Ai!!! Eh pá! Cabrão! Pisaste-me de propósito!

       Eu!? Vai-te lixar!... Tu é que te puseste à minha frente! – durante a corrida, há uma voz que se faz ouvir alto e bom som:

       Quem for o último a chegar é maricas!...

    O «Gordinho», corria desajeitado, bandeando-se todo, com as banhas da barriga aos pulos, deixando-se ficar para trás. A vontade de os acompanhar era boa, mas o seu corpo havia-o traído. Mesmo assim, não foi o último a chegar, o último foi o Bibos que se estatelara no chão, passaram-lhe uma rasteira. Vai daí, todo empoeirado a queixar-se duma perna, vociferou:

       Malandros de merda! «Voceses» empurraram-me! Assim não vale! Fizeram-me cair e aleijaram-me!

       Ah! Ah! Ah! Ainda cheguei à tua frente! – regozijava-se o Gordinho.

       Cala-te Gordo! Tu nem podes com o cu! Se não me tivessem empurrado ficavas a milhas...

    Juntos éramos todos iguais e todos frescos! A vivência colectiva proporcionava-nos a experiência do contacto com a natureza e o conhecimento das relações humanas. Apreendemos pequenos truques sobre a vida, que foram muito úteis na nossa existência adulta.

    Depois de tanta correria e muita chacota, todos se atiraram à água para irem à «roca»: colher uvas em vinha alheia, pela calada, atravessando a carreira a nado para a outra margem do rio, a Banda do Arço. Era um ritual de todos os verões, cuja tradição o tempo se encarregara de passar de geração em geração. Os mais afoitos atiravam-se primeiro e depois seguiam-se uns atrás dos outros, esbracejando e afastando-se num ápice, ávidos de chegar ao outro lado onde estavam as belas uvas. No regresso trazíamos os cachos de uvas dependurados nas bocas, fisgados pelos dentes, tantos quantos pudéssemos acarretar, dependia da destreza e valentia de cada um, deixando as mãos livres para nadar. Nem todos tinham a coragem e o atrevimento de cometer tal proeza, só conseguida pelos mais destemidos. Atravessar a carreira já era uma vitória pessoal para quem conseguisse nadar tal distância sem tomar pé, mas, mais difícil ainda, era nadar com a boca cheia de uvas e respirar só pelo nariz. Os mais novos e os menos resistentes desistiam a meio do caminho, temendo perder as forças. Casos de afogamento eram raros, embora houvesse conhecimento de alguns como o Joaquim “Catimâncias” (rapaz de família pobre que veio morar para o “Bairro das tesas”, em Sarilhos Pequenos), que ali perdera a vida. Dizia-se que não sabia nadar, que fora traído pela corrente da caldeira do moinho. Mas também se dizia que fora suicídio, provocado pela pobreza que vivia em sua casa.

    De quando em vez havia uns sustos valentes e alguns «pirolitos» engolidos. O problema era a corrente de água vinda da caldeira do moinho de maré, quando abria as comportas e esvaziava na vazante, puxando os mais incautos e de pouca resistência. Havia sempre aqueles que, por inexperiência ou por desconhecimento das manhas do rio, cometiam erros fatais. Por vezes alguns não calculavam bem as distâncias para dosearem o seu esforço e, na ânsia de seguir os outros mais rápidos e melhores nadadores, cansavam-se. Foi precisamente o caso do M.C.F. naquele dia, quase fatídico, dos anos cinquenta: Atirámo-nos todos ao rio e começámos a nadar Crawl, à braçada – como nós dizíamos – para nos distanciarmos da margem rapidamente. O M.C.F., que era o mais pequeno, atrasou-se um pouco e nadou com braçada rápida para tentar chegar-se aos outros, mas depressa se cansou e perdeu as forças, ficando à mercê da corrente e engolindo vários «pirolitos» que contribuíram para a sua agonia, mal se contendo ao cimo da água. Com movimentos lentos e sem nexo virou-se de costas, tentando fazer de homem morto para se manter à tona de água. Terá sido isso que lhe valera até chegar o seu amigo, o A.M.G., o tal rapaz prodígio e de bom carácter, que era também um exímio nadador. Ele apercebera-se que o seu amigo estava em dificuldades e voltou atrás para o socorrer, segurando-o com firmeza pela nuca para não se afogar. Entretanto, o alarme tinha sido dado por alguém em terra, que se apercebera da situação, chamando a atenção dos homens do estaleiro naval, que de imediato pegaram num pequeno bote e foram em seu auxílio, culminado com o resgato bem sucedido. O A.M.G. só largou o amigo após a chegada dos homens do estaleiro naval. Foram minutos de desespero que culminaram com o salvamento do M.C.F., que não ganhou para o susto. A sua ingenuidade de criança, subestimando as leis do rio, ia-lhe sendo fatal, não fora a atitude corajosa e louvável do A.M.G. Depois de se recompor do susto o M.C.F. regressou sozinho a casa, pela rua da Margateira, triste, cabisbaixo e com orgulho ferido. Os outros continuaram as suas brincadeiras, afinal de contas o perigo já tinha passado e não era a primeira vez que o rio pregara partidas daquelas.

    A atitude é uma pequena coisa que faz uma grande diferença. E é por isso que uns têm nobreza de carácter e outros não. Não quero com isto dizer, que os restantes membros do grupo não sejam hoje, também eles, homens distintos. Porém, naquele dia, o A.M.G. foi o único que voltou a trás para socorrer o amigo. Certamente não foi um acaso, foi obra do tal carácter dele de que já falei, da sua generosidade, companheirismo, amizade, lealdade e solidariedade. Por tudo isto é que eu digo que ele tinha muito CARISMA. Há um aforismo que diz: “Um irmão pode não ser um amigo, mas um verdadeiro amigo será sempre um irmão. E o A.M.G. foi o irmão que eu escolhi. É um sentimento que perdura para toda a vida.

 

Marcolino (Escrevo pela ortografia antiga)

 

Notas: 1 - Os verdadeiros nomes dos intervenientes nesta pequena história são substituídos por personagens fictícias para não melindrar ninguém.

 

2 - Dos companheiros de infância com quem brincámos naquele tempo, alguns já partiram: O “31”, que se chamava Fernando, filho da Ti Maria Orvalha, faleceu ainda criança, com o tétano, ao espetar um prego ferrugento, na “Lameira”; o Carlos do “Luís do Barreiro”, que saiu de Sarilhos Pequenos adolescente, também já faleceu; o “Chico da Maria”, outro bom amigo, faleceu há pouco tempo no país de acolhimento onde era emigrante; o “Chico da Loca” também já faleceu; o Casaca (António José), do grupo da “Trás da Taipa”, também faleceu faz tempo; o João Guilherme morreu na guerra colonial, onde aliás o “Zé Fanha” (também falecido) perdeu a perna e o A.M.G. foi feito prisioneiro de guerra, mas felizmente regressou são e salvo. Podia mencionar outros um pouco mais velhos que nós 2 ou 3 anos, que também já faleceram, e que ainda os apanhámos nas brincadeiras, mas para não correr o risco de me esquecer de algum, sempre desagradável, termino aqui.

 

 

 

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